Acidente da GOL: EUA buscaram Itamaraty e PF para tirar pilotos do país

Em 29 de setembro de 2006, o pior acidente da história da aviação brasileira aconteceu na Serra do Cachimbo, no Mato Grosso.

Um jato particular Legacy, da empresa americana ExcelAire, se chocou com o avião do voo 1907 da GOL. Todos os 154 passageiros  da GOL morreram.

Os pilotos americanos que conduziam o jato, Joe Lepore e Jan Paladino, foram acusados de negligência – eles teriam desligado o transponder, equipamento que alerta para a possibilidade de uma colisão –  mas acabaram inocentados pela Justiça Federal de Mato Grosso.

O acidente do Boeing 737 da GOL evidenciou o caos aéreo causado pelo aumento do tráfego sem um aumento do número de controladores aéreos. Os controladores, subordinados à Aeronáutica, trabalhavam longas horas e em péssimas condições. No caso do acidente, controladores acusaram que haviam “pontos cegos” em plena rota de aviões, o que dificultava seu trabalho.

Telegramas a serem publicados hoje pelo WikiLeaks mostram que a embaixada americana contactou o Itamaraty, a Polícia Federal e o judiciário para tirar os pilotos americanos do país.

Atendendo aos EUA, o Itamaraty interveio junto à justiça em nome dos pilotos.

Itamaraty ajuda EUA a pressionar justiça

Preocupados com a possível condenação dos seus pilotos, em outubro de 2006, os EUA enviaram  3 funcionários do Conselho de Segurança de Transportes  (NTSB) e um da Administração Federal de Aviação (FAA) ao Rio de Janeiro para acompanhar de perto as investigações.

Por sua vez, a embaixada dos EUA se preocupou  principalmente com uma coisa: tirar os pilotos americanos do Brasil assim que liberados através do habeas corpus – eles não estavam presos, mas seus passaportes estavam retidos e eles não podiam sair do país.

Em novembro de 2006,  o cônsul-geral Simon Henshaw  interveio junto ao Itamaraty para pedir que interviesse junto à justiça.

Um telegrama do dia 17 de novembro mostra que o diretor das Comunidades Brasileiras no Exterior do Ministério das Relações Exteriores, Manoel Gomes Pereira,  disse que  iria transmitir “oralmente” a preocupação do governo dos EUA, pois “temia que qualquer comunicação por escrito pudesse causar repercussão  contrária aos  pilotos”.

No dia 21, Manoel Gomes Pereira telefonou para o cônsul-geral dizendo que ligara pessoalmente para dois dos juízes trabalhando no caso do acidente, explicando a preocupação dos EUA.

Restava esperar. “Ele recomendou que não se tomassem mais ações até  o julgamento, pois os juízes são sensíveis a pressões externas”, relatou o telegrama.

Ligando para a PF

Em 1 de dezembro de 2006, o embaixador Clifford Sobel escreveu a Washington dizendo acreditar “ser apenas uma questão de tempo” até os pilotos do Legacy conseguirem a autorização para sair do país.

Sobel ligou para o delegado da PF Renato Sayao, responsável pelo inquérito policial, para perguntar sobre o habeas corpus.

“Contactado pela embaixada, Sayao disse ser improvável mas possível que os pilotos sejam formalmente acusados. Ele disse também que o mais provável é que os controladores aéreos sejam culpabilizados pelo acidente. Mesmo se formalmente acusados, Sayao disse que os pilotos poderiam provavelmente sair do país, mas notou que isso é uma decisão da justiça e não dele”.

O embaixador nota também que a opinião pública estava mais favorável aos pilotos americanos depois que foi ficando clara  a proporção do caos aéreo  – no começo, diz ele, estava bastante contra os americanos.

Mirando o STJ

Sobel observa também que os pilotos e executivos da ExcelAire estavam  sendo representados no Brasil pelo escritório de advocacia de José Carlos Dias, o mesmo que representa a embaixada.

Ele reforça que o advogado da embaixada, Théo Dias, é “filho de um ex-ministro da justiça”

“Ele nos alertou para não fazer muita pressão sobre as cortes, dizendo que elas têm orgulho da sua independência e normalmente não cedem a tais pressões, algumas vezes produzindo o efeito contrário para provar sua independência”.

Em seguira, o advogado explicou que se o pedido de habeas corpus não fosse atendido, o recurso iria para o  Superior Tribunal de Justiça.

“Nosso advogado sugeriu que se o pedido (de habeas corpus) dos pilotos for rejeitado, nós consideremos uma intervenção discreta junto ao Ministério da Justiça, pedindo que eles contactem o Tribunal Superior”.

Sobel encerra o telegrama lembrando que o MRE já havia intercedido junto a dois juízes em favor dos pilotos americanos.

“Nós não acreditamos que mais pressão vai produzir resultados positivos”, explica Sobel. “Entretanto, a embaixada (em Brasília) não se opõe a Washington procurar a embaixada brasileira, pois isso pode ser visto como uma continuação dos pedidos ja feitos e não como pressão extra”.

Ele conclui que a embaixada estava “frustrada” com a maneira que a investigação foi conduzida – mas era melhor esperar para reclamar “depois que os pilotos tenham deixado o Brasil”.

Processo contra pilotos segue até hoje

Em 5 de dezembro de 2006,  o Tribunal Regional Federal da 1ª Região concedeu o habeas corpus aos pilotos norte-americanos, que se compormeteram a comparecer durante a ação penal no Brasil.

Em 8 de dezembro de 2008 o juiz federal de Sinop, Mato Grosso, absolveu-os de negligência, mas manteve outras acusações. Pouco mais de um ano depois, em janeiro de 2010, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região suspendeu a absolvição por negligência nos procedimentos de emergência e falha de comunicação. O caso voltou à primeira instância.

As famílias das vítimas seguem organizadas e exigindo punições contra os pilotos.  Chegaram a acionar a justiça americana em Nova York, mas o juiz americano Brian M. Cogan negou que a justiça dos EUA pudesse julgar o caso. O juiz  também dispensou os pilotos da obrigação de prestar depoimento no Brasil.

Embora estejam respondendo a processo criminal no Brasil, Paladino segue trabalhando na American Airlines e Lepore na Excel Air.

A intervenção americana no caso do Legacy demonstra como o governo dos EUA age no exterior – chegando a intervir junto ao governo, à polícia  e à justiça locais – para proteger os cidadãos americanos. E como o governo brasileiro atende a tais pedidos.

Mas o governo dos EUA usam também outras formas de pressão, como vai mostrar uma reportagem a ser publicada à tarde neste site.

Anúncios

18 Respostas para “Acidente da GOL: EUA buscaram Itamaraty e PF para tirar pilotos do país

  1. Observação rápida: “Ele nos alertou para não fazer muita pressão sobre as cortes, dizendo que elas têm orgulho da sua independência e normalmente não cedem a tais pressões, algumas veses produzindo o efeito contrário para provar sua independência”.

    Sic ou escrito errado mesmo?

  2. José Falcão

    Pelo que vi na internet, mais precisamente em sites dos Estados Unidos, o (des)Governo Bush aboliu várias garantias constitucionais dos cidadãos americanos, implantando assim o que o próprio povo americano chama de Estado Policial. Acredito que muitos funcionários públicos e políticos americanos estão ficando completamente paranóicos. Eles mesmos estão rasgando a própria Constituição (segundo G. Bush: “a Constituição é só um papel”.), e jogando todos os valores morais na lata de lixo. A meu ver isso é um forte sintoma da decadência e queda do Grande Império Americano. Para quem não tenha lido ainda, recomendo o livro de Emmanuel Todd – Depois do Império. Ele é um historiador e demógrafo francês. Li esse livro e o autor acertou em cheio (previu) o que está acontecendo agora nos EUA. Não demorará muito, o Grande Império estará na lona por nocaute. Outra informação: não me lembro do nome do secretário americano que é o principal contador do tribunal de contas dos EUA, mas vi uns vídeos no youtube em que esse senhor relata a situação econômica dos EUA. Eles estão quebrados e estão tentando esconder ao máximo essa situação para as populações do próprio país e estrangeiros. Entretanto, as coisas por lá estão desmoronando. Não levará muito tempo e nós veremos o estado de miserabilidade que tomará a população americana. Em resumo: toda essa humilhação que esse governo impõe aos outros países retornará a eles. E pior, o mundo quase como um todo virará as costas aos EUA. A sorte deles já está selada e não é nada agradável.

  3. Rodrigo Abreu

    http://www.airlinepilotforums.com/major/7799-us-pilots-joe-lepore-jan-paladino-home-safe.html

    Dá nojo de ler os posts desse forum. Falam sobre o Brasil ser uma república de bananas e recebem os pilotos do legacy como heróis.
    Parece que qualquer idiota pode ser um herói nos EUA.

  4. Marcos de Almeida

    Fico pensando de os pilotos americanos tivesses derrubado um avião russo com 153 russos, aí sim os americanos iriam ficar preocupados, pois eles seriam julgados.Fico triste ao vê que o Brasil prefira ficar contra a população brasileira e a favor dos yanques.

  5. Essa foi uma das maiores vergonhas jurídicas nacionais!!!! Os safados sairam pela porta dos fundos!!!! Se fossem brasileiros que tivessem cometido tal acidente, nos USA, já teriam sido até torturados como sendo terroristas……

  6. Com certeza aproveitaram o fato também para reforçar o lobby para a tentativa de privatização da Infraero. Percebam que a Infraero nada tinha com a situação e botaram o então presidente da estatal como boi-de-piranha. A empresa não faz controle de tráfego e foi ele que acabou falando sobre o assunto. A imprensa viúva de Carlos Lacerda caiu em cima da estatal,quando apareceu expert em todos os canais. Um baixinho, que dava pitacos em tudo,num jornal do SBT com Hermano Hening, ainda teve a audácia de falar que aquela estatal deveria preparar melhor os seus controladores de tráfego! E a mídia batia palmas,orientada por alguém interessado,fazendo maluco dançar. Houve uma articulação no vácuo do acidente para colocar a estatal no bolo e minar o governo Lula. O mais recente foi induzir os atrasos dos voos destinados à Europa,pelos motivos lógicos das nevascas, à Infraero e ao próprio governo. Como vemos no relato,acredito que contactavam um X9 para fazer o que eles queriam,inclusive para desmoralizar a estatal e declará-la como um dos culpados pelo acidente. Como nossa imprensa joga contra um governo que não os representa e como há infiltrados sob a batuta americana. Claro que não é só por submissão ou simpatia. Tudo tem um preço e o embaixador não falaria o valor da nota.

  7. Muito bom trabalho!
    Olha, não adiante tentar especular só no aspcto político ouro da coisa. Todos têm que penar em algo chamado Maçonaria…rs. Sem mais delongas.

    Abraços!

  8. Observado desde fora: Os Defesores do Brasil estao na Itamaraty! Entre os militares ainda estao “serviles”‘ – Mas tambem ha militares patriotas e nacionalistas, defesores da soberania do Brasil como: Lembremos que o General Heleno e o Col. Fregapani foram tirados da Amazonia devido a suas alertas contra a subvercao das ONGs, principalmente dos EUA e Bretanha (agora tambem da Alemanha). E em Nov. 2010 o Ministro Jobim defendeu a soberania do Brasil e do subcontinente contra a expancao da OTAN!

  9. Natalia, parabéns pelo blog e pelo seu trabalho!

    Estamos chegando no fim da tarde e o suspense que você lançou ainda está no ar:
    “Mas o governo dos EUA usam também outras formas de pressão, como vai mostrar uma reportagem a ser publicada à tarde neste site.”

    Queremos mais! 🙂

  10. Ricardo Coutinho

    Quem é que manda e desmanda na Justiça Brasileira? Vocês já se perguntaram quanto a isso????

  11. Ricardo Coutinho

    Detalhe: os pilotos, ao chegarem nos EUA foram aplaudidos enquanto muitos mortos foram chorados no Brasil…

  12. Salve Wikileaks ! Tomara que detone todos os podres dos americanos.
    Por esta e por tantas outras razões nós brasileiros deveríamos boicotar tudo dos EUA principalmente o turismo em terras norte americanas, mas não podemos esperar muito dos burgueses e emergentes brasileiros que vivem gastando dólares por lá, eles não tem vergonha na cara !

  13. Incrível como os americanos ignoram solenemente qualquer coisa que não aconteça com eles. Além de toda essa pressão revelada aqui, eles fingem não saber que morreram 154 pessoas: os dois principais envolvidos trabalham como se nada tivesse acontecido.

  14. Parabéns Natália,
    Essa veio confirmar as suposições quase evidentes sobre esse caso.
    E como suposição quase evidente não é nada..
    Salve Wikileaks.
    Abraços

  15. e há quem considera jurássicos aqueles que analisam o cenário internacional a partir do conceito de imperialismo… (hoje, a chapa esquentou no blog!!! Viva wilileaks!)

  16. Muito obrigado por estar publicaçao. Este tipo de informaçao e’ fundamental para que, atraves de pressao popular, possamos alterar a realidade das relaçoes internacionais com os EUA.

  17. Chega embrulhar o estômago ler tal noticia.

    Cade a justiça? Cade o poder judiciario? Estamos a merce de interesses cada vez mais obscuros.

    Vergonha pra vcs “juizes”.

  18. Olá, Natália. Bom dia.

    A cada dia, sou surpreendido pelo material divulgado pelo WikiLeaks. Embora já fosse possível imaginar as ações de bastidores em prol dos pilotos norte-americanos, é impactante ter acesso a todos os detalhes sobre o modus operandi da diplomacia norte-americana.

    Venho apreciando muito todos os textos publicados pelo site e aqui no blog. No entanto, é possível encontrar alguns erros, seja de ortografia ou de digitação.

    Caso se interessem, me ofereceço para revisar os próximos textos.

    Abraços e parabéns pelo trabalho

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s