Haiti: Como o Brasil se voltou contra Aristide

Marco Aurélio Garcia, assessor especial da presidência para assuntos internacionais do governo Lula – visto em geral como adversário pelos EUA – foi fundamental na posição firme do Brasil em apoiar o governo haitiano que sucedeu à queda de Jean-Bertrand Aristide.

Telegramas publicados hoje pelo WikiLeaks mostram que ele foi o principal articulador da determinação brasileira em evitar um retorno de Aristide ao país.
Garcia visitou o país em novembro de 2004, reunindo-se com políticos, religiosos, ativistas e representantes de organizações internacionais, que o fizeram mudar de ideia.

Ele teria viajado pensando que Aristide poderia ser um interlocutor político.

Segundo o seu assessor, Marcel Biato, que também esteve no país, Garcia voltou com a impressão de que Aristide  um “gângster”, envolvido em ilegalidades e que chegava até a “encomendar assassinatos pelo celular”, relata um telegrama enviado em 22 de novembro de 2004. Para ele, Aristide não deveria retornar à política haitiana “sob nenhuma circunstância”.

Biato teria afirmado que Aristide devia ser “exorcizado”, se possível por alguma forma de julgamento no país.  Para Biato,  “a grande questão estratégica é como criar uma esperança para o futuro entre os haitianos que não seja ligada a Aristide.”

Biato concluiu ainda que “a avaliação altamente negativa de Aristide está sendo ouvida por Lula e outras autoridades do alto escalão do governo”, o que seria levbado em conta na decisão sobre o envio de um emissário “informal”  do governo para encontrar Aristide na África do Sul, ond estava exilado.

A possibilidade estava sendo ventilada dentro do governo.

Mas Biato avalia que, pelo contrário, o governo brasileiro deveria ligar para o então presidente sul-africano, Thabo Mbeki, para “expressar preocupação sobre a aparente liberdade que Aristide goza ao incitar violência e provocações desde seu enclave na África do Sul”

Mantendo Aristide fora do país

Outro embaixador que expressou oposição forte à influência de Aristide foi Antônio Patriota, atual chanceler brasileiro.

Para ele, a “mera existência de Aristide será sempre problemática em termos da sua influência em alguns elementos da sociedade haitiana, por mais que a comunidade internacional trabalhe para isolá-lo”, descreve um documento de 10 de junho de 2005.

Ele disse ainda que era importante incluir no diálogo político integrantes do partido Lavalas, (ao qual pertencia o presidente deposto) que quisessem “deixar Aristide para trás”.

Em 19 de agosto de 2005, Celso Amorim  reclama ao embaixador Danilovich sobre as verbas americanas para projetos humanitários que deveriam se seguir aos ataques “robustos” da Minustah contra as gangs na capital do país.

Citando críticas de ONGs sobre o risco de “danos colaterais a civis inerentes a quaisquer operações deste tipo”, Amorim disse ser necessário “contrabalancear reações negativas com uma mensagem forte que focasse na assistência e estabilidade que a MINUSTAH e a comunidade internacional estão tentando trazer ao Haiti.

Ciclo vicioso

Em outra reunião, em 7 de fevereiro de 2007, com o representante político da embaixada Dennis Hearne, Amorim expressou  que o Brasil estava no Haiti como um “compromisso de longo termo”.

Ele tria afirmado que o Haiti tinha um novo governo, e por isso era imperativo para a comunidade internacional evitar o “ciclo vicioso” de não doar recursos a um governo que “não é perfeito”, levando a uma situação em que  “o governo e o país não poderão nunca melhorar a ponto de merecer receber doações”, diz um telegrama de 1 de março  daquele ano.

Como o Iraque

Em fevereiro de 2009, o então subsecretário para assuntos políticos do Itamaraty, embaixador Everton Vargas, disse ao ex-embaixador americano, Clifford Sobel, que o Haiti “está sempre na mente de Amorim”.

Para ele, era importante garantir uma sucessão pacífica do governo de René Perval, o presidente que assumiu após o golpe. “Não não podemos ficar lá para sempre”, teria dito, de acordo com um telegrama de 21 de fevereiro de 2009.

A semelhança entre a fala do embaixador brasileiro e a retórica americana com relação à ocupação do Iraque não foi notada por Sobel.

Mas  não deixou de ser notada por Marco Aurélio Garcia, em reunião com o representante político da embaixada Dennis Hearne em 9 de junho de 2005.

Perguntado se o governo brasileiro estava preocupado se mortes de soldados brasileiros poderiam gerar uma reação popular que afetaria a missão brasileira no Haiti, ele teria respondido que “até mesmo uma baixa brasileira” poderia causar turbulência.

“Garcia disse que a situação não é diferente da dos EUA no Iraque, e observou que o governo dos EUA não tem permitido a publicação de imagens de corpos de soldados mortos pela mídia”, diz o telegrama, de  10 de junho de 2005.

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