Eleições 2006: Oposição manteve maior contato com diplomatas

Por Marcus V F Lacerda

Dentre os políticos brasileiros que tiveram contato com os diplomatas dos EUA, os do PSDB são os mais assíduos com 6 tucanos aparecendo em encontros. Além dos secretários paulistas Andrea Matarazzo (06SAOPAULO676) e Fernando Braga (06SAOPAULO935), estão figuras ilustres entre Tasso Jereissati (06BRASILIA1837), Aloysio Nunes (06SAOPAULO400), Sérgio Guerra (06SAOPAULO1963) e o então recém-eleito governador de São Paulo, José Serra com o próprio embaixador americano Clifford Sobel (06SAOPAULO1131).

O único pessedebista que aparece mais de uma vez nos telegramas é o secretário de Ciência e Tecnologia e seu coordenador de campanha, João Carlos Meirelles. Entre março e outubro de 2006, Meirelles estabeleceu 4 contatos com diplomatas americanos (06SAOPAULO316, 06SAOPAULO647, 06SAOPAULO810, 06SAOPAULO1069).

Além dos políticos do PSDB, foram também contatados pelos americanos nomes ligados ao partido como o tributarista Raul Velloso (06BRASILIA608), um dos acadêmicos da área econômica com quem Alckmin buscava conselhos. Outro nome ligado ao partido tucano é o de Christian Lohbauer (06SAOPAULO387) que foi secretário-adjunto de Relações Internacionais de Serra e na época do encontro foi identificado como lobista do setor aviário.

A decisão do partido entre Serra e Alckmin é analisada pelos americanos em um telegrama. A suspeita de uso de dinheiro público no financiamento da campanha de Alckmin que gerou o escândalo da Nossa Caixa também é mencionado pelos americanos (06SAOPAULO350) que se mostraram confusos com as acusações.

“De qualquer forma, dada à reputação ilibada de Alckmin, seria estranho para ele ter que se desviar com uma desculpa do tipo ‘todo mundo faz isso’”, observam os americanos.

O programa do candidato tucano é detalhadamente descrito em telegrama de 3 de julho de 2006 (06SAOPAULO734). Nos comentários, o observador político do consulado americano de São Paulo cita uma de suas fontes (esta não-identificada).

“O problema de Alckmin é que, como um médico de interior, ele não sabe pensar grande”. A alusão à indisposição de alguns membros do partido do candidato vai mais longe em uma comparação. “Além disso, como anestesiologista, ele sabe como preparar o paciente para a cirurgia, mas está acostumado então a sentar-se e deixar alguém fazer o trabalho duro enquanto ele se satisfaz checando os sinais vitais”, cita o telegrama.

FHC e as esquerdas na América Latina – Diplomatas americanos ainda estiveram no seminário “A política externa brasileira para a América do Sul no período recente: balanço e perspectivas”, realizado no Instituto Fernando Henrique Cardoso (06SAOPAULO516).  O evento contou com a presença do ex-ministro de FHC Sérgio Amaral, o ex-embaixador brasileiro nos EUA, Rubens Barbosa e o economista da PUC-RJ, Marcelo Paiva de Abreu.

O encontro, mediado pelo ex-presidente que dá nome à instituição, criticou a proximidade que Lula vinha mantendo com os vizinhos esquerdistas. Para os interlocutores, havia uma “esquerda positiva” na América do Sul identificada pelo Chile de Michéle Bachelet, e uma “esquerda negativa” constituída pelo boliviano Morales, o argentino Néstor Kirchner e o venezuelano Hugo Chávez. “As visões expressadas no painel não estão fora da perspectiva vigente da elite do Brasil”, comenta o telegrama.

Kassab – Outro partido da oposição que teve encontros com diplomatas americanos foi o atual DEM, com quatro políticos participando de reuniões. Além dos já mencionados Cláudio Lembo, José Carlos Aleluia e o falecido Antônio Carlos Magalhães, o então vice-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (06SAOPAULO102).

No encontro reportado no telegrama de 1 de fevereiro de 2006, Kassab, que atualmente negocia uma saída do DEM com partidos aliados do governo, via a aliança entre PFL e PSDB na disputa eleitoral como sendo “natural e legítima” e acreditava que o nome de Jorge Bonhausen seria o mais apropriado para ser vice na chapa da oposição. Para ele, Serra era o melhor candidato que o PSDB poderia lançar. O cable observa que algumas de suas fontes sugeriam que Kassab não tinha experiência para governar São Paulo. No entanto, notam sua importância dentro do PFL àquela época.

“Enquanto Kassab mantém-se discreto, ele é um homem hábil dentro de seu partido e muito próximo de Bonhausen”.

Vitória tucana no RS – Tratando ainda sobre o principal partido da oposição, há um telegrama que sai da esfera da disputa presidencial e foca a vitória de Yeda Crusius no Rio Grande do Sul (06SAOPAULO1105) sobre o candidato do PMDB, Germano Rigotto.

Os americanos se mostram surpresos tanto com o fato da vitória da tucana, quanto pela expressiva quantidade de votos a Alckmin no estado. Lula teve 1,5 milhão de votos a menos que Alckmin em um estado no qual ele sempre teve a preferência entre os eleitores. Para os diplomatas, esta foi uma reação aos escândalos envolvendo o PT no primeiro mandato de Lula.

Garotinho – um telegrama (05RIODEJANEIRO1118) de 10 de junho analisa as perspectivas de Anthony Garotinho, pré-candidato presidencial: “Garotinho: a caminho da presidência ou um exilado da política?”. Para o cônsul  no Rio, se ele sobrevivesse ao escrutínio da justiça eleitoral, ele seria uma força política determinante. “E se a economia piorar, ou se os escândalos chegarema  Lula, ele pode vir a ser o mais bem colocado nas eleições”, escreve.

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8 Respostas para “Eleições 2006: Oposição manteve maior contato com diplomatas

  1. TULIO SIMOES MARTINS PADILHA

    Meus parabéns pelo artigo. Esse é praticamente o primeiro e ÚNICO artigo que li, desde os primeiros vazamentos do Wikileaks, que cita as fontes. Tudo o que li até agora apenas diz algo do tipo “em telegrama de 2006, fulano encontrou com beltrano”. Tenho visto até mesmo os mais elogiados jornalistas cometer essa tremenda gafe. Como leitor acho um desrespeito, pois esses telegramas vazados são muito bem organizados e categorizados, além do que seu inteiro teor está sendo disponibilizado pelo portal do Wikileaks, o que me leva a concluir que não custa nada, além de ser de bom alvitre, colocar um link para consulta do mesmo, quando não for possível transcrever o mesmo abaixo das matérias.

  2. eles tem que continuar tentando vender o Brasil, e prestar contas da derrota. kkkkkk

  3. Tá vendo Natália, enquanto vc está publicando docs. tratando de encontros de diplomatas americanos com “líderes” da oposição, Carta Maior está retransmitindo notícias sobre o pensamento dos mesmos americanos sobre o Mercosul. Assim, enquanto lemos no seu site notícias de pouca importância, outros estão cumprindo o papel que deveria ser seu – estão noticiando e tratando de questões realmente importantes. Ou estão te boicotando, ou vc está perdendo a oportunidade do cavalo arreado.
    Possivelmente ainda há tempo para recuperar-se. Por favor, melhore.

  4. Fico estarrecido com o grau de subserviencia da maioria dos politicos
    brasileiros, perante os Estados Unidos. Eu chamaria isto de traição a pátria.
    Abs

  5. reinaldo bordon carletti

    reputacão ilibada do chuchu ? vamos lá: a filha cuidava do comercio internacional da daslu(contrabando), o cunhado, ladrão de merenda escolar,que até agora o assunto morreu,e mais da familia da 1a.dama um arsenal de bandidagem! ilibada? aonde joão?
    reinaldo carletti

  6. giovani montagner

    só uma correção, o candidato do pt no rio grande do sul para a eleição de 2006 foi olivio dutra. germano rigotto foi candidato pelo pmdb.

  7. Só uma correção. Germano Rigotto era governador do RS pelo PMDB (não pelo PT) e concorria à reeleição. O candidato do PT era Olívio Dutra, que disputou o segundo turno com Yeda.

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