WikiLeaks: Lula deixou “a faxina para outros” nos arquivos da ditadura

Por Felipe Corazza

Apesar dos esforços do ministro Nelson Jobim para “enterrar” o passado da ditadura militar brasileira, as feridas ainda estão abertas e atormentam o presente do país. Longe da esquerda, a constatação é da diplomacia dos Estados Unidos e está em um pacote de telegramas enviados da embaixada em Brasília para o Departamento de Estado em Washington.

Os documentos vazados pelo WikiLeaks começam a tratar do assunto em 2004, no quadragésimo aniversário do golpe que levou os militares ao poder. Os documentos registram, inclusive, que muitos brasileiros acreditam na participação direta do governo americano na derrubada de João Goulart – apesar de refutarem a tese com veemência sempre que a mencionam. “Embora seja cada vez mais distante, a era do regime militar ainda projeta algumas sombras sobre as relações Brasil-EUA”, diz o primeiro dos telegramas.

Os documentos dão muita atenção ao desconforto do governo Lula em relação à abertura dos arquivos da ditadura e a anulação da anistia a torturadores. “O presidente Lula não tem pressa de abrir os arquivos, dizendo aos chefes das Forças Armadas no dia 24 de outubro que ele aprova que os mantenham selados e pedindo aos oficiais que cooperem com o Comitê de Direitos Humanos se houvr audiências”, diz um dos trechos. A conclusão do telegrama é incisiva: “Lula parece disposto a passar a outras questões e deixar a faxina para outros”.

O embaixador Clifford Sobel comunica a seus superiores, ainda, que o Supremo Tribunal Federal é outro empecilho, em particular pela postura do então presidente, Gilmar Mendes: “Mendes advertiu que casos relativos aos governos militares foram uma fonte de ‘prolongada instabilidade’ em outros países”.

Outros trechos de telegramas são curiosos. O PMDB, por exemplo, é citado pela diplomacia americana como um “entulho” do período militar. As raízes no MDB – “a única agremiação de oposição permitida pela ditadura” -, a legenda é vista como um partido “que evoluiu para uma máquina de apoio que ainda hoje frustra os presidentes”.

Os americanos também parecem se divertir com o que enxergam nos escombros da ditadura brasileira: “A cultura, economia e vida política brasileiras ainda contêm muitas dessas ironias (por exemplo, a gigante da aviação Embraer, de propriedade privada, começou como uma sinecura paraestatal para ex-oficiais da Força Aérea em 1969)”. A Embraer deixou o período militar, profissionalizou-se e evoluiu. Os arquivos da ditadura, no entanto, seguem fechados.

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