As conversas com ACM e José Carlos Aleluia na Bahia

por Marcus V F Lacerda

Crítica e combate deram a tônica da conversa entre um representante da embaixada americana com os políticos baianos José Carlos Aleluia e o falecido Antônio Carlos Magalhães (ambos do PFL, atual DEM). Os encontros ocorreram em 12 de setembro de 2006 em Salvador e são descritos em um cable enviado a partir da embaixada americana em Brasília 9 dias depois.

O conselheiro político da embaixada americana foi recebido por José Carlos Aleluia em um café da manhã na casa do político. O baiano estava frustrado com a possibilidade iminente de Lula ganhar a eleição. No entanto, Aleluia acreditava que Alckmin poderia virar o jogo em um eventual 2º turno.

Para ele, o primeiro mandato do então presidente havia sido marcado por abuso de autoridade, política econômica pobre e corrupção arraigada. Dois dos maiores problemas eram o gasto público desenfreado e o baixo investimento do governo. Aleluia diz que Lula usou seu poder para comprar os tribunais, as universidades, a Polícia Federal e o Ministério Público. O político cita a criação de novas universidades e a incumbência estatal de custear acadêmicos em cargos vitalícios além de pensões às mulheres de pesquisadores como formas de Lula comprar a comunidade universitária. “A folha de pagamento pública está inchada!”, Aleluia alerta o representante americano e diz que “o Brasil virou um país de concursos”. O carlista citou as diversas vagas para juízes abertas em inúmeros concursos com salários iniciais de 18 mil (reconhecido no telegrama como um valor alto para os padrões brasileiros).

Além destes jovens magistrados, Aleluia ainda reclamou da maioria do Superior Tribunal Federal ter sido apontada por Lula. Para ele, se a suprema corte tivesse que decidir alguma questão referente à eleição, a balança penderia para o lado do petista. Além do Poder Judiciário, Aleluia também apregoava que Lula manipulava a Polícia Federal. A prova para o político constitui-se nos seguidos escândalos que apareciam e que não haviam sido detectados pela PF ou não eram levados para frente por falta de provas.

Se os concursos favoreciam uma camada da população, o Bolsa Família por outro lado era o programa estandarte de Lula. Aleluia alegou que houve um uso político da iniciativa que no começo do mandato de Lula atendia a 5 milhões de famílias brasileiras. Segundo ele, o número de domicílios beneficiados havia saltado para 11 milhões (fato confirmado pelo telegrama com base em estatísticas do governo brasileiro). Ele ainda afirma que o programa encorajava as pessoas a não procurarem trabalho e viverem na dependência do auxílio público.

O telegrama nota que as críticas de Aleluia quanto ao baixo investimento público do Governo de Lula resumiam-se apenas à falta de novas estradas. O político baiano ainda criticou os juros altos, o baixo crescimento econômico e a taxa cambial desfavorável que atingia a agricultura do sul do país. Para Aleluia, a balança comercial apresentava-se em bom estado, mas tinha o que ser melhorado.

Um fenômeno eleitoral foi previsto por José Carlos Aleluia durante a conversa. Segundo ele, mesmo que 80% dos mais pobres do Nordeste votassem em Lula, pelo menos 10% desses votos se perderiam. Aleluia acreditava que os menos “sofisticados” entre os mais humildes teriam dificuldades com a ordem de votação durante o pleito e desistiriam de votar antes de chegar ao voto para presidente, que era o último da sequência. A eleição para Aleluia representava a decisão para o Brasil tomar a mesma direção da Bolívia ou do Chile. “Se Lula for eleito vamos para o lado da Bolívia”, sentenciou Aleluia.

Cacique e senhor da guerra – Antônio Carlos Magalhães foi encontrado no mesmo dia. A conversa foi em seu escritório e contou na companhia do agente consular de Salvador. De início, ACM já disse que caso Lula ganhasse a eleição tentaria montar um governo de reconciliação e falharia nesse esforço. Antônio Carlos Magalhães esperava que Lula escolhesse 2 ou 3 nomes fora das fileiras petistas e partidos aliados. Citou como exemplos os ex-ministros da Justiça Nelson Jobim e Marcio Thomaz Bastos.

O grande chefe da política baiana calculava que a oposição teria a maioria do Senado, incluindo dois ou três membros do PMDB como o pernambucano Jarbas Vasconcelos. Quando perguntado sobre quem mais do PMDB estaria na oposição, ACM disse que ainda não era possível saber.O cacique ainda previu o impacto da Cláusula de Barreira que exigia que os partidos tenham pelo menos 5% dos votos no país e 2% em nove estados para terem funcionamento parlamentar pleno e passaria a vigorar aquele ano. Segundo Magalhães, apenas cerca de seis partidos sobrariam depois das eleições de 2006.

ACM comentou que o PFL e o PSDB não eram legendas de direita e de centro-esquerda, mas sim partidos de centro. Quando perguntado sobre a possibilidade de PSDB e PT se unirem em um futuro distante, o cacique baiano respondeu que isso não aconteceria por duas razões: por serem partidos competidores e por Fernando Henrique Cardoso não permitir.

Para Antônio Carlos Magalhães, Lula sabia de toda a corrupção que ocorria em seu governo. “A oposição pode ter perdido uma oportunidade de impeachmar Lula em seu primeiro mandato, mas tentará de novo no segundo”, declarou ACM para quem Lula cometeu crimes dignos de um processo de impeachment e com evidências suficientes para a tentativa ser levada para frente. Sobre os novos rumos da campanha de Alckmin que estava então tocando na questão da corrupção no governo de Lula, Magalhães disse que já havia falado a Alckmin que atacasse por este lado. Apesar da demora do tucano em tomar esta atitude, ACM concordava que algum efeito já podia ser notado.

O baiano disse que apesar da maioria do público se preocupar com a corrupção, os mais pobres achavam que “Lula é amigo deles e todos os políticos roubam”. Para ACM, Lula não foi diretamente envolvido nos escândalos de seu governo porque o MP seria submetido ao poder político de Lula através do ministro, que deve lealdade ao presidente. Magalhães acusou o então presidente Lula de ter “comprado um monte de gente”, incluindo ONG’s que então ACM julgava “todas corruptas”.

Para os americanos, as atitudes pessimistas e combativas perante o PT e o Presidente Lula estavam de acordo com as previsões de dificuldade nas relações entre os poderes Executivo e Legislativo que eles já haviam ouvido de ao menos um político e de alguns jornalistas no Nordeste. Os diplomatas constataram que, se as atitudes de Aleluia e ACM fossem típicas do PFL, então Lula teria dificuldades com o Senado em um possível segundo mandato já que a oposição poderia constituir a maioria dos senadores. “Neste caso, o progresso político, apesar dos melhores esforços de Lula, estariam sujeitos a algum grau de entrave”, diagnosticou o diplomata Philip T. Chicola que assina a mensagem. O Chargé d’Affaires interino reconheceu que a influência de ACM entre seus colegas era menor do que antes do escândalo do painel do Senado em 2001. “Se outros irão entrar neste quadro de hostilidade aberta, ainda há de ser visto”, considerou Chicola.

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4 Respostas para “As conversas com ACM e José Carlos Aleluia na Bahia

  1. Que vem a ser “grande chefe da política baiana”…? Quando a política de fato se instalou, com alguma democracia, o poder politico de ACM mingou. Ele era o representante da ditadura militar na Bahia, isso sim. E por isso recebeu o Estado de mão beijada, governador e prefeito não eleito, nomeado pela cúpula militar. Do mesmo modo foi ministro das comunicações, ocasião em que se apropriou da repetidora de TV da rede globo no Estado. Por fim, junto com Arruda, o mesmo do recente escândalo do distrito federal, violou o painel eletrônico do senado federal. Que há de política aí?

  2. ACM está morto , felizmente.

  3. O entreguismo realmente não tem limites!

  4. Paulo Padilha

    nossa, almoçando com ACM para entender a situação politica do Brasil! Assim fica facil entender porque o Departamento de Estado do Obama ta tão por fora das coisas no mundo arabe, com certeza eles só faziam um almocinho com o Gadaffi ou o Mubarak pra saber como as coisas andavam por lá…

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