Um hacker que virou celebridade

Enquanto não sai a decisão do julgamento do fundador do WikiLeaks, que começou nesta segunda-feira 7, em Londres,  publicamos alguns trechos de sua biografia, disponível somente em inglês.

Desde novembro do ano passado, um novo universo de revelações veio à tona. Documentos secretos da diplomacia americana tornaram-se conhecidos do grande público de uma maneira nunca antes vista. Como uma bomba, os telegramas entre diplomatas do mundo inteiro com os Estados Unidos revelaram e envergonharam leitores e autores. Para outros, não tiveram nenhum efeito. Era o WikiLeaks cumprindo sua missão.

Um esboço do que seria o WikiLeaks surgiu ainda antes, mas quem maquinou tudo isso de maneira tão, aparentemente, bem montada? Todos sabem que foi o australiano Julian Assange, a nova celebridade dos tribunais. Há muito ainda a ser revelado sobre Assange, nenhum vazamento pessoal constrangedor ou que o homem não tenha resposta pronta ou uma justificativa razoável para suas atitudes. Afinal, ele já passou por poucas e boas. Ao menos é o que pretende o livro WikiLeaks: Inside Julian Assange’s War on Secrecy (WikiLeaks: Por dentro da guerra de Julian Assange sobre sigilo, numa tradução livre).  A obra ainda não chegou ao Brasil, mas já é vendido pela internet. O jornal The Guardian vem publicando alguns trechos que revelam um pouco da cabeça de um dos gênios contemporâneos da internet.

Assange foi um nerd cabeludo, hacker que teve nas suas costas 24 processos por crimes na internet. Teve seu perfil falso em sites de relacionamentos que deixariam qualquer pretendente no mínimo receosa e foi confundido com uma mulher, num momento de suposta perseguição. A parte mais intrigante de sua biografia ainda estava por começar. Foi quando decidiu vazar os 250 mil documentos da embaixada americana que tinha nas mãos. O possível abalo sobre as revelações o levou a enxergar a importância sobre o que tinha consigo e decidiu fazer uma distribuição geográfica mais eficaz dos telegramas. E em 2010, os vazamentos estouraram de vez para o mundo todo por meio de cinco importantes publicações internacionais.

Enquanto segue em julgamento nesta segunda-feira 7, no Tribunal de Magistrados de Belmarsh, no Sudeste de Londres, sobre o pedido de extradição para a Suécia, sob uma acusação de crimes sexuais contra duas mulheres cometidos em agosto de 2010, fique abaixo com alguns trechos da biografia sem previsão de lançamento no Brasil.

Vislumbrado na meia-luz de uma noite de Londres, a figura poderia se passar por feminina. Ela apareceu cautelosamente pela porta. Havia alguns companheiros – entre eles um homem de rosto triste com características nórdicas e um casal de jovens nerds. Um deles pareceu ter dado à velha mulher um casaco […] a mulher saiu do carro. Havia algo de estranho nela.

De perto, é óbvio que aquela figura era Julian Assange, seu cabelo cor de platina estava coberto por uma peruca. Com mais de 1,80 de altura, ele nunca seria uma mulher muito convincente. ‘Você não pode imaginar o quão ridículo era’, disse mais tarde James Ball, um jornalista freelancer do The Guardian. Ele andou vestido como mulher por mais de duas horas. Assange trocou de gênero numa tentativa de encenação para iludir possíveis perseguidores.

Num tempo incrivelmente curto, o WikiLeaks tinha disparado para fora de seu nicho de um obscuro e radical website para se tornar uma plataforma de notícias amplamente conhecida.”

O australiano incomum, em 2006, escreveu em seu perfil no OKCupid, um site de relacionamentos, usando o nome Harry Harrison. Ele tinha 36 anos e mais de 1,80  de altura, o teste on-line de seu perfil deu “87% cachorrão”. E colocou um aviso: quer um cara normal, pé no chão? Vai andando, eu sou perigoso, atenção!

Harry se descreveu como ‘envolvido com jornalismo internacional/livros, documentários, criptografia, atividades de inteligência, direitos civis, ativista político, crime do colarinho branco e internet’. ‘Uma cabeça de porco ativista e intelectual’. Ele estava procurando ‘uma mulher sedutora para um caso de amor, crianças e ocasional conspiração criminal’. Sua galeria de fotos mostrava um homem de pele branca, características fortes e um cabelo cinza prateado. Em algumas fotos com meio-sorriso, em outras olha direto para a câmera.

Harry Harrison era o pseudônimo, e a pessoa por trás da máscara era Julian Assange, um hacker que vivia numa república de estudantes em Melbourne, sonhando com um esquema de insurgência de informações que viria a se tornar o célebre – e execrado – no mundo inteiro como WikiLeaks.

Julian nasceu em 3 de julho de 1971 em Tonsville, no estado de Queensland, na Austrália sub-tropical ao norte. Sua mãe, Christine, era filha de Warren Hawkins, descrito pelos colegas como um rígido e tradicionalista acadêmico que veio a se tornar o diretor da faculdade.

Durante sua infância Assange passou por 37 diferentes escolas. ‘Muitas pessoas ficaram horrorizada e disseram: Coitado, você foi a todas essas escolas’, mas ele afirmou mais tarde que ‘na verdade eu realmente gostei’.

Quando Assange tinha 13 ou 14 anos, sua mãe alugou uma casa em frente a uma loja de eletrônicos. Assange começou a frequentar e a trabalhar em um Commodore 64. Sua mão guardou dinheiro para comprar um computador para seu filho mais velho de presente. Audoditada, Assange aprendeu códigos sozinho. E aos 16 anos teve seu primeiro modem.

Ele frequentou um programa para crianças superdotadas em Melbourne, onde adquiriu uma namorada ‘introvertida e com disturbio emocional’, como ele dizia. Assange cresceu interessado por ciências e vagueava por bibliotecas. Logo ele descobriu o hacking.

Até 1991 Assange era tido como o hacker mais talentoso da Austrália. Ele e outros dois parceiros fundaram a revista Subersivos Internacional que oferecia dicas de como invadir sistemas telefônicos e fazer ligações gratuitamente. A revista tinha um público de leitores restrito: apenas três, os próprios hackers.

Na primavera de 1991, os três hackers encontraram um novo excitante alvo: MILNET, um sistema de armazenamentos de dados com segredos dos militares dos Estados Unidos. Rapidamente, Assange descobriu a porta dos fundos. ‘Nós tivemos controle total sobre eles’, disse Assange mais tarde. Mas a polícia de Victoria estava prestes a invadir a sua casa.  Em 1996, ele se declarou culpado no Tribunal do Condado de Victoria, em Melbourne, por 24 crimes de hacking. A acusação descreveu Assange como ‘o mais ativo’ e ‘o mais hábil’ do grupo. Num determinado momento Assange aparece com flores para uma das advogadas de acusação. Nesse momento, o advogado de Assange apontou para ele e disse: ‘Assange, ela não quer namorar você, ela quer colocá-lo na prisão’.

O juiz disse que considerava as ofensas de Assange “muito graves”. Mas que não havia nenhuma evidência para sugerir que ele havia procurado ganho pessoal.  Mais do que um hacker mal intensionado, ele atuou fora “da curiosidade intelectual”, disse o juiz.

Assange havia elaborado em seu blog chamado IQ.org, uma teoria aparentemente fantasiosa para derrubar a injustiça do mundo: ‘Quanto mais secreta ou injusta uma organização é, mais os vazamento vão provocar medo e paranóia em seus líderes e confrades. Desde que seus sistemas injustos, por natureza, atice seus oponentes, os vazamentos em massa os deixa vulneráveis para aqueles que procuram formas mais abertas de governança.’

Foi no Quênia que o WikiLeaks deu o seu primeiro furo jornalístico. Um relatório maciço sobre a corrupção do ex-presidente Daniel Arap Moi foi encomendado pela empresa de investigação privada Koll. Mas seu sucessor, Mwai Kibaki, que encomendou o relatório, deixou de publicá-lo, alegando razões políticas. ‘Esse relatório foi o Santo Graal do jornalismo queniano’, diria Assange mais tarde. O relatório foi vazado para Mwalimu Mati, chefe do grupo Mars, um grupo anti-corrupção.

Neste outro trecho do livro, um pouco sobre como os primeiros vazamentos que tornaram o WikiLeaks mais conhecido, foram negociados com os jornais.

“No início de novembro, as três publicações [The Guardian, Der Spiegel e o The New York Times] decidiram que era hora de uma reunião com Assange. Tudo estava ameaçado a ficar confuso. O fundador do WikiLeaks agora queria os americanos fora do negócio. Seria uma punição de Assange ao New York Times que publicou um perfil sobre ele que o desagradou, escrito pelo correspondente em Londres, John F. Burns.

Durante reunião com os jornais, questionado sobre em quais condições ele colaboraria com os americanos, Assange disse que só iria considerar se o jornal concordasse em não publicar mais nenhum material negativo sobre ele e se lhe oferecesse um direito de resposta com igual destaque. Ficou decidido que Assange publicaria uma carta e que não havia previsões de uma nova publicação negativa sobre ele. Mas Assange reagiu furioso e disse que a decisão do jornal não era suficiente e que tanto o New York Times quando o The Guardian estariam fora do negócio. O Der Spiegel acabou também ficando de fora.

Era quase 1h30 da manhã e a discussão não tinha chegado a lugar algum. Assange estava convencido de que não iria revelar os documentos. Não naquela noite. No dia seguinte, Rusbridger enviou para o advogado de Assange, Mark Stephens, um memorando que definia a oferta de publicação em 29 de novembro, com exclusividade para os jornais parceiros, que hoje somam cinco, até uma semana após o Natal.

O lançamentos dos cableagtes da embaixada americana haviam sido coordenados cuidadosamente. O The Guardian, o The New York Times, o El País e o Le Monde estavam todos esperando ansiosamente para apertar o botão do maior vazamento do mundo. Todo mundo conhecia o roteiro. Mas os deuses da notícia resolveram fazer as coisas diferentes. Uma cópia do Der Spiegel daquela manhã foi descoberta por um editor-chefe da Raádio da Basileia numa estação. A capa era nada menos que sensacional e dizia “Revelação: Como a América vê o mundo… as expedições secretas do ministério das relações exteriores dos EUA”, num fundo vermelho com fotos de líderes mundiais.

“Nesse momento um usuário do Twitter chamado Freelancer_09 conseguiu as outras duas cópias do Der Spiegel que saíram do controle da distribuição. E aos poucos os executivos da sede da revista perceberam que uma das vans que levava o lote de Spiegel foi parar na Suíça 24 horas antes. Dentro de minutos, o Freelancer_09 começou a twittar o conteúdo da revista. Logo a notícia se espalhou e outros jornalistas começaram a retwittar.

Apesar do lançamento desconexo, as publicações dos cablegates se tornaram o maior vazamento desde 1971, quando Daniel Ellsberg deu os documentos do Pentágono para o New York Times, provocando um processo judicial histórico e revelou os segredos sujos da guerra do Vietnã.

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Uma resposta para “Um hacker que virou celebridade

  1. …fico muito satisfeito em saber que você Natalia Viana foi escolhida por Julian a ser mais um “link” importantíssimo na América Latina. Contudo, desejo que as notícias transcorram de maneira que os brasileiros mais “informados” possam lhe dar todo o apoio necessário. E que a verdade seja dita. Saudações. ALU-AmericaLatinaUnida.

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