Um bando de provocadores

Reproduzo aqui o que disse o editor do New York Times, Bill Keller,  sobre o WikiLeaks, hoje:

“Ao longo desta experiência, nós consideramos Julian Assange e seu alegre bando de provocadores e hackers como uma fonte. Não vou dizer uma fonte pura e simples, porque como qualquer repórter ou editor pode atestar, fontes são raramente puras e simples”.

Ele disse isso em um evento sobre jornalismo promovido pela Fundação Nieman, em Harvard. E afirmou ainda que Julian Assange não é um jornalista: “Pelo menos não do mesmo tipo que eu”.

Acho que a consideração é perfeita e vem no momento exato:  Bill Keller apenas falou alto o que muitos jornais pensam.

A postura dele revela uma coisa simples, que é o fato de que muitos profissionais da mídia tradicional não estão prestando atenção no que está acontecendo com o jornalismo no mundo.

Falo de jornalismo grasroots ou comunitário, sim, falo de jornalismo espontâneo e de blogs, sim, mas falo principalmente de bom jornalismo, relevante e profundo que está surgindo de grupos independentes e também de centros de jornalismo investigativo – e que está retirando o monopólio dos veículos estabelecidos de produzir e propagar infomação, de dizer o que é ou não notícia.

Após taxar o WikiLeaks de “fonte”, o editor diz que “nenhuma fonte” é “pura e simples”. O raciocínio mais lógico é questionar se algum jornal é um jornal “puro e simples”, incluindo o New York Times. E isso não tira o mérito do bom jornalismo que muitos deles fazem.

Mas a coisa é um tanto pior porque o  WikiLeaks obtem informações valiosas – sim, elas valem muito dinheiro. Vendem jornal. Causam escândalo. Então, neste caso, os veículos tradicionais se interessam e têm que negociar.

Por isso me assusta um pouco a defesa de que há um tipo “superior” de jornalista e “outro tipo” – neste quesito caberia o Julian Assange. Cheira a uma defesa desesperada de quem está perdendo seu nicho de mercado.

Não seria mais inteligente olhar as novas fronteiras do jornalismo, reconhecer as iniciativas bem-sucedidas e ficar feliz com o mundo de possibilidades que está se abrindo?

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10 Respostas para “Um bando de provocadores

  1. Estudo a New York Times para ver o que “eles” querem que pensemos… Sao parceiros para os intereses da EUA: New York Times como “Good Cop” (“liberal”), e Wall Street Journal como “Bad Cop” (“conservative”). O fim e o mesmo: Programar como entendemos as noticias.

  2. Concordo em partes com o editor do NY Times. Divulgar documentos sem contextualizá-lo não pode ser considerado jornalismo. Mas, a partir do momento que a busca pela verdade torna-se prioridade de determinada instituição, o serviço público prestado supera qualquer rotulação técnica.

    Que foi bem ufano o comentário dele, ah, isso foi!

  3. Miguel Gouveia

    o fato é: facebook, orkut (no brasil), linkedin, the pirate bay, twitter, foursquare, skype, wikileaks e todos os seus clones e derivados estão redesenhando a forma com que pessoas e empresas se relacionam entre si…e esses dinossauros eternizados em seus catelos de poder aparente não tem a mínima idéia do que se trata…vão ser varridos da face do mundo por uma chuva de meteoros mais do que anunciada…

  4. Eduardo Nascimento

    Acredito no jornalismo comunitário, mas feito por jornalistas – o que qualquer um pode ser desde que compreenda o papel dessa atividade, tenha ética em sua postura e, óbvio, seja um bom comunicador.

    Creio que o que você faz é jornalismo, o Assange é apenas uma fonte valiosíssima. Jornalista escreve matéria, dá sentido aos papeis que recebe, não apenas os disponibiliza na rede. Tenho um grande respeito por seu trabalho, mas discordo da sua linha de raciocínio neste texto, que, aliás, engana por parecer notícia, e depois se mostrar um artigo opinativo

  5. Emanuel Villaça

    Armando Nogueira dizia que não basta ser um bom jornalista, mas ter sorte.Uma coisa fica clara, quantas análises furadas os analistas escreveram. No caso Doroty, eles erraram em gênero numero e grau.Disseram que a imprensa local estava contra ela e citaram apenas uma revista. Com tantos recursos e gravando com cameras de alta defiição, entrevistando pessoas ,erraram na dose e elaboraram um um documento digno de qualquer analista em alto grau etílico . Os americanos deveriam demitir todos os analistas e atentar para o óbvio.Eles não cuidam bem dos dddocumentos deles e ainda querem dar piteco no Brasil

  6. Juliana Vilas

    Natalia,
    Não sei bem dos outros tipos, mas você é do tipo de jornalista mais raro e valioso que há hoje: excelente, perdigueira, independente de verdade. Parabéns, você arrasa!

  7. Natalia,
    que legal esse trabalho que vc esta fazendo. Boa sorte e conte comigo se precisar.
    Agora, vem ca. Uma coisa que ainda nao entendi direito é como esses caras conseguiram tantos documentos.
    Bjs

  8. Não seria sensato deixar de valorizar tanto esses dinossauros grandes, corrompidos e traiçoeiros da imprensa “classica”, e se voltar de vez para o novo jornalismo, “relevante e profundo que está surgindo de grupos independentes”?
    Estas parcerias com Folha, Globo, NYT e outros, gente reacionária que vampiriza e distorce um trabalho digno, com uma proposta de mudança de paradigma… Isso, pra mim, deveria ser revisto com cuidado, e carinho.

  9. “Pelo menos não do mesmo tipo que eu”. E não é que ele está totalmente correto?

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