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Félix: Brasil tem que se acostumar “com sacos de corpos” voltando da guerra

A frase acima foi proferida pelo ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Jorge Armando Félix, para explicar que o Brasil tem que “pagar um preço” se quer ser uma liderança mundial – segundo os telegramas revelados pelo WikiLeaks.

Segundo o relato do embaixador Clifford Sobel, a conversa se deu em janeiro de 2007, como ele detalhou em um telegrama  enviado ao Departamento de Estado às 16:40 do dia 15 de fevereiro de 2007, que será publicado hoje pelo WikiLeaks.

O telegrama secreto descreve um jantar oferecido pelo embaixador a Félix e ao Subchefe-Executivo do GSI, o General-de-Divisão Rubem Peixoto Alexandre.
Na pauta, o pedido da diplomacia para que Félix intermediasse um encontro entre a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff e o  advogado-geral americano – além da perspectiva do Brasil colaborar com a Otan, aliança militar que inclui países da Europa e os Estados Unidos.

Preço a pagar

“Félix estava relaxado e falando francamente, enquanto Alexandre permaneceu em silêncio durante a maior parte da noite”,  descreveu Sobel. Ele perguntou sobre os benefícios do Brasil colaborar militarmente com a Otan.

“Felix pareceu circunspecto e disse que os brasileiros devem encarara o fato de que ‘um preço deve ser pago’ para obter um papel de liderança global. O Brasil deve estar disposto a modernizar e empregar suas forças em operações internacionais e confrontar a perspectiva de ‘sacos de corpos retornando ao Brasil. Félix disse que, tanto pessoalmente quanto como militar, ele acreditava que era chegada a hora do Brasil pagar o preço e assumir a posição de liderança no cenário global”, narra o telegrama.

O general diz ainda, segundo o documento, que  uma cooperação próxima com a Otan seria vista positivamente pelos militares brasileiros, que compartilham a sua visão.

Venezuela

Durante o jantar o general também teria voltado a falar do seu desafeto Hugo Chávez.

Disse que o venezuelano tinha pouca influência no Brasil, recebendo sempre críticas negativas da imprensa, e que “enquanto os governos vizinhos forem democratizamente eleitos, o Brasil tentará ser compreensivo quanto às suas idiossincrasias políticas particulares”.

Felix, interlocutor  frequente da embaixada, já tinha deixado clara suas diferenças com o governo em relação à Venezuela durante um almoço na residência do embaixador em 2005 – mas disse preferir se manter alinhado com a posição oficial.

Ele também teria reclamado da designação da Região da Tríplice Fronteira como alvo do Hezbollah. Desde 2006 o governo americano menciona possíveis atividades terroristas na tríplice fronteira com o Paraguai e a Argentina em seu relatório anual.

Na Lei do Abate, Brasil se submete à aprovação dos EUA

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Documentos obtidos pelo WikiLeaks mostram que o Brasil se submete a avaliações de segurança aérea para obter uma assinatura do presidente americano aprovando a maneira como a polêmica Lei do Abate é aplicada.

A lei prevê a possibilidade da Força Aérea derrubar aviões sob suspeita de fazer tráfico de drogas. O tiro de misericórdia só pode ser aprovado pelo presidente da República. O Brasil nunca chegou a derrubar um avião.

A lei é muito criticada por significar na prática a execução devido a um crime num país que não adota a pena de morte.

Um documento de 2004 mostra que as negociações para que os EUA fizessem a avaliação aconteceram “por debaixo do pano”, de maneira que não tivessem que passar pelo crivo do Congresso Nacional brasileiro.

Na época, os Estados Unidos estavam pressionando ecnomicamenete os países sulamericanos vistos como rota de tráfico para os EUA a se submeterem aos seus critérios e métodos de inspeção.

Os países “parceiros” passam por certificação do presidente americano. Somente com essa certificação as empresas americanas podem continuar fornecendo equipamentos às forças aéreas. No caso do Brasil,  a Força Aérea Brasileira (FAB) tem que provar que segue direitinho os “requisitos de segurança” dos EUA.

À margem do Congresso

Um telegrama de 2 de agosto de 2004 mostra que o o então chefe de gabinete do Ministério da Defesa, Fernando Abreu, teria afirmado que o Brasil estava disposto a “passar ampla informação em bases informais” para o governo americano.

A estratégia seria fazer um “acordo secreto”.

Fernando teria dito que qualquer acordo que ferisse a soberania brasileira receberia uma “reação negativa do Congresso e da população”.

A solução, acertada em uma reunião no final de setembro entre representantes do Departamento de Estado dos EUA e do nosso Ministério da Defesa, seria fechar apenas um “compromisso político” em forma de “troca de notas” entre os dois governos, em vez de um “acordo vinculante internacional”.

“Para Abreu, o limite era qualquer linguagem que indicasse que a troca de notas diplomáticas seria um acordo internacional vinculante, o que necessitaria a aprovação do texto pelo Congresso brasileiro”, diz o então embaixador dos EUA em Brasília, John Danilovich.

Em junho de 2008, outro embaixador, Clifford Sobel, escreveu que a embaixada estava envolvida com o governo brasileiro “para avaliar os procedimentos de segurança concernentes ao seu Air Bridge Denial” (a Lei do Abate, em inglês).

Sob pressão do EUA para que as inspeções sejam mais rigorosas, ele tenta convencer Washington a dar a certificação presidencial naquele ano, afirmando que o aumento dos critérios da inspeção poderia prejudicar o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que seria “um dos maiores defensores de um melhor relacionamento com os EUA”.

Ele também sugere o financiamento de viagens de controladores de vôo brasileiros até os Estados Unidos como forma de infuenciar integrantes a FAB e obter mais informações sobre a segurança aérea.

Os EUA queriam ter mais acesso às instalações brasileiras para poder avaliar melhor os procedimentos previstos pela Lei do Abate.

Os documentos originais estão publicados no site do WikILeaks (http://wikileaks.ch/reldate/2010-12-12_0.html) para consulta pública.

EUA tentaram usar Saito e Jobim para venda dos caças

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A disputa pela venda de 36 caças para as Forças Aéreas Brasileiras foi palco de grande atuação da representação americana no Brasil. Documentos obtidos pelo WikiLeaks revelam que a embaixada procurou o ministro da Defesa, Nelson Jobim e o comandante da FAB Brigadeiro Juniti Saito para influenciar na decisão. Ao mesmo tempo, instava o governo americano a se mexer, assim como o francês estava fazendo.

A menos de um mês do final do governo Lula, a compra dos caças continua sem definição e deve ser decidida pela presidente eleita Dilma Rousseff. Nesta semana, ela retoma a discussão em reunião com o ministro Jobim.

Lobby

Mas desde maio de 2009, a embaixada americana em Brasília tenta fazer com que o governo dos EUA se engaje mais na disputa. Em um telegrama do dia 19, (CLIQUE AQUI), a Ministra Conselheira Lisa Kubiske pediu que Washington faça um lobby mais intenso, pois alguns contatos brasileiros “dizem não acreditar que o governo dos Estados Unidos esteja apoiando a venda fortemente”, enquanto o presidente francês Nicholas Sarcozy estaria envolvido diretamente e os suecos estariam atuando “em nível ministerial”.

Kubiske acredita que a falta de atuação pessoal “é uma desvantagem crítica em uma sociedade brasileira na qual os relacionamentos pessoais servem de fundação para os negócios”, e refoça que o governo deve assumir posição favorável à aprovação de transferências de tecnologia.

“A embaixada recomenda o seguinte, como próximos passos a fim de reforçar nossos argumentos no que tange à transferência de tecnologia: uma carta do presidente Obama ao presidente Lula defendendo a causa; uma carta da secretária Clinton ao ministro da Defesa Jobim afirmando que o governo americano aprovou a transferência de toda a tecnologia apropriada.”

Também recomenda tentar influenciar senadores que vistariam os EUA em junho daquele ano. “Concentrando as atenções em senadores importantes, temos a oportunidade de conquistar o apoio de indivíduos que podem influenciar os responsáveis pela decisão e garantir que as pessoas que terão de aprovar os dispêndios do governo brasileiro compreendam que o F-18 lhes oferece mais valor”.

Para Lisa, a campanha francesa é mentirosa: “Nos últimos meses, o esforço francês de vendas vem se baseando em alegações enganosas, se não fraudulentas, de que seu caça envolve apenas conteúdo francês (o que o isentaria dos incômodos controles de exportação dos Estados Unidos). Mas isso não procede. Uma análise da Administração de Segurança da Tecnologia de Defesa encontrou alta presença de conteúdo norte-americano, o que inclui sistemas de mira, componentes de radar e sistemas de segurança que requererão licenças norte-americanas”

Aliados

A decisão americana em atuar mais fortemente foi vista com apreciação pelo brigadeiro Juniti Saito, comandante das Forças Armadas.

Por causa da atuação pessoal de Obama, que conversou com o presidente Luís Inácio Lula da Silva na cúpula do G8 em Áquila, na Itália, em 9 de julho de 2009, Lula teria instruído Jobim e Saito a conversarem com o Conselheiro de Segurança Nacional, general James Jones, segundo revela um telegrama de 31 de julho de 2009 (CLIQUE AQUI).

“Ela (a conversa) abriu as portas para que eu pudesse procurar o embaixador, como fiz”, teria explicado Saito durante um jantar por ocasião da visita do comandante do Comando Sul, o general Doug Fraser.

Na ocasião, Saito chamou o embaixador Sobel e seu conselheiro político de lado para indicar que preferia o F-18 ao francês Rafale. E afirmou que não existia dúvida, do ponto de vista técnico, que americano era o melhor avião. “Voamos equipamento americano há décadas e sabemos que é confiável e que sua manutenção é simples e oferece bom custo/benefício por meio do sistema de vendas militares externas”.

Saito insistiu ainda que o governo americano enviasse a carta que ele havia pedido se comprometendo com transferência de tecnologia. O embaixador teria dito que a carta estava na fase final de aprovação. “Aliviado, Saito disse que precisava ter a carta em mãos no dia 6 de agosto”, relata o telegrama assinado pelo embaixador Clifford Sobel. “Essa foi a expressão mais clara de que Saito pretende recomendar o F18″.

Em 5 de janeiro, pouco antes da mudança de embaixador, Lisa Kubiske envia outro telegrama (CLIQUE AQUI) dizendo que a embaixada vai tentar influenciar Jobim para convencer o presidente. “Permanece, entretanto, o formidável obstáculo de convencer Lula. Nosso objetivo agora deve ser garantir que Jobim tenha argumentos reforçados ao máximo possível para ir a Lula em janeiro”. Para ela, o “alto preço” do Rafale e “as dúvidas sobre o desenvolvimeno do Gripen” levariam o Super Hornet a ser a “opção óbvia”. Mas “o fato é que Lula reluta em comprar um avião dos EUA”.

Um dos últimos telegramas obtidos pelo WikiLeaks (CLIQUE AQUI) relata uma conversa telefônica entre Nelson Jobim e o atual embaixador dos EUA, Thomas Shannon, em 5 de fevereiro deste ano. O embaixador Shannon fez pressão, dizendo que “apesar da venda ser conduzida como uma transação comercial, a sua importância para a relação bilateral não deve ser ignorada”. Segundo ele, “a decisão inédita de trasnferência de tecnologia americana em apoio ao Super Hornet mostra o alto grau de confiança que o governo americano coloca na sua parceria com o Brasil”.

Patriota, Irã e Haiti

Antonio Patriota, anunciado como futuro ministro das Relações Exteriores durante o próximo governo, também foi alvo de lobby sobre os caças. Durante uma reunião de uma hora no dia 4 de fevereiro, ouviu que a decisão de liberar toda a tecnologia necessária ao Brasil refletia uma mudança de paradigma para os EUA e ouviu que a decisão ainda não estava tomada.

Mas ouviu mais. Segundo o relato de Shannon (CLIQUE AQUI), Patriota comentou ainda a situação do Irã, que na época sofria pressões contra mais uma rodada de sanções contra seu programa nuclear. Teria dito que o Brasil quer “evitar uma repetição do Iraque”, e que se havia uma saída diplomática, ela deveria ser adotada. “A desconfiança é grande (sobre o Irã). Nós nunca sabemos o quão sinceros, mas vamos continuar tentando”, concluiu. O embaixador recomendou ao governo brasileiro que se movimentasse com cautela em relação ao Irã.

Sobre a situação do Haiti, que havia sofrido um terremoto em 12 de janeiro, Patriota teria dito: “nós teríamos que encontrar uma forma de contornar a escolha entre um governo corrupto no Haiti e colocar tanto dinheiro nas mãos de ONGs não-haitianas”.

Os telegramas fazem parte de milhares de documentos da embaixada e consulados dos EUA no Brasil que serão publicados pelo WikiLeaks nas próximas semanas.

De olho nas Olimpíadas, US faz lobby e amplia presença no país

São Paulo, Brasil – Telegramas enviados pela embaixada americana em Brasília e publicados pelo Wikileaks revelam que EUA estão preocupados com a segurança da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 no Brasil – e querem lucrar com isso.

Mesmo antes da escolha do país como sede das Olimpíadas, a seguraça dos jogos já era um dos principais temas na pauta de reuniões bilaterias entre diplomatas e militares. Os EUA buscam cooperação militar, oportunidades comerciais e já preparam um aumento do seu pessoal no país.

O apagão que deixou no escuro 18 estados brasileiros em 10 de novembro de 2009 ofereceu, nas palavras da conselheira para assuntos administrativos da embaixada, uma “excelente ocasião” para tratar do assunto.

“A preocupação, recentemente ampliada, com a infraestrutura brasileira depoois do blackout, aliada à necessidade de resolver desafios de infraestrutura na contagem regressiva para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, apresentam uma oportunidade para os EUA se envolverem em desenvolvimento de infrastrutura e também na proteção de infraestrutura crítica e segurança cibernética”, escreveu Cherie Jackson num telegrama a Washington.

O documento traz uma análise sobre o apagão , incluindo detalhes técnicos obtidos em conversas com membros do governo como Plínio de Oliveira, presidente do Operador Nacional do Sistema Elétrico e o Secretário Executivo do Ministério de Minas e Energia José Coimbra.

Jackson acredita que, embora a segurança física das instalações nunca tenha sido prioridade no Brasil, o foco deve ser cada vez maior à medida que se aproximam os jogos. Segundo ela, autoridades brasileiras “admitem a possibilidade de um ataque” e estariam identificando as principais instalações que precisam ser protegidas.

“O Brasil pode estar aberto a buscar cooperação em proteção crítica de insfraestrutura”, diz ela.

Assim, Cherie Jackson faz um apelo para que diversos setores do governo dos EUA explorem as oportunidades a médio prazo no país.

Além dos americanos, o governo islaense também ofereceu apoio na coordenação das olimpíadas. Em 11 de novembro de 2009, o presidente de Israel Shimon Peres liderou uma comitiva de 40 empresas israelenses ao Rio de Janeiro.

“Da mesma forma que fizemos com as Olimpíadas da Grécia e na China, estamos oferecendo tecnologias especiais de comunicação e segurança”, disse ele durante a visita.

O futuro é hoje

Em 24 de dezembro de 2009, Departamento de Defesa americano recebeu um detalhado relatório intitulado “Olimpíadas do Rio – O Futuro é Hoje”. O telegrama, assinado pela Ministra Conselheira da Embaixada Lisa Kubiske – que permanece no cargo mesmo depois da troca de embaixadores este ano – aponta oportunidades comerciais e militares.

“O governo brasileiro compreende que enfrenta desafios críticos na preparação dos Jogos de 2016 e demonstrou grande abertura em áreas como compartilhamento de informações a cooperação com o governo dos Estados Unidos – chegando até a admitir que poderia haver a possibilidade de ameaças terroristas”, diz o documento. A admissão, “pouco usual” para um “governo que oficialmente acredita que não existe terrorismo no Barsil”, teria sido feita por Vera Alvarez, chefe da Coordenação-Geral de Intercâmbio e Cooperação Esportiva do Itamaraty.

Ela prossegue: “além de preparar as oportunidades comerciais que os jogos vão oferecer às empresas americanas, o governo dos EUA deveria se aproveitar do interesse do Brasil no sucesso olímpico para progredir na cooperação bilateral em segurança e troca de informações”.

Jeito brasileiro

Kubiske reclama, no entanto, de muitas promessas e pouco planejamento e ação. Por exemplo, o presidente Lula prometeu entradas grátis para estudantes e trabalhadores de outros países, mas não pensou em como fazer isso.

Além disso, diz ela, tentativas dos EUA e do Reino Unido – que sediará as olimpíadas de 2012 – de entrar em contato com o Ministério dos Esportes não foram bem-sucedidas.

“Articular os objetivos mais amplos e deixar os detalhes para o último minuto pode ser o jeito tipicamente brasileiro, mas pode gerar problemas”, comenta Kubiske.

“Os atrasos que esperamos do governo brasileiro em planejar e executar os trabalhos de preparação para uma Copa do Mundo e Olimpíadas bem-sucedidas com certeza vão gerar um ônus maior para o governo americano poder garantir que os padrões necessários serão alcançados”.

Por isso, a missão americana já está coordenando a ampliação de pessoal, estrutura e recursos, com suas agências em Brasília e no Rio de Janeiro – o que seria necessário para gerenciar o envolvimento dos EUA nos Jogos. “Já existem oportunidades para o governo americano para buscar colaboração em função dos Jogos, incluindo aumentar a cooperação e a expertise brasileira em contraterrorismo”, finaliza o telegrama.

EUA criticam Plano Nacional de Defesa, mas vêem oportunidade

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São Paulo, Brasil - Na avaliação do ex-embaixador americano, o Plano Nacional de Defesa anunciado em dezembro de 2008 pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva não é dos melhores. Na verdade, nem é bem um plano de defesa.

Segundo telegramas enviadas a Washington por Cliford Sobel, não se trata de uma estratégia, mas de “um conjunto de ideias” sobre o papel dos militares no desenvolvimento do país, que nem explica como será executado ou de onde virá o dinheiro.

“Ainda não está certo quantas das recomendações vão ser implementadas”, descreve o ex-embaixador Clifford Sobel em um telegrama enviado no dia 9 de janeiro de 2009.

“Independência” – entre aspas – é na visão de Clifford Sobel uma palavra-chave do PND. Isso significa que o Brasil quer controlar a produção de armamentos e só deve fazer alianças com países que queiram transferir tecnologia.

Mas, no caso da compra dos caças, pelo número relativamente pequeno, ele acha que “não faz sentido economicamente”. E, alfinetando o então Ministro do Planejamento Mangabeira Unger, afirma que ele “dá mais importância à “independência” do que à capabilidade militar ou ao uso eficiente de recursos”.

O relato destaca também o interesse do Brasil em controlar tecnologia nos setores espacial, cibernético e nuclear. Mas critica a prioridade à indústria de defesa nacional, vista como “não competitiva”.

Segundo o plano, “o uso eficiente de recursos e o emprego de capabilidades militares eficazes são menos importantes do que estimular a indústria de defesa nacional, vista com otimismo como tendo tendo potencial exportador”.

Paranóia e socialismo

Quanto à proteção da Amazônia, o diplomata nota que o PND indulge “na tradicional paranóia brasileira” sobre atividades de ONGs e outras organizações estrangeiras, “percebidas como ameaças potenciais à soberania”.

Sobel também é um crítico do que considera o mito da segurança às reservas de petróleo do pré-sal.

“Não há nenhuma ameaça às reservas de petróleo brasileiras, mas os líderes brasileiros e a mídia têm citado as descobertas de petróleo no mar como razão urgente para melhorar a segurança marítima. Essa preocupação se fundiu à busca de duas décadas do Brasil por desenvolver um submarino nuclear, dando um novo ímpeto à pesquisa sobre um pequeno reator para propulsão naval”.

Para ele, o submarino nuclear – cuja construção foi anunciada em 2008, em parceria com a França – não passa de um “elefante branco”.

Sobel diz que o PND “não é uma estratégia de defesa per se”. “É um conjunto de ideias sobre como as forças militares no Brasil, a indústria de defesa e o serviço militar podem contribuir com o objetivo do desenvolvimento”.

A maior crítica ao plano é que ele não prevê recursos extras para a compra de equipamento necessários para modernizar as forças. A embaixada fez as contas, e faltam recursos.

Também critica o uso do serviço militar como meio de engajar e beneficiar a sociedade, o que na sua opinião reduz a eficácia e o profissionalismo, além de desviar recursos que deveriam ir para modernização.

“A formação socialista do PT do presidente Lula é evidente nos esforços de engenharia social através de serviço militar obrigatório, em prejuízo de uma defesa mais eficaz”, avaliar.

Sobel encerra o documento questionando se o projeto vai sair do papel: “como muitas das recomendações não são concretas e precisariam de mais ação para desenvolver, resta ver quantas serão implementadas”.

Oportunidades

Apesar dos problemas apontados pela embaixada, o novo PND apresenta boas oportunidades para os EUA, em especial em novas tecnologias para monitoramento da região norte.

“Esses plano cria oportunidades para empresas americanas estabelecerem parcerias e para as forças armadas se engajarem em cooperação enquanto as forças militares brasileiras buscam se moderizar”.

Quanto à visão estratégica, Sobel detalha em outro telegrama, enviado às 17:09 do mesmo dia que os EUA apreciam a ideia de uma força militar mais forte – e com maior possibiliade de ser uma boa aliada. Ou seja, se vier a ser implementado, o PND será bom para os EUA.

“Depois de mais de vinte anos fora do espectro pollítico e vinte anos com poucos recursos, os militares brasileiros estão agora pressionando pela sua modernização. À medida que fazem isso, oportunidades vão surgir para melhorar a nossa parceria em segurança”, diz o telegrama. “Uma força militar mais capaz e com maior empregabilidade pode apoiar os interesses dos EUA ao exportar estabilidade à América Latina e estar disponível para operações de manutenção de paz em outros lugares”.

Meu amigo Jobim

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São Paulo, Brasil - O Ministro da Defesa, Nelson Jobim, que acaba de anunciar sua permanência no cargo durante o novo governo de Dilma Rousseff, é velho conhecido da representação brasileira em Brasília.

Segundo documentos publicados nesta terça-feira pelo WikiLeaks, Jobim tem sido um interlocutor frequente dos diplomatas americanos desde que tomou posse em 2007.

O ministro mantinha uma relação próxima com o antigo embaixador americano Clifford Sobel, que deixou o cargo no começo deste ano – a ponto de confidenciar sua irritação com o Ministério de Relações exteriores, em especial com o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães.

Jobim também teria contado que o presidente boliviano Evo Morales estaria sofrendo de um tumor. Sobel o considerava um ministro “atipicamente ativista” em prol da proximidade militar com os EUA.

A briga pelo acordo de defesa

Em abril deste ano, o Brasil assinou um acordo de cooperação militar com os EUA que facilita a compra e venda de armamentos, a cooperação no desenvolvimento de tecnologia e a realização de exercícios militares conjuntos.

Os arquivos diplomáticos mostram a guerra silenciosa travada dentro do governo a respeito do acordo. De um lado, o Itamaraty; do outro, Jobim.

Em 17 de janeiro de 2008, durante um café-da-manhã com o embaixador Sobel, ele desabafou sobre suas desavenças com Samuel Pinheiro Guimarães.

Segundo o telegrama confidencial, Jobim disse que Guimarães causava “sérios problemas” não só para o acordo militar, mas nas relações entre os dois países.

“Ele odeia os Estados Unidos”, teria dito. Para ele, Guimarães estaria colocando entraves dilomáticos para evitar a visita de Jobim aos EUA, em março.

Jobim disse que preferia perder a batalha para ganhar a guerra, economizando capital político em vez de brigar na ocasição pelo acordo militar.

O embaixador conclui: “O presidente Lula deve ter um papel decisivo entre um ministro de Defesa atipicamente ativista, interessado em desenvolver relações mais próximas com os Estados Unidos, e um MRE firmemente comprometido em manter controle sobre todos os aspectos da política externa e manter a distância entre o Brasil e os EUA”.

Ministro forte

Sobel via Jobim com bons olhos, como mostra a análise preparatória enviada pela embaixada antes da visita de março de 2008.

Nele, diz que Jobim é “primeiro ministro da defesa forte no Brasil”, embora ainda penasse para lidar com as três forças, bastante autônomas. Além disso, durante a administração Lula, o foco em programas sociais teria “levado a uma redução do orçamento da defesa, gerando menos oportunidades de treinamento e compras de equipamento”.

A coisa estaria mudando com a busca do país pela liderança internacional, e aí entra a figura de Jobim como um ministro que busca fortemente acordos de cooperação militar.

Na época o Brasil tinha acabado de assinar um acordo militar bilateral com a França, com bastante empenho do ministro.

Em um contexto pós-mensalão, diz o documento, Jobim seria um dos “líderes mais confiáveis do Brasil”, com uma “reputação e integridade raras entre as lideranças brasileiras”.

O embaixador encerra o relatório ditando palavra por palavra o que o secretário de Defesa deveria dizer a Jobim: “Como você toma decisões importantes sobre a modernização do Brasil, tenha em mente que a parceria com os EUA pode ajudar os dois países a perceber nosso objetivo comum de preservar a estabilidade no hemisfério oeste”.

Jobim esteve na capital americana entre os dias 18 e 21 de março de 2008. A visita foi conturbada aos olhos do diplomata americano. Em especial, Sobel reclama da interferência do Itamaraty, que teria feito uma verdadeira campanha de boicote à viagem.

Sobel descreve em outro documento como o MRE teria trabalhado para encurtar e esvaziar a visita.

“Enquanto Jobim dizia ao embaixador que queria uma programação completa, incluindo uma visita a Norfolk (onde há uma base aeronaval) e encontros com representantes da indústria de defesa americana, a embaixada em Washington dizia que a viagem teria que ser encurtada”, relala.

Ele avalia que “a atual administração de centro-esquerda tem evitado cuidadosamente uma cooperação próxima em assuntos policiais e militares importantes para nós e tem se mantido à distância na maioria dos assuntos relacionados à segurança”.

E menciona acordos de compartilhamento de informação e o polêmico Artigo 98, que “blinda” cidadãos americanos da possibilidade de extradição a pedido da Corte Penal Internacional.

“A dificuldade é mais aparente no MRE, que tem uma inclinação antiamericana e impede a melhora nas relações entre o Departamento de Defesa e o Ministério de Defesa brasileiro”.

Sobel vai mais longe ao comentar que a liderança do Brasil à frente da missão de paz da ONU no Haiti – apesar do pouco apoio nacional – se deve à “obsessão” do ministro de relações exteriores Celso Amorim em obter um assento no conselho se seguranca da ONU.

Os EUA nunca expressaram apoio formal ao pleito brasileiro.

América do Sul

Em Washington, Jobim reforçou a intenção de uma parceria e da necessidade de modernizar as forças armadas, mas levando em conta primeiro o benefício da indústria nacional. Mas recusou a compra de caças F-35 Joint Strike Fighter, considerados caros demais. E criticou o governo americano por não permitir que o Brasil vendesse aviões de treinamento Super Tucanos à Venezuela.

Os caças, de fabricação brasileira, contém partes americanas, e por isso desde 2006 o governo dos EUA proíbe a venda ao país vizinho. Segundo o telegrama, Jobim reclamou, dizendo que a recusa levou o presidente venezuelano a comprar caças russos.

O destaque ficou para a apresentação do projeto do Conselho de Defesa Sulamericano, uma aliança militar que inclui Brasil, Argentina, Bolívia, Colômbia, Chile, Equador, Guiana, Suriname, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.

Jobim teria dito que o Conselho é a melhor maneira de manter Hugo Chavez na linha, segundo teria outro telegrama.

Já Sobel acha a ideia de refrear Chavez através do Conselho “impraticável”, mas “ela segue a política tradicional brasileira de tentar ser amigo de todos”.

Vizinhos

Um tema que causou fricção entre o ministro brasileiro e os americanos foi o acordo militar com a Colômba. Segundo o relato de um encontro com a atual Ministra Conselheira da embaixada Lisa Kubiske em 13 de novermbro de 2009, Jobim mal esconde sua irritação.

Em especial, ele reclama do vazamento de um memorando da Força Aérea americana na internet, citando “países não-amigáveis” na região como um dos motivos para o acordo militar.

“Isso mostra completa falta de entendimento sobre a América Latina”, esbravejou Jobim, que teria interferido junto a Lula para pedir “moderação” na resposta ao memorando. O ministro explicou que tanto o presidente colombiano Uribe quanto Hugo Chavez usam a retórica beligerante para desviar as atenções de problemas domésticos.

Na conversa, ele teria defendido a atitude neutra do Brasil, adiantando que o governo ofereceria vigilância aérea para apaziguar as tensões na fronteira entre os dois países. Mas deixou no ar um dos pontos mais polêmicos.

Perguntado se acreditava que as Farc mantinham presença na Venezuela, respondeu que, se reconhecesse a presença, “isso arruinaria a habilidade do Brasil como mediador”.

Morales

Outro documento, de 22 de janeiro de 2009, traz um relato inusitado sobre outro país vizinho. Jobim teria ido até Sobel para relatar em primeira mão que o presidente boliviano Evo Morales estraria sofrendo de um tumor no nariz, o que teria sido revelado em uma reunião com Lula em La Paz. Lula teria oferecido tratamento em São Paulo.

Jobim disse que Morales estaria “desconcentrado” e “não estaria sendo ele memso”, por conta da doença. A história nunca saiu na imprensa. Morales fez uma cirurgia na época, supostamente por uma sinusite aguda.

Os documentos da embaixada de Brasília fazem parte de um conjunto de 2855 telegramas da representação americana no Brasil que serão publicadas nas próximas semanas pelo WikiLeaks.

Em segredo, Brasil monitora e prende suspeitos de terrorismo

São Paulo, Brasil – A polícia federal e a ABIN seguem dicas da inteligência americana para realizar operações de contraterrorismo no país. É isso que mostram alguns telegramas enviados pela embaixada dos EUA em Brasília para Washington obtidos pelo Wikileaks.

Segundo os documentos – os primeiros de milhares enviados pela missão americana no Brasil obtidos pela organização – a polícia federal e a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) monitoram a presença de suspeitos de terrorismo em solo nacional desde pelo menos 2005.

“A Polícia Federal frequentemente prende indivíduos ligados ao terrorismo, mas os acusa de uma variedade de crimes não relacionados a terrorismo para não chamar a atenção da imprensa e dos altos escalões do governo“, relatou o embaixador Clifford Sobel em janeiro de 2008.

O governo sempre negou a existência de atividades terroristas no Brasil.

Almoço

No dia 4 de maio de 2005, o general Armando Félix esteve em um almoço na casa do então embaixador americano John Danilovich, que ficou no cargo até 2006.

Segundo o relatório enviado a Washington, Felix teria dito que é importante que as operações de contraterrorismo sejam ‘maquiadas’ da maneira apropriada para não afetar negativamente a “orgulhosa” e “bem-sucedida” comunidade árabe no Brasil.

Pouco antes, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional havia agradecido entusiasmadamente o apoio dos americanos através do RMAS – Regional Movement Alert System, um sistema que detecta passaportes inválidos, perdidos ou falsificados. A partir de informações do RMAS, a ABIN e a PF estariam monitorando “indivíduos de interesse” no país.

“Além das operações conjuntas conosco, o governo brasileiro também está pedindo que filhos de árabes, muitos deles empresários de sucesso, vigiem árabes que possam ser influenciados por extremistas ou grupos terroristas”, diz o relato. Para Félix, é de total interesse da comunidade “manter potenciais extremistas na linha”, evitando assim chamar a atenção mundial para os árabes brasileiros.

A preocupação em manter segredo sobre as operações anti-terrorismo foi uma constante durante o goveno Lula. Desde 2006, a administração tem protestado contra menções de atividades ligadas ao terrorimo na tríplice fronteira com o Paraguai e a Argentina, incluídas no relatório anual do governo dos EUA.

Em parte, isso se deve a uma discrepância formal: o governo americano considera o partido libanês Hezbollah e o palestino Hamas como terroristas, enquanto o Itamaraty os considera partidos legítimos. Os dois têm grande apoio dentre a comunidade árabe na tríplice fronteira.

Prisões “disfarçadas”

Mas para além das diferenças no discurso, os documentos vazados pelo Wikileaks mostram que na prática a polícia brasileira age frequentemente a partir de informações da inteligência americana.

“A sensibilidade ao assunto resulta em parte do medo da estigmatização da grande comunidade islâmica no Brasil ou de que haja prejuízo para a imagem da região (da tríplice fronteira) como destino turístico. Também é uma postura pública que visa evitar associação à guerra ao terror dos EUA, vista como demasiado agressiva”, analisa outro embaixador americano, Clifford Sobel, que esteve no cargo de 2006 a 2010.

Segundo o telegrama enviado por ele em 8 de janeiro de 2008, a preocupação em não admitir atividades suspeitas de terrorismo seria maior ainda dentro do Ministério de Relações Exteriores. Por isso, diz Sobel, o Brasil participa “relutantemente” das reuniões anuais sobre segurança que reúne diplomatas, oficiais de segurança e inteligência da Argentina, Paraguai e Brasil com os EUA para discutir segurança na tríplice fronteira.

Na verdade, a região não é prioridade quando se trata de terrorismo. “A principal preocupação em contraterrorismo tanto para oficiais brasileiros quanto para a missão americana é a atividade de indivíduos ligados ao terrorismo – em particular diversos suspeitos extrermistas sunitas e alguns indivíduos ligados ao Hezbollah – em São Paulo e em outras áreas do sul do Brasil”, relata Sobel.

O telegrama revela que, apesar da retórica em contrário, a Polícia Federal, a Receita Federal e a Abin “monitoram” atividades suspeitas de terrorismo e “seguem todos as pistas passadas a elas”.

“A Polícia Federal frequentemente prende indivíduos ligados ao terrorismo, mas os acusa de uma variedade de crimes não relacionados a terrorismo para não chamar a atenção da imprensa e dos altos escalões do governo”, diz um trecho do telegrama secreto. “No ano passado a Polícia Federal prendeu vários indivíduos envolvidos em atividades suspeitas de financiamento de terrorismo mas baseou essas prisões em acusações de tráfico de drogas ou evasão fical”. A PF e a Abin sempre compartilham essas informações com as agências americanas, diz o relato.

O mesmo telegrama de Sobel cita dois exemplos. Em 2007, a PF teria preso um potencial faclitador terrorista sunita que operava primordialmente em Santa Catarina sob acusação de entrar no país sem declarar fundos – e estaria trabalhano pela sua deportação. A operação Byblos, que desmantelou uma quadrilha de falsifcação de documentos brasileiros no Rio de Janeiro para libaneses também é citada como exemplo de operação de contra-terrorismo.

Será que o governo sabe?

O Brasil não tem legislação específica sobre terrorismo, em parte por causa do legado da ditadura militar, que taxa oposicionistas de terroristas. A demora do Executivo em enviar um projeto de lei sobre tema ao Congresso desagrada aos americanos, como mostra outro relatório, enviado por Sobel em 11 de abril de 2008.

Nele, o embaixador comenta com surpresa o comentário de José Antonio de Macedo Soares, secretário-adjunto do Gabinete de Segurança Institucional, de que o Brasil compartilha todas as informações referentes a contraterrorismo. Ele questiona se o alto escalão do governo recebe as mesmas informações da inteligência brasileira que os EUA recebem. “Embora não possamos responder definitivamente, os comentários de Soares sugerem que esse pode ser o caso e que, apesar das negativas, eles reconhecem os problemas potenciais que o Brasil enfrenta”.

Outra possibilidade seria que o governo tem acesso às informações, mas não as consideram evidência de ação terrorista. “Isso significa que ou estão jogando conosco ou consideram terrorismo apenas fora do Brasil”.

Duplo discurso

Outro documento publicado pelo WikiLeaks traz a mais recente avaliação da política brasileira de combate ao terrorismo, de 31 de dezembro de 2009. Nele, a Ministra Conselheira da Embaixada Lisa Kubiske reitera a existência de “dois discursos separados” no Brasil: enquanto o governo nega, a polícia monitora e colabora em operações de contraterrorismo. Ela cita como exemplo a prisão, em maio daquele ano, de um integrante da Al Qaeda.

A prisão foi feita pela PF em São Paulo durante uma pretensa investogação sobre células nazistas. O libanês, conhecido como “senhor K”, foi preso sob acusação de racismo. Para a PF, ele coordenava uma célula de comunicação e recrutamento da Al Qaeda em São Paulo.

Na época, o presidente Lula se negou a comentar o assunto.

No seu telegrama Lisa Kubiske avalia como positivo o fato a notícia ter vindo a público. Ela também elogia o Ministério das Relações Exteriores por ter admitido que terroristas podem se interessar no Brasil por causa das Olimpíadas de 2016.

Entre outras coisas, o relatório de dezembro de 2009 elogia atuação do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) ligado ao Ministério da Fazenda, chamando-o de “eficiente”.

De fato, diversos documentos obtidos pelo Wikileaks mostram que o COAF tem colaborado bastante com o governo americano, investigando bens de diversos suspeitos de terrorismo. Entretanto, como aponta Lisa Kubiske, até o final de 2009 nenhum bem ou propriedade havia sido encontrado. O telegrama serviu de base para a avaliação oficial dos EUA sobre o Brasil em 2010.

Os documentos fazem parte de 251 mil telegramas enviados pelas embaixadas americanas de todo o mundo ao Departamento de Estado entre 1966 e 2010 que serão publicados pelo WikiLeaks nas próximas semanas.

Embaixada se aproxima de muçulmanos moderados para vigiar extremistas

São Paulo, Brasil – Novos documentos publicados pelo WikiLeaks mostram que o governo americano tem buscado se aproximar da comunidade muçulmana no Brasil como uma estratégia de contraterrorismo. Para a missão americana, São Paulo é uma das áreas onde elementos extremistas têm tentado recrutar jovens para a causa terrorista. Por isso, o consulado na cidade avalia que o Brasil seria o local ideal para testar estratégias que podem ser úteis em outros países com minorias muçulmanas.

Em 2009, o consulado em São Paulo promoveu a visita da representante especial do governo americano para comunidades muçulmanas, Farah Pandith, e começou a articular a visita de um sheik americano moderado. “A aproximação com muçulmanos moderados coloca os radicais na defensiva e abre canais de comunicação que podem levar a maior informações sobre elementos distantes da comunidade mais propensos ao radicalismo”, diz um telegrama do consulado americano em São Paulo , enviado em 20 de novembro de 2009.

A visão dos EUA confirma o depoimento do ex-chefe do Departamento de Inteligência da Polícia Federal Daniel Lorenz sobre a prisão do libanês “senhor K” em maio de 2009 em São Paulo. Lorenz afirmou em uma audiência na Câmara dos Deputados que a PF distinguiu três estágios de atividade terrorista no país.

Primeiro, extremistas estrangeiros teriam usado o país como escala de viagem. Depois, teriam procurado se legalizar e estabelecer no país através de adoção de filhos brasileiros. Finalmente, extremistas residentes estariam iniciando ações de recrutamento, apoio, treinamento, logística e reconhecimento para ações terroristas fora do país. A PF costuma compartilhar informações com a inteligência americana. O governo brasileiro nega a existência de atividades terroristas em solo nacional.

Engajando a comunidade

O primeiro telegrama confidencial enviado pelo cônsul em São Paulo, Thomas White, em 20 de novembro de 2009, revela que há vários anos o consulado tem tentado se aproximar da comunidade árabe. Através do cônsul-geral do Líbano, Joseph Sayah, White diz ter construído uma grande rede de amigos, entre sheiks e líderanças. “Não tire o olho dos sunitas”, teria avisado Sayad, explicando que muitos jovem brasileiros têm sido atraídos pelo fundamentalismo islâmico. O documento descreve também a comunidade libanesa brasileira, afirmando que os novos imigrantes do Líbano “são mais pobres e bem mais xiitas”: “A sua política é mais radical e eles frequentemente seguem a liderança do Hezbollah”.

“A aproximação com muçulmanos moderados coloca os radicais na defensiva e abre canais de comunicação que poderiam levar a mais informações sobre elementos distantes da comunidade mais propejnsos ao radicalismo”, escreve o cônsul americano. “Trabalhar junto com os moderados não deve ser visto como algo separado de monitorar elementos mais ameaçadores”. Visita

Um dos grandes momento da visita de Farah Pandith nos dias 22 e 23 de novembro foi uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo na qual ela relatou sua história “como uma muçulmana americana”. A visita foi acompanhada de perto pelo consulado e relatada em um telegrama de 8 de dezembro de 2009.

Durante a visita Pandith encontrou representantes da comunidade muçulmana e visitou a mesquita de Santo Amaro, onde conversou com jovens estudantes. “No geral, o grupo foi amigável e altamente acessível. As crianças mostraram interesse em aprender inglês e um conhecimento óbvio da cultura pop americana”, descreveu o cônsul.

Além da visita de Pandith, o consulado sugere engajar a comunidade muçulmana através de apresentações sobre o presidente Obama e a visita de um sheik americano “que pode explicar como o Islã é agora uma parte vital da sociedade americana e construir laços com líderes religiosos locais”. A ideia do consulado é replicar a estratégia em outros países com minorias muçulmanas pelo mundo.