Arquivo do mês: fevereiro 2011

Aos EUA, Uribe reclamou de “espírito imperial” brasileiro

Em 15 de dezembro de 2004, entre as 17h30 e 18h, o ex-presidente colombiano, Álvaro Uribe, participou de uma reunião de alto nível no palácio presidencial com o então subsecretário-adjunto do Departamento de Estado dos Estados Unidos para Assuntos do Hemisfério Ocidental, Charles Shapiro, o subsecretário-adjunto para o combate às drogas Jonathan Farrar e o embaixador norte-americano em Bogotá, William B. Wood, além do diretor de temas andinos, David Henifin.

O fato é relatado num dos documentos obtidos pelo Wikileaks aos quais esta repórter teve acesso. São despachos da diplomacia americana que tratam das relações entre o Brasil e outros países sul-americanos. Em vários destes documentos, o resistência de alguns países sul-americanos em relação à influência brasileira é evidente, embora também haja que a veja com bons olhos e como contraponto aos EUA.

Na época da reunião, Uribe estava havia dois anos no cargo e levava a cabo a política que chamou de “segurança democrática”, para combater os grupos armados que atuam no país. A política, abertamente apoiada pelos Estados Unidos, fortaleceu o Exército do país e liberou estradas colombianas antes controladas pelas guerrilhas, empurrando os combatentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e do Exército de Libertação Nacional (ELN) para as montanhas.

O principal tema da reunião foi a ajuda americana na luta contra as FARC. Uribe afirmou, na reunião, que os grupos armados não poderiam resistir mais que cinco anos à pressão militar. O presidente colombiano também se queixou de Hugo Chávez, presidente da Venezuela. A certa altura a conversa chegou ao Brasil.

“Uribe disse que a sue relação com [o então presidente] Lula é complicada pelos esforços de Lula em construir uma aliança anti-Estados Unidos na América Latina”, relata o telegrama. Em seguida, Uribe afirma que o Brasil teria pretensões imperialistas: “Lula é mais prático e inteligente que Chávez, mas é levado pelo seu background de esquerda e o ‘espírito imperial’ brasileiro a se opor aos EUA”.

O presidente colombiano disse ter pouca influência sobre Lula ou Chávez porque eles o veriam como um amigo dos EUA. Mesmo assim, afirmou que continuaria a pressionar Chávez a tomar ações contra narcotraficantes. Afirmou ainda que Lula não cumpriu suas promessas de lutar contra o narcotráfico.

Conselho de Defesa Sul-Americano

Essa não foi a única vez que o alto escalão do governo colombiano reclamou do Brasil aos diplomatas americanos. Outro telegrama, datado de 9 de maio de 2008, revela a desconfiança do ex-ministro da defesa colombiano, Juan Manuel Santos (presidente da Colômbia desde junho de 2010) em relação à proposta de criação do Conselho de Defesa Sulamericano (CDS), defendida pelo Brasil.

Durante a conversa, que aconteceu em 30 de abril do mesmo ano, o embaixador norte-americano chegou a sugerir formas de flexibilizar o mandato do Conselho.

Dois dias antes da reunião na embaixada Juan Manuel Santos tivera um encontro com o ministro de defesa brasileiro, Nelson Jobim, em que discutiu a proposta encabeçada pelo Brasil sobre a criação do Conselho.

Jobim viajara a diversos países sul-americanos para apresentar a proposta. No caso da Colômbia, a reunião aconteceu em Bogotá. Ao embaixador, Santos disse que rejeitou proposta, expressando preocupação de que a iniciativa poderia duplicar as funções da OEA (Organização dos Estados Americanos) e da ONU (Organização das Nações Unidas).

“Santos explicou para Jobim que o governo colombiano temia que a iniciativa soasse demasiadamente como uma ideia da Venezuela”, diz o telegrama. “O governo colombiano não quer suas forças armadas subjugadas a uma instituição que não compreende totalmente. Do mesmo modo, está relutante a ingressar em uma instituição que poderia ser percebida por muitos como um esforço para distanciar a América do Sul do governo americano”.

A resposta de Jobim, segundo o documento, foi dura: a Colômbia ficaria completamente isolada se não entrasse na iniciativa – e o Brasil prosseguiria com ou sem ela.

No dia 1º de maio, foi a vez do ex-comandante do exército General Mario Montoya conversar com a representação americana. Ele disse que os militares colombianos não queriam “ser isolados” do resto da América do Sul, embora o “timing” da proposta fosse particularmente “infeliz” por causa do atraso na aprovação do tratado de livre comércio com os EUA.

O embaixador avisou que repassaria informações sobre a iniciativa a Washington. “Ele concordou que o governo colombiano deveria explorar se outros governos regionais tinham receios e, se fosse o caso, ver se eles se aliariam ao governo colombiano”.

O embaixador propôs que o governo explorasse se poderia sugerir opções que iriam ajustar o “timing” e o nível de participação. “Por exemplo, quem sabe um governo poderia se unir sem ter que aceitar todos os níveis de participação”. O telegrama é assinado pelo embaixador William R. Brownfield.

O Conselho de Defesa Sul-Americano acabou sendo aprovado, afinal, na cúpula extraordinária da União de Nações Sul-Americanas em 15 de dezembro de 2008.

Temas pedidos – até agora

Quarta-feira. Faltam dois dias ainda pra você mandar sua sugestão de temas a serem pesquisados entre os documentos da embaixada e consulados americanos no Brasil. Até agora já recebi mais de cem sugestões – terão prioridade aqueles temas que forem mais pedidos.

Para a divulgação, vamos fazer parceria com uma série de blogs e veículos independentes, entre eles: Carta CapitalLuis Nassif Online, Blog do Mello, Escrevinhador, Viomundo, Nota de Rodapé, Maria Frô, Fazendo Média, Futepoca, Elaine Tavares, Gonzum, Blog do Rovai, Blog da Cidadania, Altamiro Borges e Doutor Sujeira.

É um experimento inédito. Até agora, Globo, Folha e WikiLeaks estavam usando seus critérios para julgar quais documentos seriam publicados por vez, algo “de cima pra baixo”. Dessa vez, o próprio público vai decidir, invertendo a lógica da produção da notícia.

Os documentos do Cablegate compreendem cerca de 3 mil  telegramas enviados pela embaixada de Brasília e pelos consulados de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife entre 2003 e 2010.  As publicações começam neste domingo.

Segue uma lista com os temas mais recorrentes até agora:

- Daniel Dantas

- Israel

- Aécio Neves

- Celso Amorim

- Mensalao

- Nelson Jobim

- Sarney

- líderes oposicionistas – FHC e Serra

- Campanhas eleitorais

- “Chávez” e “Venezuela”,

- Farc

- Amazônia

- Petrobras

Telegramas da embaixada: do público pra o WikiLeaks

A nova fase de divulgação de documentos da representação brasileira vai começar neste domingo.

Os temas serão escolhidos pelo público e pesquidados por mim dentre os quase 3 mil documentos referentes ao Brasil.

A ideia é reverter a lógica de “cima pra baixo”, em que o WikiLeaks e  jornais associados decidem o que deve ser publicado, e deixar as pessoas decidirem.

Vou receber sugestões até sexta-feira.

Por isso, continuem pedindo temas a serem buscados nos telegramas. Até agora menos de 400 documentos proveninetes do Brasil foram publicados no site http://wikileaks.ch/cablegate.html.

Para saber os temas que já saíram, recomendo: cablesearch.org

Troféu Mulher Imprensa – ÚLTIMO DIA

Pra quem acompanhou a divulgação dos documentos pelo WikiLeaks e acredita no trabalho da organização: estou concorrendo ao Troféu Mulher Imprensa 2011. O voto é do publico. Clique aqui para votar.

A indicação foi graças às matérias que tenho feito para o site do WikiLeaks e para este blog na Carta capital. Ou seja: reconhecimento que jornalismo, mesmo fora dos veículos tradicionais, pode sim ser reconhecido.

Sou a única jornalista independente do prêmio – e quero mostrar que é possível fazer jornalismo independente de qualidade.

Algumas das reportagens que fiz recentemente:

Com a minha própria grana, fui para a Bolívia em dezembro de 2009 cobrir as eleições. Por lá eu fiz essa reportagem sobre as Cholitas lutadoras de boxe na Bolívia.

Pra contar a saga do aquecimento global na Bolívia, decidimos tentar uma coisa diferente: uma reportagem em HQ: “O salar está café“. Taí uma das vantagens de ser independente…

Passei todo o ano de 2010 escrevendo dois livro: um, sobre o jornal Movimento, que resistiu á ditadura militar e o outro, Habeas Corpus – Apresente-se o Corpo, sobre os desaparecidos da ditadura.

Para fazer matéria sobre a ficha de Serra no Dops, nada de motorista: dois ônibus e um metrô – mas o Arquivo do Estado de São Paulo é logo ali. Engraçado é que nenhum outro repórter foi lá.

Também é logo ali – mas ninguém conhece – a saga e as privações dos ciganos brasileiros.

E nas últimas enchentes, valeu o esforço pra convencer o Guardian que o que falta, mesmo, é mais planejamento urbano e menos vale-tudo comercial nas nossas cidades.

Temas que muitos pediram…

Estava revendo a lista de pedidos de temas a serem pesquisados, e acho que cabem algumas explicações.

Os documentos do Cablegate referem-se a comunicações da embaixada brasileira em Brasília e dos consulados em Recife, São Paulo e Rio de Janeiro para o Departamento de Estado dos EUA.

São temas que tocam ao Brasil apenas, e por isso não há entre eles documentos sobre o 11 de setembro, por exemplo, ou a segunda guerra mundial. Também não há nenhuma menção a OVNIs.

Os documentos vão de 2003 a 2010. Ou seja,  na há telegramas sobre a era FHC e as privatizações, nem sobre a ditadura.

E finalmente: os documentos obtidos pelo WikiLeaks referem-se a telegramas desclassificados, confidenciais e secretos. Não há documentos “top secret”, já que esses têm uma circulação muito mais restrita e provavelmente a pessoa que obteve os telegramas não tinha acesso a eles.

Mesmo assim, eles são enormemente elucidativos sobre como funciona a diplomacia americana no Brasil, e como os nossos próprios governantes e políticos lidam com a maior potência mundial.

Nesse sentido, uma dica boa é pedir nomes de políticos, seja da oposição ou do governo.

Vale a pena dar uma olhada nesse site – cablesearch.org – para ver os telegramas que já saíram. O site permite buscar por palavras-chave.

Por ora, vou reproduzir alguns temas que foram bastante pedidos, mas que já foram publicados.

- Armamento nuclear no Brasil: Clique aqui.

- Raposa Serra do Sol e indígenas: clique aqui para ver a lista.

- MST: aqui.

- Base de Alcântara: clique aqui.

- PCC: clique aqui para ver a lista.

- Al Qaeda na tríplice fronteira: clique aqui.

- Código Florestal brasileiro: veja o documento aqui.

Continuo aceitando sugestões.

Investigação dos EUA está falhando

Notícias recentes dão conta que o Departamento de Justiça americano está falhando ao tentar estabelecer uma conexão entre Julian  Assange e o analista de inteligência Bradley Manning.

Os EUA tentam provar que Assange incitou o jovem de 23 anos a “roubar” os documentos do governo americano. Se isso ficasse provado, Assange poderia ser processado por conspiração para  crime de espionagem.

Mas até o momento, nenhum indício foi encontrado a não ser contatos de Manning com colaboradores do WikiLeaks.

Leia reportagem do Wall Street Journal, com fontes anônimas, aqui.

Outra recomendação: o Washington Post publicou nesta sexta-feira um bom artigo de Jack Goldsmith, professor da Universidade de Direito em Harvard e ex-advogado assistente do governo de Bush.

Goldsmiths avalia que seria muito difícil diferenciar o que faz o WikiLeaks do que faz o próprio Post, que volta e meia publica documentos sobre segurança nacional.

Leia o arquivo, em inglês, aqui.

 

Mais documentos

O site do WikiLeaks publicou mais duas levas de documentos da representação americana no Brasil.

Clique aqui para ver documentos sobre o sistema prisional brasileiro, o PCC e o programa nuclear brasileiro.

Vale a pena prestar atenção neste telegrama secreto, no qual integrantes do governo brasilerio respondem a questões sobre as posições qwue o brasil adotaria na conferência da revisão de 2010 sobre o tratado de não-proliferação nuclear na sede da ONU em Nova York.

Clique aqui para ler documentos sobre a política externa do Brasil, em especial sobre a ambição brasileira a um assento no Conselho de Segurança da ONU.

Cablegate: agora é o público que escolhe

Passados quase dois meses do lançamento dos documentos das embaixadas americanas, o WikiLeaks vai começar uma nova estratégia de divulgação aqui no Brasil.

A partir de agora, vamos deixar o público escolher quais os temas que devem ser pesquisados no arquivo de documentos da embaixada americana e consulados – que serão depois publicados no site do WikiLeaks.

Basta responder a esse post pedindo um tema, figura pública ou evento a ser pesquisado, que eu vou selecionar os documentos. Todos os pedidos serão publicados, e os temas mais pedidos terão prioridade.

Para a divulgação, vamos fazer parceria com uma série de blogs e veículos independentes, entre eles: Carta CapitalLuis Nassif Online, Blog do Mello, Escrevinhador, Viomundo, Nota de Rodapé, Maria Frô, Fazendo Média, Futepoca, Elaine Tavares, Gonzum, Blog do Rovai, Blog da Cidadania, Altamiro Borges e Doutor Sujeira.

É um experimento inédito. Até agora, Globo, Folha e WikiLeaks estavam usando seus critérios para julgar quais documentos seriam publicados por vez, algo “de cima pra baixo”. Dessa vez, o próprio público vai decidir, invertendo a lógica da produção da notícia.

Os documentos do Cablegate compreendem cerca de 3 mil  telegramas enviados pela embaixada de Brasília e pelos consulados de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife entre 2003 e 2010.  As publicações começam na próxima semana.

Decisão do julgamento de Assange sai dia 24

No terceiro dia de julgamento, o juiz Howard Riddle, que preside o tribunal de Belmarh, em Londres, pediu mais tempo para decidir se aceita o pedido de extradição de Julian Assange para a Suécia.

A decisão deve sair no dia 24. Enquanto isso, Julian permanece sendo monitorado, com restrições de sair à noite e tendo que se apresentar à polícia todo dia – o horário foi mudado para as manhãs.

Saiba mais sobre a decisão no jornal Guardian

Audiência de Julian caminha para conclusão

O julgamento de Julian Assange caminha para uma conclusão nesta sexta-feira. O advogado de defesa Geoffrey Robertson está neste momento fazendo sua argumentação final na corte londirna em Woolwich.

Robertson argumenta que a promotora sueca Marianne Ny não tem autoridade de emitir um mandado de prisão europeu. Ele questionou se esse mandato seria válido apenas para questionamento e não para uma acusação formal. Segundo ele, a própria Ny teria admitido que o pedido de prisão foi feito para interrogatório e “possível” processo.

Leia a descrição da audiência minuto a minuto, em inglês, aqui.