Arquivo do mês: dezembro 2010

Os Trabalhos e os Dias

Deixo aqui uma reportagem que fiz em 2005 quando estava na Caros Amigos sob o comando de Sérgio de Souza. Como é longa, vai dividida em três partes. Feliz ano bom a todos!

Os Trabalhos e os Dias

Plim-plim. Vassoura e pano nas mãos, toda terça-feira aparece a Marinete na telinha esfregando um pouco, lavando um pouco, ao som da música-tema que repete “ela é dona do jogo”, a personagem principal da rede Globo: uma diarista. Não é coisa pouca, nem tampouco muita coisa, é coisa pra ser notada, embora seu cenário seja limpo demais, geométrico demais, seus “colegas” brancos demais. Daí a idéia, ser faxineira na vida. Ver como é a rotina das mais de 5,3 milhões de pessoas, 93 por cento mulheres, que vivem de organizar, varrer, limpar, esfregar o que outros, sem tempo, com preguiça ou dinheiro demais para se dedicar a fazer, deixam pra trás. Fui procurar trabalho.

O templo sagrado da peregrinação pelo emprego de baixa renda, aqui em São Paulo, é a  rua Barão de Itapetininga, Centrão da cidade. Chego lá numa sexta-feira, 5 de novembro, manhã cedo, pra ver os cerca de vinte homens-sanduíche exibindo anúncios de trabalho, muitos deles com caixas de papelão aos pés, onde todo dia centenas de pessoas – homens e mulheres, eles de camisa, elas de calça jeans, blusa social – atiram seus currículos. Eu, desavisada, sem currículo nem nada, não tenho o que oferecer. A solução vem em pouquíssimo tempo: “Fazemos currículo a 1,50” “Xerox a 10 centavos a folha” “Fazemos currículo com foto”, são muitas placas, um enxame, de todas as cores. Sem um tostão no bolso, a primeira lição: procurar trabalho exige dinheiro.

As agências de emprego, das mais picaretas às mais sérias, se espremem nas ruas que cercam a Barão junto com oficinas de xerox e “composição” de currículo, fotos 3 x 4, médicos laborais, advogados trabalhistas e agências de empréstimo (“Sem dinheiro? Resolva já o seu problema! Não precisa de fiador” etc.). Meio zonza pela enxurrada de “oportunidades”, paro diante de uma parede forrada de anúncios de emprego, a maioria escrito à mão, pedindo vendedoras, operadoras de telemarketing, secretárias bilíngües, motoristas. Faxineira, nada.

Um senhor, aparentemente o “guardador dos cartazes”, calvo e barrigudinho, anda de um lado para outro, dizendo a quem quiser ouvir: “Tem muita coisa aí que não é séria, eles cobram para pegar seu currículo, vai nessa que é séria, vai nessa, eu conheço”. Confio no homem quando ele vem perguntar o que estou procurando.

– Faxineira.

– Tem experiência?

– Tenho, ô!

– Eu tenho um trabalho pra você. Um amigo meu tem um escritório aqui perto, mas é só pra o fim de semana, tudo bem?

– Tudo bem, eu preciso trabalhar.

– Então espera aqui que eu vou pegar a chave com ele, te levo lá pra você ver…

Vou? Não vou? A falta de anúncios procurando diarista, a necessidade de arrumar um trabalho me deixa refém dele, que volta já pegando no meu braço:

– Vamos?

É quando aparece, não sei de onde, uma negra corpulenta, elegante, toda vestida de  azul, cabelo bem preso num rabo-de-cavalo. Pula na minha frente:

– Então eu vô junto.

– ?!?!

– Não é trabalho de faxinera? Eu também tô procurando, se você vai levá,

ela me leva junto.

Ele se afasta resmungando, e nisso ela diz pra mim, baixinho: “Vamo vê se ele não vai te levá pra algum canto, tá te enganando!” E estava. Desapareceu na multidão.

A heroína, Patrícia, me dá a próxima lição: “Todo mundo qué se aproveitá, fia, olho aberto!” Agradeço demais e ela se despede: “A gente se cruza por aqui”. “Tomara que não, né?”

Mas domingo tem classificados, e eu coloco um anúncio no Estadão que, mais  por fidelidade à verdade do que por exibicionismo, sai meio esdrúxulo: “Diarista bilíngüe com experiência internacional. Preço a combinar. Tel. …”. Sonho com patroas podres de ricas e gringos solteirões que me chamarão para limpar seus palácios no Morumbi. E, afinal, na abertura de A Diarista, não é através de um classificado que a Marinete oferece sua força de trabalho?

Sonho meu: outra novela da Globo. Chovem ligações, sim, de gente interessada pelo classificado. Só que são mulheres, algumas desesperadas, procurando trabalho. Uma delas: “Nóis tá precisando de serviço com urgência, me liga, Deus te abençoe”. Os recados não param de chegar na caixa postal, e o que bate à porta não é trabalho, mas o desemprego em carne e osso. Não, essa reportagem não vai ser sobre “a vida de uma diarista”. Não tem escapatória: é sobre desemprego.

Segunda-feira volto à Barão, não sem antes ligar para dezenas de agências de serviço doméstico para ouvir, de muitas bocas, que já não há trabalho de diarista. Os patrões sumiram. Hoje, todo mundo quer empregada para dormir na casa. Em uma delas recebo um tiquinho de esperança. Só um detalhe: “…aparece aqui com currículo, RG, CPF, comprovante de residência e atestado de antecedentes criminais”. É assim: se quiser ser uma empregada “empregável”, tem de provar que não é bandida, o que é no mínimo humilhante (o Congresso Nacional aprovou em dezembro projeto de lei do deputado federal Luiz Alberto, do PT da Bahia, proibindo a exigência; agora, está no Senado), além de levar um tempo do diabo em filas da burocracia. Fazer o quê?

Na Barão, sigo as instruções da Patrícia, de me colocar “à disposição da agência” e pegar o trabalho que aparecer. Atiro currículos em todas as caixas e começo a peregrinação nas salinhas, uma por uma, para ouvir jovens recepcionistas repetindo: “Mora onde? Fuma? É casada? Tem filhos?”. E a vontade é fazer igual à personagem de uma anedota que, diante da pergunta, encarou o potencial patrão: “Sou mulher, sim. Tenho filhos. E o senhor, é capitalista? Então, eu sou a reprodução da mão-de-obra, mas não precisa agradecer!” Sigo na Barão e arredores até os pés doerem e a coxinha que almocei sustentar o meu corpo. Seis horas, volto para casa. Arrasada. O cansaço é enorme, é físico e é mental também. A terceira lição, muito útil nos dias que seguem: não dá pra pensar direito quando o corpo está exausto.

Plim-plim.
na telinha esfregando um pouco, lavando um pouco, ao som da música-tema que
repete “ela é dona do jogo”, a personagem principal da rede Globo: uma diarista. Não
é coisa pouca, nem tampouco muita coisa, é coisa pra ser notada, embora seu cenário
seja
ser
cento
tempo,
procurar trabalho.
O templo sagrado da peregrinação pelo emprego de baixa renda, aqui em
São Paulo, é a  rua Barão de Itapetininga, Centrão da cidade. Chego lá numa sexta-
feira, 5 de novembro, manhã cedo, pra ver os cerca de vinte homens-sanduíche
exibindo
dia centenas de pessoas – homens e mulheres, eles de camisa, elas de calça jeans,
blusa social – atiram seus currículos. Eu, desavisada, sem currículo nem nada, não
tenho o que oferecer. A solução vem em pouquíssimo tempo: “Fazemos currículo
a 1,50” “Xerox a 10 centavos a folha” “Fazemos currículo com foto”, são muitas
placas, um enxame, de todas as cores. Sem um tostão no bolso, a primeira lição:
procurar
As agências de emprego, das mais picaretas às mais sérias, se espremem nas
ruas
fotos
dinheiro? Resolva já o seu problema! Não precisa de fiador” etc.). Meio zonza pela
enxurrada
emprego, a maioria escrito à mão, pedindo vendedoras, operadoras de telemarketing,
secretárias
Um senhor, aparentemente o “guardador dos cartazes”, calvo e barrigudinho,
anda de um lado para outro, dizendo a quem quiser ouvir: “Tem muita coisa aí que
não é séria, eles cobram para pegar seu currículo, vai nessa que é séria, vai nessa, eu
conheço”. Confio no homem quando ele vem perguntar o que estou procurando.
– Faxineira.
– Tem experiência?
– Tenho, ô!
– Eu tenho um trabalho pra você. Um amigo meu tem um escritório aqui perto,
mas
– Tudo bem, eu preciso trabalhar.

ver…
Vou?
arrumar um trabalho me deixa refém dele, que volta já pegando no meu braço:
– Vamos?
É quando aparece, não sei de onde, uma negra corpulenta, elegante, toda
vestida de  azul, cabelo bem preso num rabo-de-cavalo. Pula na minha frente:
– Então eu vô junto.
– ?!?!

ela me leva junto. 

Ele se afasta resmungando, e nisso ela diz pra mim, baixinho: “Vamo vê se ele
não
A heroína, Patrícia, me dá a próxima lição: “Todo mundo qué se aproveitá,
fia,
aqui”. “Tomara que não, né?”
Mas
que, mais  por fidelidade à verdade do que por exibicionismo, sai meio
esdrúxulo:
Tel. …”. Sonho com patroas podres de ricas e gringos solteirões que me chamarão
para limpar seus palácios no Morumbi. E, afinal, na abertura de A Diarista, não é
através de um classificado que a Marinete oferece sua força de trabalho?
Sonho meu: outra novela da Globo. Chovem ligações, sim, de gente
interessada
trabalho. Uma delas: “Nóis tá precisando de serviço com urgência, me liga, Deus te
abençoe”.
é trabalho, mas o desemprego em carne e osso. Não, essa reportagem não vai ser
sobre
Segunda-feira volto à Barão, não sem antes ligar para dezenas de agências de
serviço
patrões sumiram. Hoje, todo mundo quer empregada para dormir na casa. Em uma
delas
RG, CPF, comprovante de residência e atestado de antecedentes criminais”. É assim:
se quiser ser uma empregada “empregável”, tem de provar que não é bandida, o que é
no mínimo humilhante (o Congresso Nacional aprovou em dezembro projeto de lei do
deputado federal Luiz Alberto, do PT da Bahia, proibindo a exigência; agora, está no
Senado), além de levar um tempo do diabo em filas da burocracia. Fazer o quê?
Na Barão, sigo as instruções da Patrícia, de me colocar “à disposição da
agência”
começo a peregrinação nas salinhas, uma por uma, para ouvir jovens recepcionistas
repetindo:
personagem de uma anedota que, diante da pergunta, encarou o potencial patrão: “Sou
mulher,
da mão-de-obra, mas não precisa agradecer!” Sigo na Barão e arredores até os pés
doerem
Arrasada. O cansaço é enorme, é físico e é mental também. A terceira lição, muito útil
nos

Os Trabalhos e os Dias – parte II

Aquela semana foi de muito sol sobre a Barão de Itapetininga e sobre a gente, a mesma gente que eu reconheço em cada agência, atrás das mesmas vagas – copeira, auxiliar de cozinha, operadora de telemarketing, motorista. Ouço estarrecida a oferta humilhante de trabalhadores que, como disse Viviane Forrester no seu livro O Horror Econômico, pedem a simples licença para existir, o que no capitalismo significa “dar lucro a alguém”.

– Meu senhor, a gente está procurando alguém que more na zona norte!

– Mas eu moro em Pirituba, eu me viro, não tem problema!

– E qual a sua pretensão salarial?

– Oitocentos.

– Ah, mas o salário é 450…

– Tudo bem, eu aceito…

Fora os milhares que, como eu, são dispensados já na porta da agência pela pergunta maquiavélica: “Tem experiência de dois anos registrada em carteira?”

Não tenho muita simpatia por estatísticas. Elas tentam colocar um sem-número de angústias, vergonhas, desesperos, em números. Em maio, uma pesquisa do CNT/Census revelou que 41,3 por cento dos 2.000 entrevistados consideram o desemprego o maior desafio do presidente Lula, contra 36 por cento da violência. No mês seguinte o Ibope apontou que a maior preocupação dos eleitores paulistanos, 66 por cento deles, era o desemprego. Forrester, uma francesa que nem botou os pés por aqui, coloca de forma melhor: pesa sobre os ombros de cada desempregado a vergonha pelo próprio desemprego. E, irônica: “A vergonha deveria ter cotação na bolsa: ela é um elemento importante do lucro”.

A vergonha bate na semana como ressaca. De agência em agência, a esperança bate ou foge, dependendo de um sorriso ou uma grosseria maior. O desespero – “não vou conseguir” – pra mim, que quero só escrever uma matéria, ainda é infinitamente menor. E a pergunta de Forrester, “há angústia maior que a esperança?”, ecoa e se multiplica em cada “não” que recebo. E reflete no rosto de Eliana, uma baixinha morena de belos olhos verdes que conheço numa agência de serviços domésticos. Ela, despedida do serviço de acompanhante de uma idosa porque foi morar com o namorado – a velhinha não gosta disso. Envergonhada, diz que também “não é tão mau assim”: até conseguiu serviço em outra casa, mas saiu sem olhar para trás quando, depois de dias fazendo vezes de faxineira, copeira, cozinheira e arrumadeira – o emprego oferecido era apenas arrumadeira –, foi mordida pelo cachorro, que “abriu um tanto da minha perna”. A patroa deu risada.

Na saída toca o celular: é de uma agência de empregos. Do outro lado da linha, dispara:

– Você se interessa por uma vaga de operadora de telemarketing? São mais de cem vagas, pagam de 380 a 600 reais, dependendo da firma.

– Claro que topo!

– Bom, você foi selecionada. Agora é só trazer amanhã o seu RG, CPF, carteira de trabalho, comprovante de residência e o valor da primeira parcela para o curso de treinamento, no valor de 49 reais.

– Como assim, primeira parcela?

– É para o curso, que dura cinco dias, e o valor é de duas parcelas de 49 reais, a segunda descontada já do seu primeiro salário.

– Como assim? Tem que pagar para ter um emprego?

– Olha, a vaga já está garantida, mas o curso vai estar dando todas a ferramentas…

– Esquece.

– Certeza?

Certeza. Pensando bem, nunca estive na tal agência. Agora sei, pelo menos, para onde vão os currículos atirados nos caixotes de papelão na Barão. O desânimo aumenta com a chuva que molha, lava, derruba e pára a cidade. É quando toca o telefone, uma luz: currículo selecionado, auxiliar de cozinha, amanhã às 9 com documentos.

No bufê espero num balcão quando sai da entrevista uma mulata, cabelo alisado e sorriso satisfeito. No início antipatizo com minha rival, mas depois, ora!, afinal, quem é essa mulher? Ela é Denise, 27 anos, ali pela vaga de passadeira na lavanderia (450 reais), embora metalúrgica por formação. “Então é colega do presidente?”, brinco. “Tá bem de vida.” “Nada. Foi o tempo em que metalúrgico era respeitado. Agora, a gente ganha 380, 400 reais.” Do último trabalho, na carteira como temporária, foi mandada embora na primeira crise de produção, junto com dezenas de colegas. Agora é se virar, e danem-se mais de sete anos de experiência nas costas. (A tendência é explicada por Ricardo Antunes, professor da Unicamp, como a “nova cara do trabalho: a indústria contrata cada vez menos e produz cada vez mais; a produção se flexibiliza, incorporando desempregados, que voltam para a rua assim que cai a produção”). Bem-humorada, ela brinca com o fato de ser considerada velha demais aos 27: “Agora, nem pra vender eu sirvo mais, eles querem meninas de 18 até 25 anos!”

Na cozinha, uma moça loira, gordinha e decidida diz que não precisa ter experiência, basta vontade de aprender  e disposição de ficar até tarde, porque no fim do ano as encomendas dobram: “Muitas festas, sabe, e a gente tem de dar conta do serviço”. O esquema é 6 x 1, o que significa que só folgamos no domingo, enquanto as horas extras são amontoadas num “banco de horas” que dá direito a folga, depois. O salário, 400 reais – 330 com os descontos. Agradeço a oportunidade.

Terça seguinte, acordo às 6h30. Um ônibus só, se bem que leva mais de hora e meia, e aproveito para dormir. O mesmo fazem os outros passageiros nessa terça pós-feriado da República. Chego no trabalho, visto avental e touca branca no banheiro dos empregados, um pardieiro: roupas penduradas, o chão lodoso, a privada suja, o armário de ferro entulhado de aventais. Tudo fede a mofo, urina, umidade. Debruçada sobre uma pia pequena e mirando-se no espelho quebrado, encontro uma belíssima Maristela, 30 anos, branca de belos olhos castanhos, que tenta a custo enfiar os cachos negros na touca. Está atrasada e irritada. Contratada há três meses, só pensa em sair dali.

– Isso aqui é escravidão, ninguém tem hora de ir embora, não. Demorou um mês com dor no corpo todo até eu acostumar a ficar de pé o dia todinho…

– Quando o corpo acostuma – pergunto – é que a gente ficou mais forte ou mais fraca?

– Mais fraca, fia, mais fraca.

Destoando do nosso “cantinho”, a cozinha é linda e limpíssima, toda azulejos brancos e mesas de madeira, pilhas e pilhas de fôrmas de bolo, assadeiras, potes, panelas, mais fornos e geladeiras industriais. Cinco mulheres vestidas exatamente como eu (Fernando Braga, o psicólogo que realiza uma pesquisa na USP trabalhando como gari uma vez por semana, observa que “o uniforme uniformiza”, tira a individualidade para transformar todos em “funcionários”), entretidas em sovar a massa, conversam pouco. Me atrapalho na primeira tarefa, peneirar uma bacia enorme de farinha de rosca, que leva duas horas e algumas câimbras para terminar. E a simpática Néia me ensina o próximo serviço, fazer mil-folhados de presunto (na verdade, apresuntado), abrindo o rolo de massa, espalhando o recheio, fechando apertado para não vazar, cortando em cubos e levando ao forno. E repetir, repetir, repetir.
O suor escorre pelo rosto, os braços doem e as histórias de Néia me embalam. O filho de 3 anos, cujo pai “assumiu e sumiu”, fica com a mãe enquanto ela trabalha até as 10 horas, às vezes até perde o trem. Filha de baianos, o sotaque nordestino que se confunde com o das outras, já trabalhou na cozinha de um restaurante por quilo, já foi faxineira, fez de tudo um pouco.
Mas ficar longe do filho tão pequeno dói. As outras, também, cada uma dá um jeito com os filhos – são cunhadas, avós, tias, parentes, os filhos mais velhos cuidando dos mais novos – e a saudade é unânime naquela cozinha.

Em pouco tempo, a mesa central vai sendo coberta por travessas cheias de enrolados, esfihas, folhados, docinhos, salgados, pães, tudo douradinho e cheirando um absurdo, e a fome é maior porque não podemos comer nenhum. Pior: nosso almoço é uma marmita fria e murcha – arroz, feijão, frango, polenta. O almoço feito na hora foi banido porque as cozinheiras estavam “mimando demais” os funcionários, fazendo um menu diferente a cada dia. Não há humilhação maior, penso, do que terem de engolir essa gororoba sendo, justamente, cozinheiras de mão-cheia.

Nem vinte minutos depois, retomamos o serviço. Quando afinal batem 6 horas, já não me agüento em pé e mal consigo disfarçar. Maristela brinca comigo: “Ih, tu é fraquinha, não agüenta ficar até 10 horas da noite, não”. Mas a supervisora diz que eu posso voltar amanhã, é só antes passar na agência e assinar contrato, levando a minha carteira de trabalho. Não volto.

De novo na rua, chama a atenção um cartaz escrito à mão: “Precisa-se moças com ou sem experiência”. Ligo para o número, e um carioca me explica que é pra fazer bijuteria na casa dele: “Já tenho muitas moças trabalhando pra mim”. É na Liberdade, a “Chinatown” paulistana, próximo à baixada do Glicério, no Centrão da cidade. No número 13: mau presságio.

Chego lá e o tal me recebe de camisa aberta e corrente no pescoço, olha de cima a baixo e chama o menino: “Leva ela até a montagem”. E pra mim: “Diz pra patroa que eu mandei ela pegar você”. Atravessamos a rua até um predinho baixo, de corredor escuro,  pintura descascando e lixo por todo canto. Uma placa avisa: “Favor não cuspir no chão”. No primeiro andar, a porta está rabiscada: “Favor não arrombar, se esqueceu a chave bata e espere”. Mas é no segundo andar que uma porta de madeira esconde mulheres sobre mesas improvisadas, forradas de colares, peças coloridas de plástico, fios. A patroa – é assim que todas a chamam – vem me receber, os cabelos desgrenhados, calça florida e uma camiseta branca, baforando um cigarro. “Ah, ele te mandou? Então vem, fia. O trabalho é fácil, começa as 8 da manhã e eu vou precisar que fique até tarde. Domingo tem folga…” As janelas fechadas, tacos soltos no chão, as paredes rabiscadas por lápis de cor, e entramos num quartinho onde seis rostos de meninas me olham, curiosos. É onde vou trabalhar. Elas são negras, mulatas, os cabelos crespos, as mãos rápidas, os rostos jovens. A janela que dá para a rua está coberta por um papelão e a fumaça de muitos cigarros nubla o ambiente.

A patroa explica que no fim do ano tem muita encomenda (é a tal “dinamização da economia” que festejam os jornais), então vai ter muito trabalho. Ela paga condução, mas tem de levar marmita. Pra cada dúzia de conjunto (doze colares e 24 brincos), ela paga 1,50 real.

Dia seguinte chego cedo, entro no apartamento que está um carnaval de contas, pedras, pingentes, fios coloridos no chão, que uma menina varre rapidamente. Meu lugar é ao lado de uma negra baixinha e gordinha, a Raquel, “negona” minha companheira de cigarros e de histórias. A patroa  – “mulher, baiana e leonina, com orgulho” – está irritadíssima, faltam ainda duzentos colares para fechar uma encomenda pra meio-dia. Quem me ensina o serviço é Shirley, com dois brincos enormes de semente, camiseta justinha, batom, uma princesa de 21 anos. Cortar os fios de selonite, amolecer em água quente, prender o fecho com alicate, e seguir a ordem, bolinha prateada, pedrinha verde, caninho verde, mais uma pedrinha, mais um caninho, pingente, pedrinha, caninho, bolinha. Vou seguindo como posso, é verdade que sou bem mais devagar que as outra e minha mesa é uma bagunça. Ao som dos berros da patroa:

– Suas lerdas!

Quando termino a primeira dúzia de colares e brincos verdes, já são 10 e meia: 1 real e 50 ganhos. Desisto totalmente de contar o êxito à patroa porque acaba de chegar uma funcionária:

– Sua vaca peituda! Isso é hora?!?! Fazer isso comigo justo hoje, sua vagabunda! Te mato! Já te xinguei tanto aqui! Me deixar na mão assim…

Vilma conta que dormiu no ônibus, acordou no ponto final:

– Tô muito cansada, ontem a gente saiu daqui era mais de 11 hora!

A patroa cala, mas bufa. E eu decido ficar de boca bem fechada, que a menor frase minha já destoa, como: “Por favor, me passa um pouquinho de pedras verdes?” Em vez de: “Ô, na humildade, arranja umas pedra aí”. Não que eu seja mais ou menos educada: são aprendizados diferentes, o do asfalto e o da favela.

De todas, eu sou a mais velha. Raquel ao meu lado tem 24 anos; na minha frente estão as irmãs Milca, 21, e Bitcha, 17; de costas para a janela fica Naiara, a sobrinha da patroa, de 14 anos; do outro lado, Karen, 22, de touca da Gaviões da Fiel e “sangue nos óio”, tem 21. No primeiro contato, ela me aperta:

– Vem cá, tu já puxou cadeia, né?

– Não, mas conheço – arrisco.

– Tem cara.

Terminada a encomenda, sai a patroa, ligamos o som. Alguém trouxe um saco de pão e me ofereço para comprar margarina. Manteiga, nem pensar. Cada real é economizado, pra gente não acabar gastando o que ganha – dia de gastar é domingo; semana é dia de ganhar. Tomamos água da torneira, o cigarro, Kent, é dividido, o cartão telefônico também. Quando batem 6 da tarde, minha cabeça dói por causa dos muitos cigarros; a palma da mão dói por causa do alicate, os ombros, principalmente, e as costas. Consegui fazer quatro dúzias: 6 reais. É com alívio que ouço o berro da patroa:

– Manda a Natalia ir pra casa, que eu tô com a passagem dela.

Raquel, sempre bem-humorada:

– Só ela?

Dia seguinte é tudo diferente. A patroa não está e a casa fica nas nossas mãos.   Ouvimos, volume máximo, à Rádio Sucesso, que repete o refrão de Zeca Pagodinho: “Você sabe o que é caviar? Nunca vi nem comi, eu só ouço falar”. Perfeito para embalar o almoço que a Shirley divide comigo – cozinhou um tanto demais na noite anterior, foi o sono. O menu: arroz, feijão e macarrão, tudo misturado. Caviar?

Negona nos entretém contando como foi “pega pelos homi”, quando trabalhava para o “partido”. Numa central do PCC, ela, duas meninas e muito pó, enquadradas pelos policiais, teve de desembolsar 7.000 pra se livrar.

– Parei com o crime ali.

Mas ainda flerta: mora com a sobrinha, traficante por formação – na Febem dos 4 aos 12 –, a “bicha”, que por algum se prostitui, o namorado, funcionário de um fast-food, que “faz uns corres” de vez em quando.

Vou fazendo meus colares, rosa, vermelho, azul, e ouvindo. Naiara, a cabeça cheia de cachaça e vinho San Tomé, fala sem parar:

– Mó brisa, mano, tô brisada!

Ela conta que a mãe costumava bater a sua cabeça na parede quando ela dedurava ao pai as escapadas noturnas – a mãe se prostituía escondido. Como naquela noite em que entregou a filha a um homem: “Faz o que ele mandar”. Naiara tinha 8 anos. Na lembrança, ela grita, ri, gesticula nervosamente. Promete que vai matar a mãe. Está “brisada”.

Quase todas cumpriram o 1o grau, já tiveram outros empregos. Milca foi  auxiliar administrativa, Negona era acompanhante de idosos, Vilma trabalhava no Extra. Procurar trabalho, antes de encontrar a “patroa”, foi difícil: ninguém queria pagar condução, o que significa um gasto a mais de no mínimo 70 reais por mês.  A patroa explora – cada conjunto é vendido a 1 real em pontos na 25 de Março e na Santa Ifigênia, no centro da cidade –, mas pelo menos paga a ida e volta.

É no terceiro dia que decido ir embora. Mas especificamente às 11 horas, quando chega a patroa e avisa que seremos todas revistadas diariamente, além do que trabalharemos “de domingo a domingo”. Mais especificamente quando, depois disso tudo, ela encontra uma porção de fios que eu cortei mais curtos do que devia:

– Quem foi que cortou esse monte de selô errado, que eu tô com vontade de comer o cu!!!!

– Olha, patroa, espero que a senhora não coma o meu cu, mas fui eu – respondo, e de alguma maneira a minha fala deve ter impressionado, porque ela não retruca agora nem quando aviso que consegui outro trabalho, numa loja de calçados.

– Bom pra você, minha filha

Nem fui chamada de vaca nem nada, e ainda ela me diz para voltar outro dia, buscar meu dinheiro. O total – 22,50 reais, que no terceiro dia consegui fazer cinco dúzias – jamais foi resgatado, e é com pena que digo que ficou com ela. Meu gosto era ter dado para a Negona, que se despediu emocionada:

– Não esquece das irmãs bijutera aqui, não, se tiver uma vaga na loja…

Quando contei a saga das “irmãs bijuteras” para Ricardo Antunes, ele não teve outra palavra senão “escravidão moderna” para classificar o serviço. Assim: “É tão brutal a precarização do trabalho em escala global, que o trabalho assalariado volta ao patamar que tinha antes da Revolução Industrial”. O salário baixíssimo – a que mais ganha não passa dos 350 reais, fazendo no máximo nove dúzias por dia  –, as condições insalubres, o fato de elas não decidirem quando descansam, nem até que horas ficam. Tirando uma ou duas com passagem na polícia, não entendo por que elas continuam ali. Nenhuma resposta me convence. “Isso, pra mim, é uma terapia”, diz a Milca. “Me encontrei aqui”, lança a Vilma.

A resposta, mesmo, só vem mais tarde, quando me despeço falando do trabalho assinado em carteira. A surpresa geral, o silêncio, tudo indica que aquilo é algo mais distante delas do que previra. A sentença final vem da boca da Vilma:

– Mas tem certeza que é trabalho mesmo? Será que eles não querem só o seu currículo? Olha lá, depois a patroa não vai te querer mais.

Medo. Lição número quatro.

Os Trabalhos e os Dias – parte III

O relatório “Perfil da Juventude Brasileira”, parceria entre o Instituto Cidadania, Instituto de Hospitalidade e Sebrae publicado em abril, quantifica: 52 por cento dos entrevistados (3.500 jovens entre 15 e 24 anos de todo o Brasil) temem seu futuro profissional. E vinte por cento acham que o pior de ser jovem é a falta de emprego ou renda, resposta espontânea mais mencionada. O medo reflete uma realidade: dos que trabalham, 37 por cento não tem registro, 16 por cento vivem de bicos ou empregos temporários. Dos desempregados, que são 32 por cento, um terço procura trabalho há mais de um ano. Para as minhas colegas bijuteiras, medo que acorrenta a uma salinha fechada, escura e fedorenta, mais de doze horas por dia.

Nesses dias não parei de procurar, aqui e ali, um trabalho temporário para o Natal. O comércio fervia  – foram 35.000 postos criados desde setembro – e me sorria com um cartaz dizendo: “Você quer vencer na vida? Venha fazer parte da nossa equipe!” A loja de sapatos da Teodoro Sampaio, agitada rua comercial da cidade, pagava 5 por cento sobre o que eu vendesse, e mais nada. Nem o transporte.

Começo numa sexta-feira de sol, 26 de novembro, quando todos os jornais trazem a boa notícia que o desemprego atingiu em outubro o menor índice em quase dois anos – 10,5 por cento, ou 2,3 milhões de pessoas, segundo o IBGE. É verdade que a renda média caiu 1,2%, mas isso é detalhe. Chego à vitrine cheia de variados sapatos, tênis, chinelos, botas, e sou mandada para o fundo da loja, esperar  ao lado de duas meninas tão ansiosas como eu. Que o supervisor vai falar com a gente, já está a caminho. Dentro da loja é um corre-corre, dezenas de vendedores com a camiseta verde, uniforme da loja. Os dois gerentes continuam nos ignorando, vez ou outra passam, confabulando. Pesco uma frase: “Ah, é assim? Então boa sorte pra ele, tem um monte de gente querendo a vaga dele…”. Esperamos. Esperamos. Esperamos.

Até as 16 horas, quando finalmente o tal do superior dá o ar da graça. Explica tudo de novo – 5 por cento, das 8 às 18, marmita, temporário, entusiasmo etc – em cinco minutos, preciosos simplesmente porque ele é um supervisor, portanto, superior aos nossos superiores. E nos manda para o estoque. Que é um pesadelo.

Na sobreloja, uma estreita sala, com uma mesa de madeira, serve de refeitório, enquanto o banheiro sujo com só um vaso é a área privativa onde os vendedores se trocam. Um grande filtro fornece água – que é descontada dos salários, 2 reais de cada vendedor por semana. Nas salas ao lado, o estoque: um enorme labirinto escuro de caixas, amassadas, abertas, coloridas, velhas, novas, empilhadas pelo caminho, onde couberem, o cheiro de sapato novo ardendo o nariz. Tênis, sandálias, sapatos sociais, infantis: o desafio, aqui, é saber onde está cada sapato, e pegar rápido o número certo antes que o cliente se aborreça. Por isso, ficamos horas ali, decorando a posição de cada marca. Antes de ir embora, nossas bolsas são revistadas.

A regra da gerência é incentivar a competição: os vendedores têm de ficar na calçada, “cantando” os potenciais clientes. “Quem chegar primeiro, o cliente é dele.” Palavras do supervisor.

Dia seguinte, último fim de semana de novembro, deve vender bem. Chegamos 7 e meia porque tem reunião. Os dois gerentes só chegam às 8h15, mas ninguém ousa reclamar porque vem chumbo grosso: encontraram três pares de tênis no saco de lixo, ontem. O menorzinho, de gel, começa:

– Tem um ladrão entre nós.

E tira do balcão pares de Nike, Topper, Kolosh, as marcas mais caras. O larápio pretendia recolher assim que o lixo fosse para a rua, e porisso:

– Vou ter que descontar do salário de todo mundo!

Os sapatos ali, na nossa frente. Protestamos.

– Só porque eu achei, então deixa de ser roubo? Não! Vou descontar! – ele grita, e a soma é de 14 reais para cada, um dia de trabalho.

Mas o pior ainda vem: os tênis, ele diz, vão ser cortados ali, na frente de todo mundo, e queimados. Parece que é a regra da empresa, confesso que ainda não entendi bem o raciocínio. Mas, quando começo a falar que isso não tem outro nome que injustiça, recebo um cala-boca:

– Olha, vocês três são novas, não vão ser descontadas.

Assim, o menino de gel mostrava como abraçara a lógica do patrão como forma de ganhar um salário pouco menos de fome que os outros, na condição de gerente. Fiquei quieta. Fiquei quieta, ainda, quando pouco depois o gerente nos contou que esqueceu de pegar as nossas camisetas no escritório, e assim não poderíamos trabalhar. Fiquei quieta, ficamos quietas as três, e fomos embora, sem ganhar nada pelo segundo dia consecutivo e, ainda, tendo as minhas duas companheiras pago pelo transporte. Um funcionário mineiro nos consola, que essa semana ganhou 36 reais e gastou 50, quer voltar pra Minas:

– Aqui em São Paulo, você não veve, passa a vida.

Segunda-feira seguinte, mais uma boa nova: o desemprego caiu pelo sexto mês consecutivo na cidade, chegando a 17,6 por cento, ou 1,77 milhão de pessoas – o que não inclui a mim, claro, nem aqueles que não estão procurando trabalho por “desalento”, taxa que permaneceu em 1,7 por cento, nem aqueles atirados ao trabalho precário por culpa justamente do desemprego, taxa que aumentou de 4,8 para 5,1 por cento, segundo o Dieese. Chego na loja, marmita na mão, mas sou barrada. O gerente me chama de canto: lá no escritório não aprovaram meus documentos. Como assim, se estão todos em dia? Por quê? Nada. A única resposta repetida e repetida era que eles, no escritório, são assim mesmo. Esbravejei que ia ao escritório saber o porquê daquilo tudo, e ele ainda me avisa que não adianta, eles não iam me receber. Eu fui, o escritório ficava apenas do outro lado da rua, e de fato não me receberam.

Derrota. Em que eu errei? Foi porque protestei sobre os tênis roubados? Será que alguém percebeu que eu era jornalista? Será que estava mal vestida? Mas a verdade é que eu era, como milhões, absolutamente descartável, nada mais. E é por isso, e vem disso, a quinta lição: quando você é demitida, ninguém se preocupa em explicar o porquê.

Como não explicam por que você não é selecionada, o que foi me acontecer dois dias em seguida, quando, depois de longa peregrinação pela rua José Paulino, consegui fazer um teste como auxiliar de vendedora de uma loja, e como vendedora em outra.

A sede administrativa da primeira fica perto da estação Armênia do metrô, na zona norte da cidade. É um prédio grande, todo cinza, com enormes portas de metal atrás das quais vejo rolos de tecido, sacos cheios de roupa e algumas mulheres – funciona aqui, também, a fábrica de roupas. A encarregada explica que o serviço é de assistente de vendedora, para dobrar roupas até o Natal. O pagamento, 20 reais por dia, mais condução, e o teste seria feito ali mesmo: “Agora, só depende de você”. Vou para o andar de cima, onde num galpão 50 mulheres, de pé, dobram roupas coloridas, floridas, sobre mesas de madeira. No lado direito, outras tantas passam as roupas; no esquerdo, mais outras “revisam” cada peça, olhando detalhes, acabamento. Trabalho na fileira do meio, onde Rose, 33 anos, dobra cada peça e a coloca em sacos plásticos, daqueles que a gente abre nas lojas. Nunca tinha pensado que alguém era obrigado a fazer esse serviço.

Serviço que dobra em época de Natal, conta a capixaba, na fábrica há seis anos. Ela chegou a ser demitida, mas teve de voltar:

– O patrão não queria pagar a multa, né?

Magra, brincos de argola e rabo-de-cavalo, diz que a hora extra, avisada sempre no último minuto, estende a labuta até as 7 da noite, fazendo com que chegue em casa “pra lá das 9”. O barulho dos ferros a vapor é incessante, e a conversa é pouca. Algumas cantam. Depois de horas estou zonza, e Vanusa, ao meu lado, garante:

– É assim mesmo, depois você acostuma.

Chega perto das 5 horas, e ninguém sabe se haverá hora extra; perguntam umas às outras, nervosas, se o patrão falou alguma coisa. Quando soa o apito, é um corre-corre. Elas agarram suas bolsas, no subsolo, batem o cartão e são revistadas em fila. Eu fico. Uma baixinha de rabo-de-cavalo crespo avisa que eles “vão me ligar”. Nem um agradecimento pelas quinhentas peças dobradas.

Na segunda loja – dessa vez, o teste foi na José Paulino –, a mesma história: depois de esfregar o chão; depois de me esconder no banheiro quando chega a fiscal do trabalho; depois de agüentar as mais variadas peruas o dia todo; depois de vender 650 reais em blusas de oncinha, saias com argolas douradas e tops cor-de-rosa; o que eu ganho é um “obrigado, a gente te liga”.

É verdade que nem tudo estava negro naqueles dias. Afinal, eu também dispensara um promissor posto de trabalho, numa clínica de massoterapia onde a recepcionista, educada, me explicou com a maior ciência:

– Trabalhamos com massagem terapêutica, em que você vai estar massageando o corpo do cliente. Ela é antiestresse, relaxante, antinervosismo.E também fazemos a massagem tailandesa, conhece?

– Não.

– Também é massagem no corpo do cliente, só que na tailandesa você vai estar usando partes do seu corpo, coxas, nádegas, seios, para a massagem. Só de calcinha.

Diante do meu constrangimento, ela avisa que a tailandesa é obrigatória, não pode fazer só da outra. Não paga condução, mas dá refeição.

– Ah, e no final da massagem nós trabalhamos com relaxamento manual.

– Como assim? – não consegui segurar.

Ela faz o gesto: punheta. O pagamento, por sessão, é de 10 reais por meia hora (o cliente paga 80) e 20 reais para uma hora (o cliente paga 110). Digo que vou ligar depois. Sem perspectivas, sigo para a última alternativa: empresa de promoções.

Primeiro sábado de dezembro, sento às 7 da manhã na frente de um sobrado branco, junto a uma centena de meninas, sonolentas, na calçada. Miúdas, morenas, cabelos presos, shorts e camisetas coloridas, elas vêm de todos os cantos da cidade para aguardar a sua vez de serem chamadas. Gisele, a coordenadora, explica que o trabalho é só para os fins de semana, e o pagamento, 20 reais, sai no dia 15 do mês seguinte.

– Topa?

– Topo.

Subo a escada até uma pequena sala onde quarenta meninas se espremem de frente para um homem de meia-idade. Ele anda, impaciente, de um lado para outro, vez ou outra se vira para o grupo assustado e aponta:

– Você, você, você e você.

O silêncio é total. Elas evitam olhar para o homem: a possibilidade de não ser escolhida é terrível, significa 20 reais a menos no fim do mês. Não demoro a ser chamada, vou formar fila junto às outras para receber o uniforme – calça justa azul, camisa branca de gola, boné azul. Sigo para outra salinha onde pilhas e pilhas de folhetos se misturam a outra dezena de meninas, atrapalhadas, tentando vestir o uniforme. Como a porta não fecha de tanta gente, nos trocamos sob os olhares dos motoristas.

Na perua, nove meninas entre 14 e 16 anos se espremem no banco de trás. Nívea conta que tem que acordar às 4h30 para vir do Capão Redondo, na periferia, zona sul. Vale a pena, ela garante, o dinheiro é bom. A conversa morre. Sono. Quarenta minutos depois chegamos a São Bernardo, município que faz fronteira ao sul de São Paulo. Nossa tarefa, descubro com surpresa, vai ser vigiar um banner. Isso mesmo: ficamos o dia todo, cada uma em uma esquina, paradas, olhando uma placa. Para a fiscalização não levar, já que é proibido pendurar banners naquela cidade. Sozinhas, o sol forte na cabeça, de pé. Sentar, nem pensar, nem ao menos encostar num muro: são as regras.

– Se você passar mal, liga pra a central – avisa o motorista antes de me deixar, abandonada, na minha esquina, e ali fico.

Forrester diz que a falta absoluta de postos de trabalho gera uma quantidade de “ocupações imbecis”, que são apenas a “caricaturas de trabalho”. Muita gente sobrando dá vazão a idéias estapafúrdias, como, ora essa!, ser vigia de placa. Do outro lado da rua, uma outra coitada, a negra Marcela, 15 anos, de São Mateus, na zona leste, faz o mesmo por 15 reais para outra “empresa”. Esperamos. Passam carros. Pessoas. Vem o vento. Nuvens. Que passam. Mais gente. Bicicletas. Uma carreata propagandeia algum feirão de imóveis. Minha placa propagandeia um edifício com o nome de um pintor famoso, de três suítes, duas ou três vagas na garagem, 130 metros quadrados de área privativa, “mude em junho de 2005!”

Reparo que ninguém me olha. Os olhares passeiam pela placa, param no número de telefone, e simplesmente me pulam. Sem exceção. Na paisagem urbana, não existo; o uniforme me torna, de fato, invisível – é a “invisibilidade pública”, fenômeno que o psicólogo Fernando Braga observou ao trabalhar junto com os garis da USP.

Domingo, 5 de dezembro, subo na Kombi para o último dia dessa jornada. Vou distribuir panfletos com duas alegres meninas, ambas de 17 anos. De novo, as regras são gritadas dentro da Kombi: não sentar nem encostar nem espalhar panfleto nem dar dois por vez nem furar o sinal nem prender o cabelo.

Paramos numa esquina da avenida Rudge e nos dividimos por faixa. Invisíveis pelo efeito mágico do uniforme, por vezes quase somos atropeladas. Mais ainda, metade dos motoristas não percebe a nossa mão estendida, nem o nosso educado “bom dia”. Uns fecham o vidro, outros seguem olhando fixo para o farol, outros abanam levemente a cabeça. Engraçado: os ricos, bem aqueles que podiam comprar um apartamento caro. Enquanto que os pobres, aqueles que passam de Brasília velha, a porta amarrada com tiras de borracha, pegam com gosto, o sorriso aberto. Os motoristas de ônibus, acostumados, pegam sempre mais que um: “Pra ajudar a menina”.

Vez ou outra passa o supervisor de Kombi, mais das vezes papeamos entre um farol e outro. Ali, no farol, quem faz a propaganda dos condomínios de luxo é a Thaís, do Capão Redondo, que dorme num cômodo com os sete irmãos mais novos; é a Tatiane, de Paraisópolis, que também divide o quarto com os irmãos, quatro, num andar erguido sobre a laje da casa da mãe. É Tatiane que, sem experiência nem idade pra trabalhar em loja de sapato, cozinha de bufê, fábrica de roupas, tem de levar dinheiro para casa. É Thaís que sonha fazer curso de operadora de telemarketing e está juntando dinheiro para isso. É Tatiane que deita comigo num pedaço escondido e fresco de calçada na hora do almoço. É Thaís que canta comigo Chove Chuva, do Benjor, quando aparecem as primeiras nuvens no céu.

Chove torrencialmente, e na cidade centenas de meninas como nós nem se agüentam de felicidade porque podem parar para descansar em algum abrigo. Nós nos escondemos no banheiro do Sam´s Club, e é ali que eu descubro que as duas são evangélicas – Tatiane é da Assembléia de Deus e Thaís, da Comunidade Evangélica Pleno – quando gritam, emocionadas, “aleluia!” para a chuva que lava tudo à nossa volta. Hora depois, o sol volta pra nos acompanhar no resto da tarde. Que demora a passar.

Na perua de volta elas dormem, cansadas. Eu seguro: quero ouvir Maria, 15 anos, muito empolgada, contar como se divertiu com os meninos que faziam malabarismo no farol.

– Eles ganharam tanta coisa, bolacha, pão, pirulito, refrigerante… e dividiram tudo com a gente!

Só isso pra melhorar o dia, mesmo, depois de ela ter dado de cara com a professora de matemática.

Nem sei a cor que fiquei, não sabia onde enfiar a cara. Que vergonha!

Saindo da Kombi, as pernas bambas, volto para casa devagar, na cabeça a música-chiclete do programa de televisão: “ela é dona do jogo”. Ela, ela quem?

E o que fazer com quem considerávamos terroristas?

Um documento publicado pelo WikiLeaks mostra como os americanos têm dificuldade ainda hoje de lidar com ex-opositores da ditadura militar no Brasil, que na época eram considerados “terroristas”.

O telegrama enviado em 15 de outubro de 2009 ao Departamento de Estado pede orientações a respeito do visto concedido a Paulo de Tarso Venceslau, ex-integrante do grupo Aliança Libertadora Nacional que participou do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick.

Ele acabava de obter um visto de turista no consulado dos EUA em São Paulo.

Segundo o telegrama, a diplomacia americana se preocupava que, ao perdoar ex-guerrilheiros, isso enfraqueceria sua luta contra o terrorismo.

“A missão vê implicações potenciais na expedição do visto em termos da política e da mensagem mais ampla dos EUA sobre terrorismo, em especial em relação aos oficiais americanos”, escreveu a diplomata Lisa Kubiske.

Paulo de Tarso participou do sequestro do embaixador americano em 1969 ao lado do hoje deputado federal Fernando Gabeira e do atual secretário de comunicação da presidência Franklin Martins. Até hoje eles não têm permissão para viajar para os EUA. Em troca da libertação do embaixador, 15 presos políticos foram soltos.

No comunicado, Kubiske explica  que o consulado expediu o visto sem saber do passado de Paulo de Tarso. Para ela, o visto ainda podia ser barrado.

Só deveria ser expedido se Paulo de Tarso renunciasse publicamente ao sequestro enquanto tática válida. “Nós teríamos que buscar essa afirmação”, escreve ela. Mesmo assim, ela observa que “se ele fizesse essa renúncia, expedir um visto a Venceslau constituiria um precedente em relação aos outros sequestradores, pelo menos dois dos quais (Gabeira e Martins) provavelmente vão pedir um visto num futuro próximo”.

A diplomata nota que Gabeira critica hoje em dia o sequestro, mas observa com preocupação que Franklin Martins “se recusa obstinadamente a expressar remorso por seus atos”.

Mesmo assim, Kubiske avalia que seria positivo para a relação entre os países se o visto fosse mantido, “considerando que já passaram 40 anos desde o sequestro e a natureza política da oposição ao regime militar”. Além disso, retirar o visto poderia causar reações negativas na imprensa e no governo.

O telegrama também reproduz parte da ficha de cada um dos sequestradores no FBI.

“De acordo com relatos da imprensa e arquivos do FBI, Paulo de Tarso Venceslau ajudou a planejar detalhes do sequestro, foi um dos passageiros no veículo usado para bloquear o carro do embaixador, rendeu o motorista e foi um dos que entraram no carro do embaixador e o escondeu. Enquanto o embaixador estava preso, Venceslau ajudou a montar a lista de 15 presos políticos que o grupo exigiu que fossem libertados”, diz o telegrama.

Clique aqui para ler a íntegra, em inglês.

Documentos: Brasil e Irã

Estão no ar, no site do WikLeaks, uma série de documentos que mostram os bastidores do acordo que Brasil e Turquia encabeçaram com o Irã neste ano.

Assinado em maio, o acordo estabelecia que o Irã enviaria urânio levemente enriquecido para o território turco em troca de urânio enriquecido a 20%. O objetivo era refrear o enriquecimento de urânio pelo Irã, que alguns países acusam de ter ambições nucleares.

O acordo não foi acatado pelo Conselho de Segurança da ONU, que impôs uma nova rodada de sanções contra o país.

Os  documentos publicados pelo WikiLeaks revelam, entre outras coisas: que a diplomacia americana sempre acompanhou de perto a relação entre Brasil e Irã; que os diplomatas brasileiros mantiveram uma posição cética em relação aos iranianos; e que chegaram a aceitar apoiar “discretamente” uma nova rodada de sanções caso o acordo não saísse.

Também mostram que o Irã usou o Brasil como desculpa para não assinar o protocolo adicional ao Tratado de Não Proliferação nuclear, alegando que estava simplesmente fazendo ao mesmo.

Os documentos em inglês podem ser lidos aqui.

Leia também um telegrama do consulado de São Paulo sobre o caso do menino Sean Goldman, que foi levado para os EUA, terra natal de seu pai, em 24 de dezembro do ano passado.

MST, o jornalismo em rede – e afinal, documentos são documentos

O MST publicou hoje no seu site um texto acusando o jornal O Globo de distorcer os documentos do WikiLeaks para atacar a organização.

O MST ouviu o pesquisador Clifford Andrew Welch, do curso de história da Universidade Federal de São Paulo, principal fonte do telegrama da embaixada mais polêmico sobre o MST. Welch negou que tenha dito que o MST tem espiões no Incra e afirmou que, no documento, suas frases foram colocadas fora do contexto. Isso merece duas reflexões.

Primeiro, o MST fez exatamente o que deve ser feito. O propósito do WikiLeaks ao disponibilizar documentos na internet é justamente permitir que os mais diversos atores leiam e tirem suas próprias conclusões. E as espalhem.

Ontem no programa É Notícia, da Rede TV, o Franklin Martins dizia que estamos vivendo um momento de transição no jornalismo, que deixa de ser o que ele chama de “jornalismo de aquário”,  concentrado por um pequeno grupo de meios que podem dizer o que é ou não verdade, para o jornalismo em rede, em que os produtores de conteúdo são muitos.

É nesse momento de transição que aposta do WikiLeaks, ao fazer questão de disponibilizar os documentos na rede.

Mesmo assim, ainda hoje há pouca gente revirando os documentos que já foram publicados – quase 2 mil – para fazer uma leitura crítica, ou uma leitura própria, que seja. Depois de um mês do lançamento, a rede continua fervendo atrás do que é o furo, do que é a novidade. Mas a riqueza dos documentos nem sempre está aí. Uma leitura aprofundada pode revelar coisas muito mais importantes.

E aí vem a segunda reflexão. Tem se discutido muito pouco o que são esses documentos das embaixadas. Eles são, em primeiro lugar, documentos. E devem ser tratados e olhados como tal.

Ao longo deste ano, enquanto estava escrevendo um livro-reportagem sobre o jornal Movimento, usei primordialmente fontes documentais.

Trabalhando com  documentos, você percebe muitas coisas, como por exemplo que os documentos podem mentir ou distrocer algo. São o produto de um momento específico, escritos por pessoas específicas, com objetivos específicos. Não são prova de uma verdade cabal, embora tragam fortes indícios de que algo está se passando – e que deve ser investigado.

Parte da cobertura sobre o Cablegate tem tratado o conteúdo dos telegramas como se fossem a verdade, e ponto. E nisso, estão fazendo mau jornalismo. Em alguns casos falta checar as informações, comparar, avaliar com mais critério.

Não é que os telegramas estejam mentindo, mas podem ser apenas uma interpretação de encontros e informações que, de fato, existiram.

Há muito de substancial nisso: sabemos que os encontros ocorreram, sabemos como os EUA viram e atuaram em relação a cada um dos temas, sabemos quais informações foram transmitidas a Washington e sabemos o que os embaixadores ouviram e o que consideraram relevante. Daí pra ser a prova cabal de algo que foi informado é verdade, é, algumas vezes, um longo caminho.

Já que é Natal

Deixo aqui para os leitores o perfil de Armênio Guedes, um lindo homem. (publicado na Folha Ilustíssima no último domingo)

Foi um século fantástico

Aos 92 anos, Armênio Guedes espera duas biografias e uma indenização de R$ 1,4 mi

Quem costuma ir aos concertos da Sala São Paulo tem grande chance de encontrá-lo no mezanino superior, na última fileira. Armênio Guedes é um homem miúdo, calvo, o corpo já curvo, de gestos econômicos e elegância discreta.

Aos 92 anos, o último dos figurões do velho Partido Comunista Brasileiro -além de Oscar Niemeyer- não chama especialmente a atenção, durante o intervalo, caminhando a passo lento em meio a tantos casais. E, no entanto, é uma figura central no pensamento democrático brasileiro.

Por ele, José Serra, que o conheceu no exílio chileno, foi capaz de deixar seu gabinete de governador para ir pessoalmente à gravação do “Roda Viva”, na TV Cultura, prevendo que o amigo ficaria nervoso, desacostumado com os holofotes. “Ele sabe que eu gosto dele e do seu jeito de ser e de pensar”, diz Serra. “E eu sei que ele me aprova, concorda com o que faço no atacado, mesmo à distância. Sempre foi assim desde que convivemos por alguns anos no exílio.”

Não está só. O velho comunista tem, entre seus admiradores, políticos de variadas matizes da esquerda, muitos dos jornalistas que dirigem as principais redações do país e alguns de seus principais intelectuais.

Conviveu com muitos deles, seja quando militava no Partidão nas décadas de 40 e 50, seja no exílio, durante a ditadura, ou após deixar o PCB, na década de 80. Um deles notou jamais ter conhecido alguém que não gostasse de Armênio. “Se existe um ser humano que deu certo, foi Armênio Guedes”, resume o historiador Ivan Alves Filho.

FAMÍLIA Armênio Guedes nasceu em Mucugê (BA), em 1918 (“um ano depois da Revolução Russa”, como gosta de frisar), no seio de uma família de 11 irmãos cujo pai, lapidário, se preocupava com a educação dos filhos. Para isso foram a Salvador e ali, coisa raríssima naqueles dias, quase todos fizeram curso superior. Foi ali também que Armênio vibrou pela primeira vez com a política.

O pai comprara um aparelho de rádio e, à noite, muitos vizinhos se reuniam para ouvir as notícias sobre a Revolução de 1930. Entrou para o PCB pouco depois de ingressar na Faculdade de Direito da Bahia, em 1935. “Era a época da frente mundial contra o fascismo”, lembra. “Eu participei daquilo.”

Setenta e cinco anos depois, em 20 de julho deste ano:

-O que você não esperava que tivesse acontecido?

– O fim da União Soviética. Que ia desmoronar daquele jeito.

– O que é ser comunista hoje?
– Uma pessoa de cultura socialista, também antifascista, internacionalista, contra a xenofobia, pela melhoria da situação do povo. Uma pessoa impregnada desses valores que só podem se desenvolver na democracia.

TEIMOSO Armênio Guedes está ao volante do seu Honda 99, dirigindo com zelo pelo centro de São Paulo. É teimoso, faz questão de levar a repórter e outro acompanhante de carona até um ponto melhor para cada um, mesmo que seja fora do seu trajeto de volta para o apartamento onde mora, em Higienópolis.

No encontro com a repórter, em julho, ao volante do seu carro, não teve dúvidas: “Olha, se precisar de um carro emprestado é só falar, eu empresto”. Era a terceira vez que a encontrava.

Antes, na segunda vez, preocupado em chegar atrasado à entrevista no seu apartamento, avisou que deixaria a chave na portaria. O Armênio é assim.

“Tenho um ódio disso!”, diz, meio brincando, meio séria, a mulher, Cecília. “Tenho medo de ele ser enganado, mas ele não é uma pessoa enganável. Não é burro, de jeito nenhum. Ele empresta dinheiro pra as pessoas, ajuda o cara que foi torturado e ficou sem dente, paga o dentista…”

Não é sempre que ele se perde no caminho, pelo contrário. Faz questão de guiar seu carro todos os dias para o trabalho – no escritório da Imprensa Oficial, onde edita uma agenda cultural. Leva a mulher, Cecília, 26 anos mais jovem, aonde ela precisar.

Vai conversando, sua principal arte: “Foi um século fantástico, esse. Vi a coletivização da agricultura na União Soviética, a ascensão do fascismo, a Segunda Guerra Mundial, o franquismo na Espanha, aqui no Brasil o Estado Novo, a ditadura…”.

Armênio ingressou para o núcleo do partido em 1943, quando ajudou a organizar a histórica Conferência da Mantiqueira, que decidiu pelo apoio a Getúlio Vargas na guerra. Nunca mais saiu, mas permaneceu a maior parte do tempo como suplente por causa de suas posturas “liberais”, em busca de alianças e do caminho político (“a arte do possível”, costuma lembrar). Foi membro efetivo do Comitê Central apenas entre 1975 e 1980.

PRESTES Em quase tudo, sua atuação foi antagônica à do imponente Luís Carlos Prestes – que entrou na história com alarde, à frente da coluna batizada com seu nome.

Já Armênio foi marcando sua passagem aos poucos, escutando, conversando, um “comunista sem pressa”, como foi descrito certa vez: “Não se pode conseguir hegemonia à força”, ensina.

Não que fossem inimigos; houve até um período de amizade, lembrado com carinho. Quando Prestes foi libertado, em 1945, Armênio tornou-se seu secretário, indo morar com ele numa casa próxima ao largo do Machado, no Rio. “Ele tinha passado esses anos todos segregado, então tinha necessidade de falar, falar, fazia sabatinas todo dia. E em casa, conosco, ele falava muito, sobre a coluna, sobre a vida dele na União Soviética. Fiquei muito ligado a ele.”

Armênio estava presente quando Prestes soube da morte da mulher, Olga Benário, e quando conheceu a filha Anita Leocádia. “Eu era da segurança dele, apesar de ser um intelectual franzino. Eu era tão magro que o revólver escorregava para dentro da calça. Era uma farsa”, ri.

Mas havia pontos de discórdia. Enquanto Prestes sempre foi um fiel seguidor das diretrizes do PC soviético e da ortodoxia marxista, Armênio sempre teve uma “intuição” democrática.

Um dos documentos que mais se orgulha de ter escrito é a resolução do Comitê Estadual da Guanabara, de março de 1970, quase um ano e meio após o Ato Institucional nº 5. A resolução foi um dos primeiros documentos a condenar a luta armada e a defender a aliança com o MDB, então único partido de oposição consentida -estratégia que seria bem- sucedida.“A figura que mais influiu na orientação política do partido durante várias décadas foi exatamente ele”, diz o ex-deputado pecebista Marco Antônio Coelho.

A cisão alargou-se. “Em política, Prestes era um comandante militar. Foi um militar de muito talento, muito criativo. Mas acho que não foi um político talentoso”, avalia Armênio. No último encontro com Prestes, em 1983, nem uma palavra. “Era o velório do Gregório Bezerra. Ele chegou ali, apertou a mão de todo mundo, não me olhou. Eu também não olhei. Quer dizer, olhei, vi que não ia falar comigo, eu também não me dirigi a ele. Ele era assim, firme.”

MILITÂNCIA Em 50 anos, dedicou-se tanto à militância que, se fosse escrever uma autobiografia, dividiria os capítulos de acordo com as fases do partido. Quando saiu do PCB, em 1983, passara menos de quatro anos na legalidade.

No início, quando se mudou para São Paulo, em 1947, ainda pôde tomar o vapor com seu próprio documento, mesmo com o partido na ilegalidade; não havia um sistema de segurança nacional que cruzasse dados, coisa que seria aprimorada na ditadura militar. No final daquela década, sofreu um processo, a perseguição apertou.

Foi por ali que conheceu sua primeira mulher, Zuleika Alambert. “Quando fomos morar juntos, nosso casamento foi aprovado pelo Marighella”, lembra.

Em 1968, com o AI-5, cada um precisou ir para um lado: Zuleika em casa de amigas, ele pingando de casa em casa. “Nos primeiros meses, chegava umas seis da tarde, eu pensava: ‘Onde eu vou dormir?’ Tinha a casa da minha tia, tinha a casa do fulano… Eu simplesmente não sabia pra onde ir.”

Às vezes, os dois passavam meses sem se ver. Nunca puderam ter filhos.

Armênio teve muitos nomes e muitos passaportes: foi “Marcos”, “André”, “Vítor”. Hoje até se confunde.

Em Paris, onde viveu entre 1973 e 1980, o nome do passaporte era Lásaro Feitosa Alexandre, mas, na comunidade, era conhecido como “Júlio, representante do Partidão”. Foi lá que conheceu Cecília, sua segunda mulher, que até hoje o chama de “Júlio”.

Hoje o nonagenário tem uma casa confortável e uma indenização mensal que lhe dá um bom padrão de vida. É a primeira vez em uma vida de apertos. Abriu a primeira conta bancária aos 64 anos. Próximo dos 70, ainda morava numa quitinete.

-O que mais te marcou na clandestinidade?

-Viver na casa dos outros. Me relacionar bem com as pessoas. Eu aprendi muito o valor da solidariedade… E observava também, fazia tudo para não ser uma carga, não comprometer as pessoas que me davam guarida e também não desorganizar a vida deles. Acordava bem cedo, antes deles, para não atrapalhar e eles não notarem minha presença.

LIVROS Agora sua trajetória começa a ser recontada em dois livros. Desde o final de 2009, o jornalista Sandro Vaia, ex-diretor de Redação de “O Estado de S. Paulo”, está fazendo uma longa série de entrevistas para uma biografia, a pedido da editora Barcarolla.

A outra, escrita pelo amigo Mauro Malin, começou a ser elaborada em 1980, mas só agora ganha forma. “Eu, no começo, não queria, não, mas se eles querem tanto, eu conto”, diz Armênio.

“Na verdade, acho que ele foi um comunista por acaso”, arrisca Sandro Vaia. “Ele vai ficar bravo comigo, mas é isso. Era um momento histórico no Brasil, em que estar no PCB era símbolo dos melhores valores da época. Se o comunismo virou o que virou, isso não diminui as pessoas, porque era um valor humanista.”

Vaia, que está longe de ser um simpatizante da ideologia, quer entender por que Armênio se manteve no partido por tanto tempo. “É uma questão metafísica.”

Já a outra biografia está sendo escrita por um simpatizante, o historiador Mauro Malin, que conhece Armênio desde o exílio em Paris. O projeto, que estava parado, foi retomado a pedido de Serra. Ventilou-se a possibilidade de sair pela Imprensa Oficial. Agora está sem editora definida.

Ao lado de Leandro Konder, Milton Temer e Carlos Nelson Coutinho, Malin fez parte do grupo que se formou em Paris em torno de Armênio, defendendo a democracia não como meio, mas como fim da luta pelo socialismo. Mantinham contato com o PC francês e PC italiano de Enrico Berlinguer.

EUROCOMUNISTAS “A direção do PCB rapidamente nos desqualificou como ‘eurocomunistas’”, lembra Carlos Nelson. “Armênio, com seu agudo senso de humor, dizia que éramos, na verdade, ‘neurocomunistas’.” Até hoje alguns dos amigos do grupo se reúnem todo mês, na casa do cineasta Zelito Viana, no Rio.

Com o mesmo carinho com que sempre ouviu as histórias alheias, agora Armênio cuida de recontar a sua. Revisa cuidadosamente os esboços escritos por Malin e chegou a ligar mais de uma vez para esta repórter, pedindo para não deixar de fora um detalhe, para excluir outro.

Só depois de muita insistência topou contar, hesitante, a história do copo que guarda na sua cristaleira, um pequeno vaso arredondado, de cristal: “Roubei na datcha do Stálin, numa reunião do Comitê Central, em 74. Eu estava em Paris, mas o Comitê Central se reunia em Moscou, né?”. A Datcha Kuntsevo era a casa de veraneio em que Stálin morou nas duas últimas décadas da sua vida, nos arredores de Moscou. “Ele recebia os amigos, tomava sua vodca… Eu tava lá na casa, abri a cristaleira, tirei e guardei. Pra ter uma lembrança daquele lugar.”

IRMÃO Nas entrevistas, raramente entra num tom mais pessoal. Aprendeu a ser discreto e quase invisível na clandestinidade, sob muitos nomes, em casas que ninguém sabia onde ficavam. Suas diversas narrativas parecem sempre seguir um mesmo roteiro, aquele que ele escolheu – a história do partido.

Pouco fala da maior tristeza da sua vida, causada justamente por um vacilo do Comitê Central: a morte do irmão mais novo, Célio, durante a ditadura. “Meu irmão era dessas coragens de que a gente tem medo. Ele dizia: se eu for preso eu não vou ser torturado, vou partir com uma violência tamanha pra cima dos torturadores”.

Celito também dedicou boa parte da vida ao partido. “Ele era um ponto de apoio para a direção. Foi ele que levou o Prestes para sair do Brasil, em 1970.”

Em agosto de 1972, o irmão tinha ido buscar um militante que trazia dinheiro da URSS. A polícia sabia da empreitada, e o Comando Central sabia que a polícia sabia. Mas manteve a ordem. “Eles não precisavam mandar ele fazer isso”, lamenta o irmão.

Presos na fronteira, os dois foram levados para o 1º Distrito Naval do Rio, onde Célio morreu em 15 de agosto de 1972. Teria “se jogado” do sexto andar, segundo a versão oficial. “Ele se sentiu culpado da morte do irmão. Mas não tem culpa nisso”, diz Cecília. Na volta ao Brasil, Armênio tentou abrir um processo pela morte de Celito no PCB.

AVULSO Sentia-se cada vez mais isolado no partido, avesso a alianças e apegado ao centralismo: o novo Comitê Central, sob Giocondo Dias, tampouco se mostrava inclinado à democracia.

Armênio acabaria saindo após uma demonstração de autoritarismo. Em 1983, foi chamado a dar explicações por ter contado a um colega que ele estaria sofrendo processo de expulsão. Um puxão de orelha. Saiu da sede e jamais voltou. Nunca mais entrou em partido nenhum. Tornou-se um “comunista avulso”, diz.

Não é bem assim: ele segue sendo um interlocutor para muitos políticos. “Seja José Serra ou Dilma Rousseff, o processo histórico de uma revolução passiva, de uma modernização do país, vai se dar”, dizia, durante a campanha eleitoral. “Não que eu ache que dá no mesmo. Acho o Serra muito mais capaz. Mas, na realidade, a diferença entre esses partidos é tão grande. Talvez, quem sabe no futuro, venham a ser um partido só, um partido social-democrata brasileiro realmente forte.”

Nos últimos anos, Armênio tem se reaproximado do PPS por iniciativa do presidente Roberto Freire. Até hoje mantém a amizade com os que constituíram o “Grupo de Armênio”, embora sejam de variados partidos: Ivan Alves Filho trabalha na Fundação Astrojildo Pereira, do PPS; Carlos Nelson Coutinho é do PSOL, assim como Milton Temer. Aloysio Nunes Ferreira, recém-eleito senador pelo PSDB, também era do grupo: “Armênio é uma espécie de superego meu em matéria de política”.

GAZETA Quando saiu do partido, Armênio foi ser jornalista. Levado por companheiros do Partidão, foi trabalhar na revista “IstoÉ” e depois fez longa carreira na “Gazeta Mercantil”. Entrou já septuagenário e ficou lá por 17 anos. Editava a página de Opinião, secretariava a Redação e foi editorialista. “O primeiro emprego de carteira assinada dele foi lá”, diz Roberto Müller Filho: “É um grande jornalista”.

Quando a “Gazeta Mercantil” começou a se desmilinguir, ele se manteve firme. Foram anos sem receber em dia até que veio uma decisão trabalhista do novo dono, Nelson Tanure -um dos poucos contra quem Armênio não hesita em praguejar- que acabaria provocando sua demissão, em 15 de março de 2005. Tinha 87 anos.

“Foi muito difícil, desarticulou a vida dele”, lembra Cecília. Na Justiça, o final melancólico virou processo e pode, quem sabe, render uma riqueza tardia: Armênio está a um passo de ficar milionário.

O primeiro processo, já julgado, lhe confere uma indenização de R$ 1.405.135,21. O outro aguarda julgamento, mas deve superar os R$ 2 milhões. “Vai sair em um ou dois anos” diz, confiante, o advogado Wladimir Durães.

CORAÇÃO Aos olhos da mulher, Armênio envelheceu há poucos anos. Tem poucos problemas de saúde; na semana passada, uma dor forte no peito o levou ao hospital. Foi internado, examinado, e a conclusão é que não tem nada de errado no coração do velho comunista.

Ele só agora começa a brigar com a memória. Faz ginástica, continua lendo (grande parte do apartamento é forrada de livros), come pouco e bem. É difícil encontrá-lo sozinho em casa sem que esteja ouvindo música clássica ou jazz.

Casaram-se no final de 2007. Assim, ele garante que a sua aposentadoria vá para ela. “Vou morrer antes dela, certamente. Uns três ou quatro anos de vida aí, se tiver. Eu trabalho com cem anos, que eu chegue aos cem. Assim mesmo é daqui a oito anos…”

Extrovertida e enérgica, Cecília esmera-se em planejar belas viagens e aniversários marcantes. Quando ele fez 90, organizou uma festa-surpresa: “Eu não sabia se o Armênio ia viver mais, entendeu? Cada ano, cada aniversário é sempre uma incógnita”, diz ela. “Isso é uma coisa angustiante de vez em quando. Depois eu esqueço, vou trabalhar.”

Este ano, passaram dez dias em Nova York para celebrar os 92 anos, e quase um mês na Alemanha – entre o primeiro e o segundo turno da eleição, aos quais ele faz questão de comparecer. “Acho que ele merece tudo isso e muito mais. Porque ele se privou de muitos anos da vida dele em função do país”. Só agora que começam a chover pedidos de entrevistas, perfis, homenagens, conta Cecíia.

E olha para a repórter: “Ninguém conseguiu captar a essência do Armênio”.