MST, o jornalismo em rede – e afinal, documentos são documentos

O MST publicou hoje no seu site um texto acusando o jornal O Globo de distorcer os documentos do WikiLeaks para atacar a organização.

O MST ouviu o pesquisador Clifford Andrew Welch, do curso de história da Universidade Federal de São Paulo, principal fonte do telegrama da embaixada mais polêmico sobre o MST. Welch negou que tenha dito que o MST tem espiões no Incra e afirmou que, no documento, suas frases foram colocadas fora do contexto. Isso merece duas reflexões.

Primeiro, o MST fez exatamente o que deve ser feito. O propósito do WikiLeaks ao disponibilizar documentos na internet é justamente permitir que os mais diversos atores leiam e tirem suas próprias conclusões. E as espalhem.

Ontem no programa É Notícia, da Rede TV, o Franklin Martins dizia que estamos vivendo um momento de transição no jornalismo, que deixa de ser o que ele chama de “jornalismo de aquário”,  concentrado por um pequeno grupo de meios que podem dizer o que é ou não verdade, para o jornalismo em rede, em que os produtores de conteúdo são muitos.

É nesse momento de transição que aposta do WikiLeaks, ao fazer questão de disponibilizar os documentos na rede.

Mesmo assim, ainda hoje há pouca gente revirando os documentos que já foram publicados – quase 2 mil – para fazer uma leitura crítica, ou uma leitura própria, que seja. Depois de um mês do lançamento, a rede continua fervendo atrás do que é o furo, do que é a novidade. Mas a riqueza dos documentos nem sempre está aí. Uma leitura aprofundada pode revelar coisas muito mais importantes.

E aí vem a segunda reflexão. Tem se discutido muito pouco o que são esses documentos das embaixadas. Eles são, em primeiro lugar, documentos. E devem ser tratados e olhados como tal.

Ao longo deste ano, enquanto estava escrevendo um livro-reportagem sobre o jornal Movimento, usei primordialmente fontes documentais.

Trabalhando com  documentos, você percebe muitas coisas, como por exemplo que os documentos podem mentir ou distrocer algo. São o produto de um momento específico, escritos por pessoas específicas, com objetivos específicos. Não são prova de uma verdade cabal, embora tragam fortes indícios de que algo está se passando – e que deve ser investigado.

Parte da cobertura sobre o Cablegate tem tratado o conteúdo dos telegramas como se fossem a verdade, e ponto. E nisso, estão fazendo mau jornalismo. Em alguns casos falta checar as informações, comparar, avaliar com mais critério.

Não é que os telegramas estejam mentindo, mas podem ser apenas uma interpretação de encontros e informações que, de fato, existiram.

Há muito de substancial nisso: sabemos que os encontros ocorreram, sabemos como os EUA viram e atuaram em relação a cada um dos temas, sabemos quais informações foram transmitidas a Washington e sabemos o que os embaixadores ouviram e o que consideraram relevante. Daí pra ser a prova cabal de algo que foi informado é verdade, é, algumas vezes, um longo caminho.

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14 Respostas para “MST, o jornalismo em rede – e afinal, documentos são documentos

  1. “Todo documento é uma ficção filho”, foi isso que aprendi com um empresário que distorcia os fatos em meio a meias mentiras que ia acumulando em seu escritório. Relatórios de pessoas de confiança eram lidos com desconfiança pelo tal empresário que me ensinou também que
    “a vida se torna uma aventura quando narrada”. Depois descobri que a frase era do Sartre, que adorava distorcer uns fatos que aconteciam la na URSS & CIA. Meu avô sempre me alertou que “quem conta um conto aumenta um ponto”, eu replicava “as vezes diminui tambem vô”. Ele ria muito.

    Para pessoas com um mínimo de discernimento estes docs não dizem nada de novo, pelo menos ate agora: que esta gente mente muito, aquela outra gente tambem e assim vai, todo mundo querendo o “poder” ou ao menos puxar a sardinha pra sua brasa ou ainda como bem disse Castor Filho “os telegramas trazem pouca informação sobre o mundo real LOCAL de cada telegrama”, mas diz muito sobre como mentem e porque mentem e isso pode ser a fonte de muita verdade, desde que vc tenha um poquito de discernimento e não acredite na imprensa – seja ela qual for – mas, e sempre tem um mas, discernimento não se aprende na escola, não se ensina e é um mistério… ou estou enganado?

    Para ler: Auto- Engano, Gianneti. : )

  2. ó natália, por que você não publicou os reports referentes ao Brasil como entroncamento do tráfico de drogas mundial? E por que você ameniza os reports relacionados ao MST? Manipulação? Ou você ainda não entendeu nada da cultura de rede?

    • Oi Norton,

      Todos os documentos já publicados estão disponibilizados no site do WikiLeaks, do qual sou parceira no Brasil. E todos são mais que bem-vindos para escrever sobre eles. Aproveite!

      Abs,

      Natalia

  3. Esse PIG continua dando nojo!

  4. Stenio Gonçalves

    nós consumimos há anos informação não checada, apenas repetida da agências.
    Qual a diferença da repetição dos cables?
    Ocorre que agora não vem de um grupo econômico de informação com vinculações suspeitas com os poderes instituídos, portanto desprovido da necessária isenção jornalística.
    Por outro lado quais são as vinculações ideológicas do Wikileaks?
    A única saída é ler, reler, comparar, refletir, ou seja digerir o que se está divulgando sobre esses cables, pois só assim não caímos no erro de sermos seduzidos pelo ineditismo do furo em detrimento da verdade, ou o que estiver mais próximo dela.

  5. se mentem no caso do MST não podem mentir em todo caso?

    Sim, é o que a Natália está dizendo.

  6. Os jormalistas aprenderam muito pouco com os historiadores.

  7. A questão é que o WikiLeaks revela o que a diplomacia americana pensa sobre X e Y, não que X e Y sejam “verdade”. Se existisse um WikiLeaks no mundo ficcional dos anos 50 de Graham Greene, iríamos nos deparar com plantas de aspiradores de pó vendidas para a inteligência britânica como se fossem mapas de instalações nucleares. O chiste da piada é que nós descobrimos o que a diplomacia-espiã americana pensa sobre as coisas, portanto, é necessário levantar os dados a partir dos cables, não publica-los como se fossem dogmas. O Globo, para variar, errou.

  8. Acho que daqui a 50 anos, todos entenderão que os documentos são tão verdadeiros quanto os feitos de D. Quixote narrados por Sancho Pança ou o contrário.

    A diferença — que os jornalistas inventaram a seu exclusivo favor — de que haveria uma específica narrativa, chamada “jornalística” e que só ela corresponderia ao fato é ideia TOTALMENTE fictícia, na melhor das hipóteses, e deliberadamente falseada, na pior.

    A novidade de WikiLeaks está em mostrar que TUDO pode ser mentira, mas, mesmo que seja, NÃO FAZ DIFERENÇA ALGUMA… Porque, das duas, uma: ou a Hilária dá atenção aos que digam os seus embaixadores, ou… Prá que embaixadores?!

    Se um cara diz X sobre o MST ao embaixador e o embaixador notifica a Hilária de que o cara disse Y… O problema, de fato, é mais da Hilária, do que do MST.

    Embora, sim, se possa demonstrar que… O embaixador mentiu. Mas… Será que mentiu? E se estivesse CONVENCIDO de estar relatando exatamente o que ouviu? Aliás, por que mentiria?

    Ou será que o cara que falou sobre o MST mentiu ao embaixador? Esse, sim, pode ter mentido (1) ao embaixador (pra se fazer de importante? Por vaidade e língua-frouxa, feito todos esses jornalistas e professores tucanos, e zilhões de políticos petistas e o cardeal Hummes e Dirceu e Jobim e MILICANALHAS além ZILHÕES de outros perfeitos idiotas, que não podem ver um espião que, imediatamente, põem-se a falar pelos cotovelos?!).
    E é claro que o cara pode também estar mentindo hoje ao MST, se o MST o interrogar.

    Mas ainda que o cara esteja mentindo hoje ao MST, não cabe dúvidas de que, na versão do embaixador para a Hilária, o cara disse o que os telegramas registram. Nesse sentido, não entendo muito bem de que serviria interrogar o professor lá.

    A única coisa realmente efetiva, hoje, é dar uns gritos com TODOS esses panacas nacionais e ENSINÁ-LOS, principalmente os MILICANALHAS a não dar trela a espiões, mesmo que sejam embaixadores. E quem dê trela a embaixadores dos EUA, que, pelo menos, não pense que está num confessionário, beneficiado pela confidencialidade absoluta da confissão! E tenha consciência da TRAIRAGEM.

    Bom. E em todos esses casos, a única coisa que se comprova sempre é que a tal “verdade” e o tal “fato” TOTALMENTE NÃO EXISTEM e, se existirem, vez ou outra, eles totalmente NÃO INTERESSAM.

    Diferente do que pensam os jornalistas tradicionais pré-WikiLeaks – esses que tendem a ficar TOTALMENTE desempregados em breve, motivo pelo qual NÃO perdem ocasião de “ensinar” que WikiLeaks não é jornalismo… Mas o besteirol do Demétrio Magnolli, do Clóvis Rossi, da D. Eliane, da Danuza seria jornalismo?! QUEREM ME MATAR DE RIR?! — os telegramas trazem pouca informação sobre o mundo real LOCAL de cada telegrama.

    Mas TODOS os telegramas são interessantíssimos como fonte TOTALMENTE PRECIOSA E RARA de informação sobre:

    (1) a forma mentis dos embaixadores e espiões norte-americanos pelo mundo; e de seus “informantes” locais (brasileiros, no caso).
    (2) a total IMPRESTABILIDADE de todo o jornalismo que há hoje. Afinal, TODOS os eventos que são narrados nos telegramas estiveram nas manchetes dos jornais. Por que, diabos, os leitores consumidores PAGANTES de jornal não foram informados sobre TANTA coisa… e o embaixador dos EUA foi informado sobre o que o Dirceu pensa sobre o Tarso Genro?!

    Deu p’ra entender?

  9. Ô Norton! Você não entendeu nada. Leia de novo o texto com toda a isenção e sem ideias preconcebidas.

  10. incrível… por que um report diplomático contrariou interesses do seu partido ideológico a reporter wikileaks afirma que os reports diplomáticos podem mentir. se mentem no caso do MST não podem mentir em todo caso?

  11. Prezada Natalia
    POR FAVOR, É URGENTE.
    Em seu artigo, “Brazil – Dilma Rousseff, na saúde e na doença”, publicado no site Wikileaks, em 10 de dezembro de 2010, 9.00 GMT, aparecem algumas indicações, (veja lista abaixo) fazendo referência a telegramas publicados pelo site. Porém, os links que vc indica não estão ativos. Também não sei como encontrar esses números e respectivos documentos. Já procurei pelas datas (Browse by creation date), e nada encontrei.
    Assim, poderia ter a gentileza de enviar-me por e-mail os números dos documentos tipo, “07BRASILIA1234”, como o site faz na sua relação de documentos publicados? Ou responder no seu blog?
    Obrigada
    Emily
    Lista de documentos:
    22 de maio de 2005 (CLIQUE AQUI – 35188);
    20 de julho de 2009 (CLIQUE AQUI – 7/20/2009);
    19 de junho (CLIQUE AQUI – 213148);
    7 de maio de 2009 (CLIQUE AQUI – 154334);
    21 outubro de 2009 (CLIQUE AQUI – 234038);
    fevereiro de 2010 (CLIQUE AQUI – 248788);
    23 de abril de 2009 (CLIQUE AQUI – 203847);
    24 de julho (CLIQUE AQUI – 218138);

    • Oi Emily,

      Tentei corrigir esse problema, adicionando os links nos posts mais antigos. De qualquer maneira, todos podem ser encontrados no site do WikiLeaks por data e local de envio.

      Abs,

      Natalia

  12. Ok, então a ideia é que os telegramas têm carga razoavelmente interpretativa, logo agora que começaram a aparecer informações constrangedoras para determinados grupos. Vejamos se essa cautela também será tomada em relação a vazamentos que desfavoreçam seus adversários ideológicos, assim por dizer…

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