Embaixada intercedeu pela extradição de mediador das Farc

Dois  telegramas publicados hoje pelo WikiLeaks mostram como os EUA intercederam em nome da Colômbia pela extradição do padre Francisco Antonio Cadena Collazos, conhecido como Padre Olivério Medina, colaborador das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia que vive no Brasil desde 1992.

Cadena estava no Brasil com status de refugiado, garantido em julho de 2006 pelo Conselho Nacional de Refugiados (CONARE). Em 2005, o governo colombiano pediu a sua extradição, acusando-o de ter liderado um ataque das Farc a uma base militar em 1991.

Os EUA intervieram em nome do país aliado, pedindo explicações a autoridades brasileiras sobre o status de refugiado garantido ao padre e dizendo-se “consternado”.

Para o ex-embaixador Clifford Sobel, o alto escalão do governo Lula teria interferido em favor do padre. Já os integrantes do CONARE viam interesse eleitoral do ex-presidente Álvaro Uribe no pedido de extradição.

Para o conselheiro político da embaixada colombiana, o assessor especial da presidência Marco Aurélio Garcia teria atuado em favor de Cadena.

Cadena foi durante muito tempo mediador das Farc no Brasil, sendo membro do secretariado internacional da organização. Em 2005, uma reportagem da revista Veja o acusou de  ser o elo entre o Partido dos Trabalhadores e as Farc e de ter mediado doações de campanha para o PT em 2002. O partido nega.

Marco Aurélio Garcia

Em uma reuniao com o embaixador americano em 27 de julho de 2006, o conselheiro político da embaixada da Colômbia Juan Manuel Gonzalez Ayerbe, apontou Marco Aurélio Garcia como “ator-chave” na tomada de decisão sobre Cadena.

“Ele acrescentou que, durante os muitos anos que passou no Brasil antes da sua prisão no ano passado, (Cadena) cultivou laços com o PT do presidente Lula”, relata um telegrama enviado a Washington no mesmo dia.  Além disso, o colombiano mostrou preocupação com reuniões “com líderes do PT em uma casa nos arredores de Brasília  (chamada Mansão do Coração Vermelho) pertencente a um membro do PT no Congresso”, e insistiu que havia “amplas provas dos laços do Cadena com o PT.

O mesmo telegrama pede instruções para os próximos passos e descreve que tanto americanos como colombianos estavam trabalhando para descobrir o porquê da decisão de garatir asilo a Cadena.

Explicações

Outro telegrama secreto da embaixada dos EUA em Brasília, enviado em 12 de setembro de 2006, relata que representantes da embaixada tiveram reuniões com o atual chanceler, Antônio Patriota, e a embaixadora Maria Luiza Veotti, então subsecretária do Itamaraty para organizações internacionais.

“O conselheiro político (da embaixada) enfatizou que o governo dos Estados Unidos não tinha intenção de interferir no processo legal brasileiro, mas notou a consternação do governo americano com a decisão, perguntando como o governo brasileiro podia conciliá-la com as suas obrigações sob a resolução 1371 do Conselho de Segurança da ONU” (que determina que os países devem lutar contra o terrorismo).

Para os representantes do governo, as razões para a garantia do status eram “humanitárias”, já que o padre Medina “vivia pacificamente no Brasil” com a esposa e um filho.

Luiz Paulo Barreto

A embaixada também procurou o ex-Ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, que presidia o CONARE e era secretário executivo da pasta – posto que voltou a ocupar no governo Dilma.

Barreto, um colaborador de “longa data” em temas de contra terrorismo, explicou com detalhes as considerações do Conselho, que avaliou o pedido do governo colombiano como enganoso, já que o crime havia sido cometido quinze anos antes e a acusação se baseava no depoimento de uma única testemunha.

“Barreto disse que o CONARE considerou o interesse do governo colombiano e o momento em que foi feito o pedido de extradição como sendo motivados por fatores políticos domésticos”, diz o telegrama.

Ele teria confirmado que o governo brasileiro sabia do papel de Cadena como negociador entre o governo colombiano e as Farc e questionou por que o então presidente Álvaro Uribe buscava sua extradição num ano eleitoral, enquanto outros governos “até apoiavam seu papel como facilitador do diálogo”.

O padre Medina recebeu o status de refugiado menos de dois meses depois da reeleição do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe.

Segundo Barreto, o serviço de inteligência e as forças militares haviam “pesquisado extensivamente” durante diversos meses a história de Cadena com as Farc mas não haviam encontrado evidência de sua atuação como comandante guerrilheiro.

“Cadena diz ter sido um comissário político, professor e padre para as Farc na Colômbia, e depois um representante informal para o grupo do Brasil, mas não um combatente, e muito menos um comandante”, diz o documento.

“Mas no final, ele afirmou que Cadena defendeu uma tese convincente perante o CONARE, dizendo que ele tinha um medo bem fundamentado de ser morto pelos paramilitares se voltasse para a ele Colômbia, que superou as alegações e o pedido do governo colombiano, que pareceu questionável”.

Pressão do governo Lula

Em seguida o representante da embaixada perguntou a Barreto se o Conselho havia sofrido pressão política em relação ao caso, e ele respondeu que não. Também disse que o comitê estava aberto a apelações do governo colombiano e que Cadena teria seu status removido se continuasse a militância política.

Barreto teria então convidado o governo americano a entregar informações sobre Cadena, “assumindo pessoalmente a responsabilidade pela segurança e manejo apropriado dessas informações se elas envolverem métodos e fontes dos serviços de inteligência”.

O embaixador Clifford Sobel conclui o telegrama dizendo a explicação “não é particularmente crível”. Para ele, “a decisão do CONARE foi conduzida amplamente por forte pressão do alto escalão do governo brasileiro, e os representantes do governo no CONARE cederam a essa pressão”.

O embaixador aconselha que o governo americano ajude a Colômbia a montar um argumento “o mais forte e mais detalhado possível contra Cadena”: “Associar isso com quaisquer novas informações ou inteligência que os serviços do governo colombiano ou americano possam obter sobre a história de Cadena nas ações militares das Farc também seria útil”.

Outros telegramas referentes à Colômbia – incluindo a reação do governo brasileiro sobre o acordo militar que dá aos EUA acesso a bases militares naquele país – também odem ser vistos aqui.

Anúncios

7 Respostas para “Embaixada intercedeu pela extradição de mediador das Farc

  1. É uma grande fofoca. E a fofoca é uma porcaria. Os políticos são os melhores nisso ai, seguido dos empresários, da classe sindical, da escola, da familia, dos jornais, dos artistas (acho que os artistas ganham), do pessoal do clube, da turma do bar…

    E ninguém, destes citados, se envergonham disso ai não.

  2. Agora já se sabe as fontes da Veja

  3. Não entendo como as autoridades brasileiras permitem essas pressões dos americanos.

  4. Por que nao vao cuidar de seus proprios problemas internos, que nao sao poucos…nao precisamos de abelhudos. Get away!!!

  5. lúcio asfora

    Quem se dispuser a seguir o rastro desse Sobel vai se impressionar com a capacidade do homenzinho de expelir fogo por onde passa, como a raposa de cauda flamejante da Bíblia. Ele nunca está convencido da sinceridade de seus interlocutores brasileiros que divergem de suas idéias preconcebidas e carregadas de má-fé. É o diplomata clássico da Secretaria de Estado comandada pela dona Hillary, enviado aos países que não rezam pela cartilha dos Clinton e de seu lobby, com o único objetivo de intrigar. O camarada toma o tempo de um homem reconhecidamente ponderado e sério, o ex-ministro Barreto, que lhe transmite sua versão, e opta por dar crédito às suas próprias suspeitas, ou paranóias, na hora de se reportar aos superiores. Pior: com base nelas, e só neles, gestiona em favor da montagem de uma peça comprometedora contra Cadena (e, por tabela, contra o Brasil). O WikiLeaks, a cada dia, comprova que os EUA, sob qualquer Governo, rejeitam e vão continuar se empenhando em dificultar os movimentos do Brasil por uma política externa independente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s