Afinal, quem são esses embaixadores?

Finalmente consegui fazer uma reportagem que queria há muito tempo:  um perfil dos embaixadores que assinam os telegramas do WikiLeaks e de como funciona a diplomacia americana. Uma reportagem de fundo, mais que necessária para quem se interessa por ler os documentos. Fiz a reportagem em parceria com a excelente Marina Amaral. Abaixo, a íntegra do texto.

O Brasil do embaixador Clifford Sobel é o sonho de qualquer empresário americano. Se vai à Bahia é recebido por baianas em roupas típicas e termina o dia tomando champagne na casa de Nizan Guanaes. No Sergipe é condecorado com a ordem de Aperipê e deixa-se fotografar dançando e tocando pandeiro ao lado do governador Marcelo Déda. Coleciona histórias de pescarias no Pantanal e aventuras na Amazônia para contar nas rodas de negócios em Belo Horizonte. Sente-se “em casa” em São Paulo, “lembra Nova York”, onde o embaixador faz palestras e reuniões e janta no Fasano. A mulher, Barbara, “loves the Carnival”, passados em camarotes oficiais no Recife, Salvador e no “lindo Rio”, como diz Sobel à revista Caras. Nos 9 primeiros meses de Brasil, conta à revista, o casal visitou onze Estados brasileiros e abrilhantou tantas festas que o colunista Ancelmo Góis chegou a inventar uma expressão para se referir a eles: Party Rice, ou arroz de festa.

Na casa do embaixador em Brasília, que Clifford ocupou entre 2006 e 2009, os convidados se encantam com a elegância agradável das recepções e cerimônias, e Sobel marca jantares e reuniões sigilosas com as fontes cultivadas na animada vida social. O senador Heráclito Fortes (DEM-Piauí), por exemplo, estivera com ele no camarote do governador Sérgio Cabral, no Rio de Janeiro, durante o carnaval. Meses depois, tomou a iniciativa de lhe telefonar na manhã daquele 5 de novembro de 2007 para pedir uma reunião “urgente” sobre um assunto que ele “não podia discutir por telefone”.

Ao embaixador e seu assessor militar, o presidente da Comissão de Relações Internacionais e Defesa do Senado disse que havia uma conspiração entre Irã, Rússia e Venezuela para disseminar ideologia antiamericana e armar os governos e movimentos “populistas” da América do Sul em território brasileiro. E instou para que os Estados Unidos reagissem, sugerindo uma parceria com as indústrias de armas do Brasil e da Argentina para “não atrair publicidade ligando o governo americano ao incremento da venda de armas”.

Em novo encontro, este no dia 28 de março de 2008, o senador o alertou sobre uma guerrilha similar às Farc que estaria atuando em Rondônia, a Liga dos Camponeses Pobres (LCP), “com acesso à tecnologia russa ou iraniana”, e falou sobre uma insólita infiltração terrorista estrangeira através da ONG Cepac, ligada, segundo ele, a uma “facção trotskista do PT”, que estaria atuando no seu Estado, o Piauí.

“Fortes, mais do que a maioria, está prestando atenção ao que considera ameaças emergentes dentro e fora do Brasil. Suas preocupações sobre a LCP e a Cepac parecem válidas, com base nas informações de que ele dispõe, mas nós não temos informações suficientes para avaliar a acuidade e a seriedade da situação”, escreveu Sobel a Washington.

A frase vem de apenas um dos 250 mil documentos diplomáticos vazados pelo WikiLeaks. Quase 3 mil se referem ao Brasil – 63 despachos do departamento do Estado e 2919 telegramas enviados entre 2002 e 2010 (1947 provenientes da embaixada em Brasília e 909 dos consulados de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife). Entre esses documentos, apenas cerca de 1/5 são classificados – 468 são confidenciais e 73, secretos

Comentários picantes
Divertidos, absurdos, curiosos, e até sofisticados na visão de alguns especialistas, os telegramas constroem uma narrativa dos bastidores das relações bilaterais durante todo o governo Lula, do ponto de vista dos representantes americanos. Parte dos relatos de campo ou relatórios internos – como são chamados pelos diplomatas – surpreenderam pela superficialidade, baseados em fofocas, fontes duvidosas e análises acríticas do material publicado pela imprensa brasileira.

“Os americanos são informais, é o estilo deles, mas essa troca mais ou menos franca de informações faz parte do cotidiano diplomático de muitos países. O objetivo é transmitir as percepções do embaixador e de outros funcionários graduados aos que traçam a política externa em Washington”, explica o ex-ministro e ex-embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Rubens Ricúpero.

Por isso, é difícil determinar o peso desses telegramas nas decisões tomadas pelo Departamento do Estado, Casa Branca e Senado, os órgãos que comandam oficialmente a política externa americana. Para alguns especialistas, o valor dos relatórios varia conforme a credibilidade e a influência do embaixador. Outros, como o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Mattar Nasser, defendem a tese de que os papéis têm “tão pouca importância quanto os embaixadores”.

“O Senado mantém seu poder na política externa, mas o Pentágono e o sistema de segurança nacional ocupam um espaço cada vez maior nas decisões. Agora, o Pentágono destina verbas para a reconstrução das nações e faz operações de ajuda humanitária, que encobrem ações militares. Tem verbas do Pentágono até para cuidar de Aids na África”, explica Nasser.

Já o pesquisador Robert Naiman, do instituto americano Just Foreign Policy, acredita que o papel dos embaixadores continua a ser “importantíssimo” para dizer a Washington “qual a verdade, qual a mentira sobre o que está acontecendo no país em que estão”. Mas, constata o pesquisador, nem sempre os relatórios são levados em conta, como mostram os documentos do WikiLeaks: “Um mês depois do golpe de 2009, em Honduras, o embaixador dos EUA, que é bastante experiente, escreveu um telegrama avaliando que o golpe fora absolutamente ilegal. O que se viu foi que a política adotada pelos EUA diferiu dramaticamente do que o embaixador disse”, afirma. Outro telegrama destacado pelo pesquisador pela “flagrante discrepância” com a política oficial foi enviado em maio de 2009, pela embaixadora do Paquistão Anne W. Patterson. Nele, Ann afirma que a estratégia americana de aumentar a ajuda econômica não vai deter a expansão do Talibã. “Esse conselho jamais foi implementado”, diz Naiman.

Não-diplomatas
Para os especialistas, o papel do embaixador perde seu peso porque dos governos americanos costumam oferecer a embaixada como um “presente” aos aliados políticos. No caso dos Estados Unidos, quase sempre esses aliados são importantes fundraisers (ou levantadores de fundos) das campanhas presidenciais. Entre os 370 embaixadores nomeados por Bush em 2006, 133 eram não-diplomatas, com parco conhecimento dos países para onde foram enviados.

“Eles (o governo americano) preferem alguém que possa pegar um telefone e ligar direto para a Casa Branca, é o sistema deles”, observa um alto diplomata do Itamaraty.

O cientista político americano Riordan Roett, autor do livro The New Brazil, lançado pela Brookings Institution Press, critica a atuação dos não-diplomatas: “Eles não levam tão a sério seu papel como profissionais. Washington sabe que vão ficar por 2 anos na carreira e depois vão embora. O que ganham é uma espécie de honraria, serem chamados de ‘embaixador’ por toda a vida. Então, são do tipo que vivem em festas e casas noturnas”, diz.

“Quarenta por cento só estão ali porque contribuíram para levantar fundos – 400 mil dólares compram um tíquete de embaixador, e os indicados políticos defendem sempre o que é melhor para o governo que os colocou lá”, completa a ex-embaixadora Ann Wright, que renunciou à carreira depois da invasão do Iraque para não ter que defender a política externa de seu país. Para a ex-diplomata, o pior é que esses embaixadores servem ao governo e não ao Estado. “Muitos não conhecem bem o país e estão apenas para implementar o que forem mandados”.

Ann, que deixou a carreira diplomática depois de 16 anos de serviço, afirma que a maioria são homens de negócios. “Seu principal objetivo é expandir seus interesses econômicos em países específicos. Muitos voltam aos países depois, porque já conheceram todo mundo – é muito benéfico financeiramente para eles”.

O amigo americano
Clifford Sobel, empresário experiente no setor financeiro e pioneiro em telefonia por internet é fundraiser do partido republicano. Ele e a mulher, Barbara, figuram entre os 241 Bush Pioneers em 2000, e entre os 221 Bush Rangers em 2004 – ou seja, levantaram pelo menos 100 mil dólares para a campanha presidencial de 2000 (pioneer), e acima de 200 mil dólares para a campanha de 2004 (ranger). A Family Sobel Foundation, dirigida por Barbara, também doou 81 mil dólares aos candidatos republicanos em 2004. Como pioneer, Sobel recebeu a embaixada da Holanda, onde ficou até 2005. Na categoria ranger em 2004, o prêmio foi Brasil, que além de “paraíso tropical”, é o segundo maior parceiro comercial dos Estados Unidos.

Quando chegou por aqui, em agosto de 2006, não sabia quase nada do país – nem entendia o português. Seus primeiros despachos mostram desconfiança a respeito de um suposto “populismo” do governo brasileiro e à sua política externa. Em 30 de outubro de 2006, comenta com ceticismo um encontro com a equipe de Lula após a reeleição: “Nossos interlocutores estavam com o espírito elevado, generosos com o mundo, incluindo os Estados Unidos. Mas sem uma mudança no alto escalão do Ministério das Relações Exteriores, ficamos em dúvida sobre a viabilidade de uma guinada das prioridades sul-sul do primeiro mandato de Lula em direção aos Estados Unidos e ao mundo desenvolvido”.

Sobel nunca conseguiu se entender muito bem com o Itamaraty, mas manteve contatos próximos com o ministro da Defesa Nelson Jobim, que considerava “o homem mais confiável do governo”, e o general Armando Félix, do gabinete de Segurança Institucional. Talvez por isso, um de seus relatórios mais “precisos”, na opinião do ex-embaixador Ricúpero seja o que avalia o Plano Nacional de Defesa do governo: “Amigos meus, que trabalham na área da defesa, disseram-me que esse telegrama foi altamente apreciado, com análise de grande competência e opiniões sensatas, apesar de terem se irritado com bobagens como chamar o submarino nuclear de ‘baleia branca’”.

Mesmo assim, Sobel saiu sem conseguir convencer o “amigo” Jobim a optar pelos caças americanos na disputa com franceses e suecos. Também falhou na missão de levar o Brasil à Associação de Livre Comércio das Américas (Alca), mas foi mais bem-sucedido quando deixou de lado os negócios governamentais e se concentrou em “estreitar as relações entre as empresas brasileiras e americanas”, como registrou um perfil sobre ele publicado na revista Exame, em fevereiro de 2008, com o título: “O amigo americano”.

Isso porque, na embaixada, ele acompanhou de perto os dois setores que lhe pareciam os mais promissores do país: etanol e telecomunicações. Empenhou-se para fechar um acordo entre a Santelisa Vale (fusão das usinas Santa Elisa e Vale do Rosário e de mais três empresas paulistas) e a americana Dow Chemical, comparecendo em caráter oficial à cerimônia de assinatura de um acordo comercial, em julho de 2007, que previa a produção de 350 mil toneladas de polietileno com tecnologia da companhia americana (o negócio foi interrompido na crise econômica de 2009). Também se interessou pelo processo que levou ao fechamento do maior negócio de telecomunicações realizado no país desde as privatizações: a compra da Brasil Telecom pela Oi por 4,85 bilhões de reais, arquitetada pela Angra Partners, que representava os fundos de pensão na Brasil Telecom, e que também comandou o processo de fusão da Santelisa Vale.

Com a vitória de Barack Obama – o candidato republicano à presidência novamente havia recebido recursos do casal Sobel – ele deixou a embaixada. Em julho de 2009, depois de muitas festas de despedida, ele saiu oficialmente do cargo, mas continuou a aparecer em companhia de sua elegante Barbara nas colunas sociais. Em agosto de 2010, por exemplo, ela organizou mais uma vez o concorrido jantar de sua Associação Américas Amigas, no hotel Hyatt, em São Paulo, para arrecadar fundos para ONG que fundou, com o objetivo de doar mamógrafos. No final do ano passado, instalaram-se definitivamente no país e, sem muito alarde, Sobel associou-se à Angra Partners, um negócio pra lá de promissor. A empresa se nega a confirmar.

Mas, procurada por CartaCapital, Barbara desfez as dúvidas neste simpático e-mail: “Decidimos continuar morando no Brasil por causa de nossos fortes vínculos com a cultura e o povo brasileiro. O embaixador Sobel se tornou sócio de um private equity group chamado Angra Partners e eu continuo à frente da Associação Américas Amigas. Escolhemos comprar um apartamento em São Paulo porque é o principal centro de negócios do país, onde estão as sedes da Angra Partners e da Américas Amigas. Estamos aqui para ficar!”.

Dilma, assaltante
O embaixador que antecedeu Sobel, o empresário republicano John Danilovich, também teve final feliz depois de servir no Brasil. Danilovich é aquele que ficou famoso por ter afirmado, em um telegrama a Washington em 22 de junho de 2005, que a atual presidenta Dilma Rousseff havia organizado três assaltos a banco e cofundado a Vanguarda Armada Revolucionária de Palmares – um erro profissional que se tornou gafe internacional depois de vazado pelo WikiLeaks.

Empresário da marinha mercante, Danilovich mantém uma relação de longa data com a família Bush. Em Londres, onde cursou mestrado e viveu durante muitos anos, organizou o apoio republicano para a eleição de Bush, o pai. Foi nomeado, durante seu governo, para o Comitê Diretor do Canal do Panamá, e dirigiu a comissão que tratou da devolução do canal, em 1999. No ano seguinte, Danilovich, importante doador da campanha de George W. Bush, foi nomeado para embaixada da Costa Rica. Em 2004, substituiu a diplomata Donna Hrinak na embaixada brasileira, onde ficou até o final de 2005.

Durante sua rápida atuação no Brasil, empenhou-se em costurar uma aliança anti-Chávez no continente, a ponto de tentar convencer o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, a ajudar a espionar o vizinho, propondo “um acordo de compartilhamento de inteligência”, como revelou um telegrama de 15 de março de 2005. Amorim, é claro, respondeu com irritação: “Não vemos Chávez como uma ameaça”.

Danilovich não desistiu. Ao Estado de S. Paulo afirmou que Chávez estava financiando a campanha Evo Morales, então na oposição, à presidência da Bolívia. Um telegrama mostra que ele voltou à carga em reunião com o General Jorge Armando Félix, no dia 4 de maio de 2005. Disse que Chávez estava “prejudicando os esforços do Brasil em ter um papel de liderança política e econômica na América do Sul”. Félix respondeu que divergia da posição do governo, mas preferia seguir a linha oficial.

Um ano depois da segunda eleição de Bush, Danilovich deixou o Brasil para assumir a liderança de uma corporação tão milionária quanto nebulosa: tornou-se CEO da Millenium Challenge Corporation, agência “independente”, ligada e financiada pelo governo americano. No período em que esteve à sua frente, entre novembro de 2005 e janeiro de 2009, ele gerenciou 6,3 bilhões de dólares de fundos aprovados pelo Congresso Americano. A missão oficial da MCC, segundo seu site, é fornecer assistência econômica a países pobres que se comprometem a seguir a cartilha neoliberal: governar com justiça, manter uma política fiscal responsável, incentivar os negócios.

Em 2008, por exemplo, o MCC bloqueou ajuda para projetos da Nicarágua em retaliação a suspeitas de fraude eleitoral por parte do governo sandinista de Daniel Ortega. Mas, em 2009, a corporação continuou a mandar ajuda para Honduras, mesmo depois do golpe que tirou Manuel Zelaya do poder, em 28 de junho.

Profissionais do ramo
Menos constantes nos telegramas vazados pelo WikiLeaks, os dois diplomatas de carreira do período Lula destacaram-se pelos bons resultados em prol das relações bilaterais. Thomas Shannon, o atual embaixador, escolhido por Obama, teve forte atuação em favor do Brasil para superar a crise provocada pela aproximação com o Irã, nos últimos dois anos. Já a diplomata Donna Hrinak, que ficou no cargo entre 2002 e 2004, teve papel fundamental para aproximar os dois países em um momento em que o governo Bush acompanhava com apreensão a chegada do operário “vermelho” à presidência do Brasil.

Filha de um metalúrgico de Pittsburgh, Hrinak havia sido vice-cônsul em São Paulo na década de 1980, e acompanhou com entusiasmo as greves do ABC paulista sob a ditadura militar. Quando voltou ao país, em abril de 2002, era fluente em português e tinha quase 30 anos de serviço diplomático – foi embaixadora na Bolívia, na Venezuela e na República Dominicana. Na recepção, um jornalista perguntou o que ela achava de Lula: “Não temos medo de Lula. Ele encarna o sonho americano”.

Durante a campanha presidencial, a embaixadora reuniu-se com Lula e com o homem escolhido pelo PT para azeitar as relações com os americanos: José Dirceu, conhecido de Hrinak desde a década de 80. Enquanto Dirceu visitava a Casa Branca e o Senado americano, em julho de 2002, levando uma cópia traduzida da “Carta ao Povo Brasileiro”, ela enviava a Washington telegramas garantindo que, se o PT vencesse, não haveria calote na dívida externa.

As vésperas do segundo turno, Hrinak e o então embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa – instruído pelo próprio Fernando Henrique Cardoso – empenharam-se em articular uma ligação telefônica de Bush, caso Lula fosse eleito. Bush ligaria caso Serra ganhasse, mas uma ligação para Lula seria um forte sinal de apoio, declararia depois a diplomata. A ligação veio poucas horas depois do resultado. “Parabéns pela grande vitória… O senhor conduziu uma campanha fantástica”, dizia Bush ao telefone.

O primeiro e único telegrama de 2002 na série vazada pelo WikiLeaks relata a primeira visita oficial de um representante do governo americano ao Brasil depois da eleição de Lula. O subsecretário de estado americano Otto Reich descreve o encontro com José Dirceu, Antonio Palocci e Aloizio Mercadante como “caloroso e produtivo” e conta que  Lula, “animado, elegante e descansado”, disse, logo de cara, que queria ter uma boa relação com Bush: “Acho que dois políticos como nós vamos nos entender quando nos encontrarmos frente a frente”. No final do encontro, Reich foi taxativo: “Nós não temos medo do PT e da sua agenda social”.

Donna havia ganhado a parada. Em dezembro daquele ano, o presidente americano receberia Lula na Casa Branca, antes mesmo da posse.

O cientista político Riordan Roett não tem dúvidas da importância pessoal da ex-embaixadora para costurar as relações bilaterais. “Ela era muito popular entre os políticos de Brasília, tinha acesso ao governo e à oposição, falava português e entendia a dinâmica brasileira”.

Ao se aposentar em 2004, Donna saiu do país com um namorado brasileiro, algumas plásticas no rosto e o bordão de que “o Brasil não é antiamericano” – que Shannon teria de repetir à exaustão cinco anos depois.

Itamaraty, o adversário
Nomeado por Obama em 28 de maio de 2009, Thomas Shannon só chegou ao país em janeiro de 2010 devido à oposição a seu nome no Senado. O republicano Charles Grassley, do estado produtor de etanol Yowa, atrasou a confirmação por Shannon defender o fim da tarifa de US$ 0,54 sobre o etanol brasileiro exportado pelos EUA.

Outros dois senadores republicanos o vetaram por sua atuação durante o golpe de Honduras. Como subsecretário do Departamento de Estado para o Hemisfério Ocidental entre 2005 e 2009, Shannon amargurou a derrota da diplomacia aos interesses comerciais de seu país. Enquanto o governo americano começou deplorando o golpe, acabou por aceitá-lo sob pressão do empresariado ligado à elite hondurenha. A opinião do próprio embaixador, como vimos, acabou sendo totalmente desconsiderada. Quando Manuel Zelaya voltou ao país e se hospedou na embaixada brasileira, Shannon se reuniu com a ministra do exterior do governo de facto, Patricia Rodas, para pedir o envio de comida e água, como registra um telegrama de 22 de setembro de 2009.

Diplomata de excelente reputação e experiente – atuou nas embaixadas da Venezuela, África do Sul, Camarões, Gabão, Guatemala e São Tomé e Príncipe, além de representar os Estados Unidos na OEA –, Thomas Shannon chegou ao país em plena crise provocada pela aproximação do governo Lula com o Irã, defendida pelo governo como parte de sua estratégia sul-sul e de defesa da equidade dos países diante do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. Para complicar, Lula estava de visita marcada para o Irã em maio, e o presidente Mahmoud Ahmadinejad estivera no país quarenta dias antes da chegada do novo embaixador.

Segundo o pesquisador Riordan Roett, Brasil e Estados Unidos haviam chegado a um impasse por conta de um “desentendimento típico das relações diplomáticas”, causado por uma carta sobre o assunto enviada por Obama a Lula. O pesquisador, que atribui a informação a um ex-ministro de relações exteriores brasileiro, explica: “Enquanto o Brasil pensou que era um sinal positivo (para continuar as negociações com o Irã), o pessoal de Washington a via como uma advertência para que o Brasil fosse cuidadoso”. Segundo ele, “esse mal-entendido levou a uma série de erros que culminaram no conflito sobre as sanções na ONU”.

No dia 8 de janeiro de 2010, algumas horas depois de desembarcar no país, Shannon foi procurado por Celso Amorim, que quebrou o protocolo, e iniciou a conversa, lamentando a demora na aprovação de seu nome: os dois países haviam “perdido um tempo precioso”, disse-lhe o ministro brasileiro.

Os telegramas deixam transparecer o entusiasmo da equipe do Itamaraty com a vinda de Shannon e o empenho de Amorim para explicar melhor a posição brasileira: “O Brasil pode contribuir e ser uma voz positiva em temas sobre o Oriente Médio e o Irã”, disse Amorim, acrescentando que, durante a visita do presidente Mahmoud Ahmadinejad, o Brasil manifestou sua preocupação em relação aos direitos humanos no Irã. Por fim, Amorim pediu a Shannon calma nas negociações, pois mais pressão poderia gerar resistência interna. “Está claro que o ministro do exterior está ansioso para começar a nova fase de relações entre o Brasil e os EUA. Da perspectiva brasileira, o diálogo sobre temas não só regionais, como globais, será importante”, comentou Shannon no telegrama.

O recado parece ter sido compreendido. No auge da crise, o embaixador viajou a Washington para acalmar o governo americano, como conta o professor Matias Spektor. “O fato de Shannon ter legitimidade como interlocutor foi decisivo para que isso não se tornasse crítico. E continua sendo importante agora, em que o Brasil emerge como potência internacional, e ainda não está claro como isto está sendo recebido em Washington, há uma série de interesses que sentem essa ascensão como um risco”, diz Specktor.

Shannon tem atuado no sentido que o Brasil deseja: “A partir de agora, os Estados Unidos precisam tratar o Brasil de igual para igual”, costuma afirmar.

O embaixador mostra-se, inclusive, mais sofisticado nas análises sobre a eleição presidencial de 2010 do que outros integrantes do corpo consular. Enquanto Shannon tenta relatar os fatos com sobriedade, funcionários da embaixada enviavam despachos a Washington que nem o mais fanático dos eleitores tucanos seria capaz de acreditar. A possibilidade de Aécio Neves aceitar o posto de vice na chapa de José Serra, descartada pelo senador mineiro no fim de 2009, ainda era dada como certa nos telegramas do início do ano seguinte. Sem falar no balão de ensaio de uma dobradinha Serra-Marina Silva, sustentado com entusiasmo em despachos durante o processo eleitoral.

Shannon tem se esforçado em prol das relações bilaterais, mas não tem sido fácil. O governo Obama deixou claro que não vai apoiar demandas do Brasil, como o assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, nem acabar com a tarifa sobre a importação do etanol, outra reivindicação importante de Brasília. Além disso, alguns telegramas da embaixada revelam que nos últimos anos os EUA fizeram um verdadeiro boicote às pretensões brasileiras de ter um programa espacial e nuclear independente.

Talvez seja por isso que o vazamento do WikiLeaks tenha dado tantas dores de cabeça a Shannon. Segundo o embaixador, seu trabalho foi afetado pela quebra da “garantia de confidencialidade” que permitiria conduzir “discussões francas” e o “diálogo honesto” entre os países.

Valeu a pena?
Para alguns especialistas, porém, a publicidade dos telegramas pode, surpreendentemente, favorecer as relações bilaterais. “O benefício foi maior do que o dano”, diz o ex-embaixador Rubens Ricupero. “Muita coisa de que se suspeitava foi confirmada, como a existência de um antiamericanismo gratuito em uma parte do governo brasileiro, enquanto outros setores dentro do próprio governo se mostram mais abertos. Ou seja, não é um bloco fechado, há espaço para uma mudança psicológica que pode se refletir em uma relação melhor entre os dois países, com menos preconceitos”, afirma Ricupero.

“Para quem está lá nos Estados Unidos, saber que existem essas diferentes visões entre Ministério da Defesa e Itamaraty ou entre Itamaraty e Planalto serve como filtro para as informações que recebem do Brasil”, completa o professor Matias Specktor.

Parece ser nisso que os governos dos dois países estão apostando. Enquanto o governo Lula minimizou a importância dos documentos e a sucessora Dilma sequer comentou as revelações mais recentes, o Itamaraty se esmera em preparar a visita do presidente Obama ao Brasil, marcada para os dias 19 e 20 de março, quando ele fará um discurso histórico. “Pelo que se sabe até agora, Obama vai dizer em alto e bom som que os Estados Unidos consideram positivo o fato de um país como o Brasil, uma grande democracia, estar emergindo como potência internacional – o que tem grande peso pois contraria interesses de setores americanos”, afirma Specktor.

Será  a segunda visita do alto escalão americano neste ano – Hillary Clinton veio especialmente à posse de Dilma – algo inédito. Resta saber como a relação vai se equilibrar nessa corda bamba entre os conflitos de interesse e a vontade de aproximação. Pena que dessa vez o grande público não terá acesso aos bastidores da negociação – como permitiu o vazamento do WikiLeaks.

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9 Respostas para “Afinal, quem são esses embaixadores?

  1. Concordo com o leitor Marcos! World-class journalism!

  2. Lázaro Araújo

    É sempre uma maravilha ler textos de jornalistas do mais alto quilate, e neste caso de duas excelentes “escrivinhadoras”. Além de tudo, com fôlego e conteúdo esclarecedor. Salve o wikiLeaks! Salve Natália e Marina!

  3. Bernardo Doré

    Excelente reportagem. Obrigado.

  4. Heitor Rodrigues

    A matéria é esclarecedora da natureza da diplomacia praticada pelos governos dos EUA. Boa parte das indicações são para as células cancerosas – arrecadadores de fundos de campanha e lobistas – que distorcem os resultados do exercício da democracia representativa. As fronteiras entre as duas atividades são tênues.
    É notável o fato de embaixadores de carreira norte-americanos – como Donna Hrinak e Thomas Shannon – nunca chefiarem embaixadas na Europa Ocidental ou no Japão, trabalhando sempre em países periféricos da América Latina e África, e outros em países periféricos asiáticos, eu suponho. Certamente, a competência na condução de assuntos bilaterais é trabalho para profissionais, em lugares onde o poderio norte-americano deriva da enorme assimetria – histórica, política, econômica e militar – entre as duas partes. Algo dispensável na Europa Ocidental, ocupada militarmente pelo Irmão do Norte, desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
    Ao contrário do que sempre imaginei, a deferência explícita com que os EUA tratam os países europeus, é muito mais fruto da cooptação levada à desde o Plano Marshall no pós-guerra, do que respeito à soberania dos países do Velho Continente. Apesar do aparente paradoxo, as fronteiras do capitalismo são os lugares onde os Estados Unidos mais se sentem ameaçados, por lhes faltar – em boa parte delas – a submissão incondicional à superioridade militar norte-americana, e a prioridade aos interesses e caprichos de Wall Street e do complexo industrial militar.
    É isso aí! Vivendo e aprendendo.

  5. Marcus Vinícius Costa

    Errata do meu comentário anterior:

    Natalia Viana e não “Vianna”.

    • Oi, Nathy! Embora nunca a tenha visto, meu carinho por você é tão grande (antes da faculdade de Jornalismo, em tempos de cursinho já aprendia muito com voc~e), que tomo a liberdade…
      Em meu Blog (http://edumontesanti.skyrock.com/1.html) tenho feito um trabalho sobre WikiLekas, muita tradução (inclusive de telegrama da CIA “E se o Mundo Vir-Nos como Exportadores de Terrorismo?).
      Aqui nesta seção de comentários, querida Nathy Viana, você permiriu-me publicar minha Carta Aberta à Igreja (Norteamericana) Calvary International Church de São Paulo.
      Se você me permitir, passei por terrorismo no trabalho, ao que a dita-cuja teve participação bastante destacada, e aqui vão os comentários. Se você novamente permitir ser ublicado aqui, acredito que será de bastante valia, e está sendo muito legal porque a Google também publica tudo, até o nome dessa gente:

      “EU SOFRI TERRORISMO NO TRABALHO – EM NOME DE JESUS”
      QUANDO CAPITALISMO E RELIGIÃO SE MISTURAM
      Um Caso que Reflete Milhões (De Pessoas e de Reais)

      Não, esta história não é de um negro antes da abolição da escravatura, em 1888
      É meu relato pessoal sobre terrorismo psicológico e físico a que fui submetido, em 2008
      No trabalho, em nome de Deus e do lucro máximo, na civilizada e ética sociedade do século XXI

      Esse caso do Mc Donald’s veiculado pelo Brasil de Fato (http://www.brasildefato.com.br/node/5780), é apenas um entre milhões. Trabalhei na Rede Oba de São Paulo, loja do bairro do Morumbi (Empório Oba-Morumbi). Até hoje, não sei qual era meu cargo ali, nem o que coloco em meu curriculum. É realmente de se escarnecer: na prática, fui contratado para o que realmente fazia, minha função principal, a qual consistia em recepcionar estrangeiros, traduzir clientes que não falavam português e faziam compras no que, até hoje, tampouco sei exatamente o que era… Para os clientes, tratava-se de um fino empório, único no mercado; para os empregados, a gerência tratava tudo como “supermercado”, com todas as suas dificuldades e mazelas, o que diziam abertamente quando algo não andava bem na relação estabelecimento-empregado: “Trabalhar em supermercado é assim mesmo…”, e as condições que davam eram, com muita boa-vontade, as de um supermercado qualquer. Já quando algo do empregado nao ía bem, o prisma mudava por completo, e o discurso miraculosamente transformava-se da água para um dos vinhos importados que custavam milhares e milhares de reais, vendidos pela casa: o que dos portões para dentro era um supermercado como qualquer outro, de repente virava um fino empório ao qual você deveria retornar com trabalho de lord inglês. Bem, tenho em meu registro Fiscal de Loja, função que nem sei de que se trata…

      Reze para Entrar, Pague para Sair (Ao Contrário do Nome do Filme; Mas Terror É o Mesmo)

      E mais: não me foi dado nenhum contrato para assinar em nenhum momento (o que fui deixando passar pela confiança cega naquele que era grande amigo do pastor da igreja onde eu frequentava, quem me havia recebido na entrevista e que era o dono da Rede (ledo engano, não era, depois eu ficaria sabendo); mas quando pedi demissão, sim, solicitaram-me assinatura da rescisão, e rescisão de algo que eu nunca havia assinado.

      Ali, os “sanitários” dos empregados, se é que podem ser chamados assim, eram muito semelhantes aos dos estádios de futebol do Brasil – muitos não tinham porta (!) e vasos não tinham tampa em sua maioria, mas eram apenas um buraco envolto pela tradicional cerâmica de boca ovalada. Nesses locais, pertences dos empregados, inclusive as próprias roupas de trabalho, eram frequentemente roubados, para o que a empresa nunca se responsabilizava.

      Eu conversava com muita gente lá, e era esse mesmo meu trabalho, socializar o ambiente, dar atenção às pessoas, assim como é minha própria personalidade. Em uma das conversas com o pessoal da fiscalização sanitária que constantemente visitava o estabelecimento, e invariavelmente criticava suas condições sanitárias, uma profissional que se tornou muito amiga minha disse: “Aqui, nas prateleiras e na adega é tudo de primeiro mundo, já as instalações internas e sua higiene… são deploráveis!”, entre semblante decepcionado e expressão verbal sofrida. Para mim, essa observação da vigilante sanitária e toda a realidade que a envolve, são a marca metafórica mais adequada para retratar o sistema da Rede Oba e seus comandantes.

      Como fui indicado ao trabalho pelo líder da igreja que frequentava, Nathanael Fawcett da igreja Calvary International de São Paulo, em quem confiava muito pois passei quase um ano fazendo aconselhamento individual e semanal na fase mais delicada da minha vida, cheguei ao trabalho confiando cegamente no gerente a quem fui indicado, o qual também era pastor, sr. João (conhecido dentre funcionários por ser demagogo) da então novata igreja Vem para Cristo, uma dissensão da O Brasil para Cristo. Detalhe: o pastor Fawcett, amissíssimo do sr. João, colegas também em uma ONG, sempre me havia dito que este era o dono da rede, não gerente.

      No trabalho, entre muito “confete jogado a mim” pela maneira de ser, de me expressar e outras qualidades que observava em mim, o gerente disse que faria registro diferente da minha real função por motivos que, posteriormente, dar-me-ia conta, não passavam de conversa-fiada e fraude, uma mentira a mais para explorar-me.

      Comecei a trabalhar na Rede Oba ao mesmo tempo que deixei a igreja Calvary International, indignado (leia minha Carta Aberta à Igreja Calvary neste Blog, na seção No Pique da Vida). Nesse trabalho, onde uma latinha de molho de tomate italiano vale mais, muito mais que um empregado e recebe tratamento incomparavelmente melhor, eu ía de bicicleta ao bairro do Morumbi desde São Bernardo do Campo (cidade vizinha a São Paulo) todos os dias, pedalando quase 70km (ida e volta, e no trabalho ficava 8 horas contínuas em pé (posteriormente viria a saber, algo totalmente contrário à lei) 6 dias da semana, o que equivale a uma carga semanal de 48 horas, acima da lei e, nas primeiras semanas, trabalhei todos os 7 dias sem folga e nas mesmas condições, ou seja, indo e voltando de bicicleta ao trabalho, onde ficava 8 horas de pé atendendo o público – entrava às 8 e saía às 17h, com uma hora de almoço. Apenas fui agraciado com um dia de folga semanal quando solicitei isso ao gerente.

      Detalhe: não recebia vale-transporte nem refeição minimamente suficiente no local, nem muito menos um salário minimamente digno: “ganhava” pouco mais de 600 reais (!). Pelas muitas horas extra que trabalhei (mais da metade do meu tempo de serviço na Rede, foi de horas extra), nunca recebi 1 (hum) centavo.

      Meu Avô, Fazendeiro, Nunca Tratou Assim o Gado…

      A alimentação em geral já era insuficiente, mais ainda a mim por ser vegetariano, e muitas vezes meu almoço resumia-se, calado, a arroz com alface ou até pãozinho com alface, não havia praticamente nada para comer; eu tinha direitos alimentares mas eles não se preocupavam nem cumpriam nada, apenas exigiam. Houve um sábado que passei muito mal dentro do trabalho, fiquei muito pálido, com forte ânsia de vômito, a vista escureceu, e mal conseguia falar, mal ficava em pé. Foi-me sugerido ir ao hospital, mas disse que preferiair a minha casa alimentar-me e descansar.

      Procurei, nesse malíssimo estado, pela secretária do sr. João, Kelly Sousa, dizendo que, definitivamente, necessitava do vale-transporte, algo que já havia comentado ao próprio gerente – no fim sendo sempre ignorado o assunto. Fui respondido por Kelly, como sempre, de maneira vaga, extremamente fria, indiferente – dessa vez, encontrando-me em estado de saúde com o qual meus colegas se assustaram com ele. Pois a resposta da gerência foi, para mim, tão assustadora quanto meu próprio estado, pelo qual eu também me preocupei.

      Depois dessa conversa nada produtiva, o motorista da Rede Oba levou-me à casa, em muito más condições . No dia seguinte, eu voltaria a trabalhar: de bicicleta, pedalando os mais de 70km ida-e-volta.

      Nessa ocasião que passei mal, foi conversado com gerentes e colegas que o problema era de alimentação, e o próprio gerente, primo do sr. João, antecipou-se em observar isso e levou em conta o esforço para ir e vir do trabalho, o fato de eu ser vegetariano e não haver ali praticamente nada que eu pudesse comer no almoço. Ele disse que eu estava ficando fraco, usava de muito esforço mais não estava repondo, na alimentação, o que o corpo perdia.

      Em meio a isso, os gerentes limitarm-se a me dar, enquanto eu estava no chão passando mal, um coco verde para tomar sua água. Isso enquanto reconheciam que meu problema era de baixa resistência, e trabalhávamos em um supermercado que vendia de tudo, muito caro, e também jogava muito alimento fora. Não me restaram nem as migalhas.

      Em nome de Deus, ou do lucro máximo, não sabemos. Igualmente, nunca foi feito nada sobre minha questão alimentar. Nunca foi acrescentado nenhum legume no cardápio, nem sequer foi cogitado isso.

      Certa vez, cheguei ao trabalho 10 (dez) minutos atrasado de bicicleta debaixo daquelas chuvas torrenciais de São Paulo, que só não derrubam o salário dos vereadores e do prefeito, pelo que fui admoestado pelo sr. João, e tal atraso, posteriormente, seria usado para que sua secretária também me repreendesse, em uma das fracassadas vezes que solicitei vale-transporte. Em outra ocasião, cheguei algo como 20 minutos atrasado porque meu pneu furou no meio do trajeto São Bernardo-bairro do Morumbi, e o gerente fez, após consultar o relógio e olhar-me feio, com que eu apresentasse certificado da bicicletaria onde havia remendado o pneu – o que apresentei.

      Outra vez, fiquei resfriado, dores de cabeça, de garganta e tosse, e não tinha nenhuma condição de ir pedalando ao trabalho (e o corpo já sentia o esforco sobrehumano com o passar dos meses, pedia por alívio, daí talvez o resfriado devido a já baixa resistência), fiquei um dia em casa em repouso (de São Bernardo ao Morumbi há considerável gasto em transporte, o qual seria tirado de meu minúsculo salário se fosse ao trabalho resfriado, em más condicoes de saúde – até poderia trabalhar, porém, jamais de bicicleta naquele estado em que me encontrava).

      Pois, sem o devido vale-transporte ao que tinha todo o direito – e já havia solicitado, por vezes -, descontaram-me esse dia de falta alegando que eu deveria apresentar um atestado médico, ou seja, na relação trabalhador-empregador tudo estritamente justo, na ponta do lápis dentro da mais rigorosa lei defendendo os devidos direitos da empresa; já o inverso disso, a relação empregador-trabalhador…

      No posto de saúde, recusaram-se a dar atestado de saúde já que eu não estava em tão más condições, menos ainda absolutamente impedido de trabalhar; aleguei que não recebia vale-transporte, mas deveria ir de bicicleta, ao que a médica respondeu que isso era problema entre o estabelecimento e mim, não dela. E ficaria sabendo mais tarde, naquela mesma semana, que postos de saúde realmente dificultam muitíssimo a entrega de atestados médicos.

      Contudo, quando naquele mesmo dia liguei algumas vezes enfermo à empresa, informando que não estava bem, pedindo orientação e que iria a um posto de saúde, nenhum dos altos funcionários com quem havia conversado me orientou dizendo que postos de saúde dificultam muito tal atestado, apenas disseram que se eu não apresentasse o comprovante me seria descontada do pagamento aquela falta.

      Nem Tudo que Reluz É Ouro…

      Com o passar do tempo, aquela minha confiança cega ao gerente, amigo do pastor que me aconselhava, foi naturalmente acabando, ao que o sr João se deu conta; passei a insistir com o vale-transporte, e alguns descontentamentos eu já manifestava com colegas mais próxmos – as reclamações eram absolutamente generalizadas, mesmo dos mais próximos à gerência, com os diferenciais que eu demonstrava isso aos gerentes, e não falava por ninguém, isto é, não fazia o famoso e brasileiríssimo “leva e traz”.

      Em meio a tudo isso, “curiosamente” colegas com quem eu não tinha problemas passaram a fazer-me estranhas insinuações, e até a prejudicar-me não permitindo que eu realizasse o que me cabia, e em alguns casos tratando-me, do nada, de uma maneira ridícula como se eu fosse um bandido, o que, estava muito na cara, tinha destinatário certo.

      Notei que estava havendo um “leva-e-traz” afim de dividir-nos, e subjugar e humilhar-me, tática conhecida como assédio moral, algo muito praticado por empresas. Menciono “dividir-nos” porque minha relação era das melhores com todos os colegas de todos os setores (quando pedi demissão muitos se entristeceram, fizeram-me elogios pessoais muito marcantes, diziam não acreditar que eu estava indo embora e me desejaram muita sorte), inclusive bom relacionamento com tal gerente a quem eu servi, várias vezes depois do trabalho, lanche com o melhor e mais caro produto orgânico, ao que ele nunca colocava nada mas muito me agradecia dizendo ser uma “bênção de Deus” o que eu lhe servia, e ao que se juntava cada vez mais colegas – para tal lanche orgânico.

      Com o sr. João, o relacionamento esfriou mesmo quando já não aceitei mais sua ideia de morar nos alojamentos da empresa em más condições – onde eu me havia disposto a ficar entendendo que à empresa não era interessante o gasto com transporte, mas havia sido inclusive furtado ali dentro entre péssimas instalações sobretudo sanitárias, e por alguns dias o local havia ficado sem água por problemas de encanamento.

      Assim, passei a solicitar vale-tranpsorte, para o que houve uma verdadeira novela. Enfim, com boa relação profissional o empregado fica mais forte, e especialmente quando está sendo lesado e manifesta descontentamento por isso, apresenta “perigo” maior ao patronato, daí a fragmentação forçada e repentina aos subordinados.

      Algumas dessas insinuações de colegas, “coincidentemente”, eram temas pessoais jogados no ar exatamente daquilo que eu havia conversado apenas em quatro paredes com o mencionado pastor da igreja que frequentava (em fase da vida que, como mencionei mais acima, passei por problemas de ordem pessoal), casos e fraquezas muito pessoais nunca levados ao trabalho que, de repente, passaram a ser explorados crescentemente ali e me pegaram de surpresa, péssima surpresa.

      Quando o que Está em Jogo É Lucro Máximo, Não Existe Ética – Nem Sequer Evangelho e Compaixão

      Posteriormente, após muita insistência quando meu corpo já quase não aguentava mais tanto esforço sobrehumano de quase 70km de pedaladas diárias (com tempo olímpica, impiedosa, militarmente cronometrado), 9 horas em pé atendendo clientes com apenas uma folga semanal e alimentando-me extremamente mal no trabalho, recebi, enfim, com muita insistência de minha parte, valor em dinheiro para o transporte, contudo de maneira traumática nas relações profissionais e valor abaixo do realmente necessário para ir até o trabalho – estava faltando algo para a conta mensal. Além do mais, foram raríssimas as vezes que não fiz hora extra, sem jamais recebi 1 (hum) centavo por isso – mas nem estava colocando tal fato em questão, era apenas o tema urgente do transporte.

      Tentei por várias vezes dialogar a esse respeito com o gerente, sr. João, sempre sem vão. Sua secretária estendia-se bastante em palavras e, no fim, sempre ficava no “vou ver isso para você”. A ela, passei a apresentar nas diversas conversas, além do tema do valor equivocado do vale-transporte, alguns outros descontentamentos alegando inclusive que estavam sendo desumanos comigo ali, por exemplo observando duramente um atraso de 10 minutos de chegada quando fui de bicicleta ao trabalho, sob tempestade pedalando mais de 30 km em uma fria manhã. A essa altura, eu já estava, claro, fazendo o papel de chato insistente. Eles, certamente, contavam com minha desistência, mas não foi isso que ocorreu.

      O Culme do Terror Psicológico – Ou Assédio Moral

      Finalmente, depois de várias tentativas de conversa frustradas, quando o chamei diretamente para conversar, o gerente hesitou em fazê-lo, apenas se passava por “muito ocupado” me ignorando mas, calado, eu o acompanhava aos lugares onde ía, como que dizendo “eu espero que se desocupe, e então iremos dialogar”.

      Ele de repente mudou aquela maneira passiva, levou-me a sua sala, fechou a porta, tomou a palavra com irritação e, para minha surpresa, passou a humilhar-me como se já me conhecesse havia muitos anos, dizendo coisas muito pessoais que eu, “coincidentemente”, havia comentado apenas com o referido pastor, problemas de ordem pessoal nunca autorizados a sair de quatro paredes, mas saíram. O sr. João usou minha personalidade, vulnerabilidades pessoais (em momento que saía de fase difícil da minha vida, como observei mais acima) as quais ele não conhecia, em absoluto, assuntos da minha vida de muitos anos anteriores que eu nunca havia levado a ele nem a ninguém ali, apenas a tal pastor Fawcett. O terrorismo psicológico que eu já vinha sofrendo na empresa chegou, ali, em seu culme.

      Em geral, o gerente “enfeitava” tudo isso, exagerando bastante das maneiras mais baixas, e dei-me conta que o mesmo que me indicou ao trabalho, quem me conhecia razoavelmente bem, havia traçado a meu gerente, seu colega-pastor, toda minha personalidade, minhas virtudes, meus problemas e pontos fracos, como eu argumentava, como ele deveria argumentar comigo enfim, meu gerente tinha na ponta da língua tudo sobre mim e resposta pronta a tudo o que eu dizia, o que é grave caso de Polícia (uma das grandes injustiças nisso tudo é que a recíproca da exposição íntima do outro, revelada sobretudo em quatro paredes do aconselhamento pastoral, não foi verdadeira para comigo: o pastor Fawcett, colega do sr. João inclusive em uma ONG, como observei mais acima, não me contou as peculiaridades daquele que seria meu gerente, e tão explorador. Isso sim, é conviver com lobos devoradores; isso sim, é deitar-se para dormir na boca do leão).

      Cobras em Meu Quintal, e Dormindo na Boca do Leão

      O pastor-colega do meu gerente sabia bem que eu era uma pessoa de defender direitos, não tolerava exploração calado, certa vez observou isso esboçando elogio ao que qualificou de “bastante senso de justiça”, e conhecia meu histórico nesse sentido – algo que fugia totalmente do script ultra-reacionário hipócrita e opressor da tal igreja (script justamente este que faz com que muitos pastores, como meu próprio ex-gerente, “adore” trabalhar com determinados crentes: não dão muita dor de cabeça).

      Até minhas ideologias políticas, as quais nunca havia levado ali no trabalho, acabaram sendo colocadas com ironia por tal gerente, de maneira totalmente pejorativa e discriminatória, o que era um absurdo já que não só eu não havia tocado nesse assunto, como a questão não era nada disso, mas sim o vale-transporte, cujo valor dado a mim estava equivocado. Além do mais, eu mesmo jamais me rebaixaria a conversar sobre política e economia com um sujeito ignorante que ocupa cargo tão importante na empresa (primo do dono, vale observar), mas mal fala português e nem sabe o que significa, por exemplo, Produto Nacional Bruto. Mas a intenção era desmoralizar-me, principalmente nisto que, para ele, explorador, residia o grande perigo: minha ideologia.

      Semanas antes de iniciar neste trabalho, o pastor Fawcett “orientou-me”, olhando fundo em meus olhos: “Não tome nenhuma decisão no trabalho, sem antes falar comigo”. Naquele momento, não entendi bem a que exatamente ele se referia. Uma semana antes do início na Rede Oba, um grande amigo meu e da igreja, Frederico Ramos, amigo íntimo da família Fawcett também, recomendou-me por correio eletrônico algumas coisas, que aguentasse possíveis explorações sem atitudes mais drásticas, concluindo. “Sei que você é um socialista que luta contra as injustiças [mas não faça nada, era a ideia]”.

      Vale observar, e quem me conhece sabe disso, inclusive quem lê nossos trabalhos aqui no Blog: não gosto nem um pouco de rótulos a ideias (não se encontra no Blog nem sequer um rótulo que seja entre tantos trabalhos, a não ser ideias), mas sim discutir pensamentos e propostas – além de ser eu tão contrário ao comunismo (melhor dito, capitalismo de Estado por parte de União Soviética e China) que o mundo assistiu no século XX, quanto sou ao nazismo e ao capitalismo norteamericano, até hoje. Na mencionada igreja (norteamericana) sim, há uma histeria sobre esse assunto e uma sede por se rotular pessoas sob todos os aspectos inclusive religiosos (leia minha Carta Aberta à ela neste Blog, como sugeri mais acima), e não poucas vezes em aconselhamento pessoal fui abordado com o tema político não discutindo ideias, mas sim polarizando ideologias sob rótulos ao que, por vezes, foi-me sentenciado: “Você é comunista! Assuma suas posições!”.

      Aconselhamento Pastoral Apresenta: Bush x Lula (Típica Histeria e Preconceito Norteamericano)

      Em um dos encontros pastorais semanais (e encontros bíblicos, pelo menos em tese), ao qual, como sempre, eu havia saído de São Bernardo do Campo ao bairro do Campo Belo em São Paulo de bicicleta, e apenas para esse fim, tal pastor Fawcett (norteamericano) colocou em sua sala um vídeochacota para que assistíssemos, sem perguntar se era minha vontade, o qual apontava, recheado de gargalhadas de auditório, erros de português do presidente Lula (muitos causados por sua língua meio presa). Sempre fui crítico de Lula por divergência quanto ao modelo econômico adotado, nunca por preconceito como fazem esses elitistas ignorantes. Isso veio após eu escrever, e enviar-lhes por correio eletrônico, artigos criticando Bush e sua política beligerante – ao que fui virtual e imediatamente advertido por Mary Fawcett, mãe de Nathanael, igualmente norteamericana.

      Enfim, tiraram ali as conclusões que lhes convieram a meu respeito e, como também de costume da casa e de todos que se julgam acima do bem e do mal, diagnosticaram meu raio-X segundo a liderança do Senhor aos quatro ventos, rotulando-me também no trabalho antes mesmo de eu passar pela entrevista.

      E um detalhe muito importante, na verdade fundamental no que diz respeito à auto-denominada liderança do Senhor, é aquilo que observo nos comentários Em Meio ao Self-Service de Religiões no Mundo Você Escolhe: Teoria ou Paixão, em No Pique da Vida: (…) Os elaboradores de doutrinas, em sua grande maioria, “vivem da obra” no jargão deles mesmos, isto é, não vivem a vida cotidiana – não trabalham, não vivem a solidariedade, não são explorados, não pedem demissão nem são demitidos, não atravessam as ruas com as pessoas, não estudam (quando muito, fazem alguns rápidos cursos doutrinários com tudo pago, inclusive avião e hotel) enfim, não sabem o que é ser humano, ser cidadão e se sabiam, hoje já perderem esse senso, a noção prática das coisas. Vivem da religião, não para a religião, ao contrário dos profetas e apóstolos de Jesus. Moral da história: são pessoas de baixo nível intelectual cuja vida osciosa limita-se a coisas pouco produtivas, de quem não se pode esperar grandes engenharias intelectuais, nem morais.

      Que Você, Seu Esforço e Seu Risco de Vida Se Danem! Que Se Dane Sua Vida!

      Em um dos meus primeiros dias de trabalho, quando o relacionamento era dos melhores e eu confiava cegamente no sr. João, achando que fosse ele o dono do estabelecimento, o patrão-pastor conversou comigo no meio do trabalho e disse como era a questão do transporte conforme a lei, que se eu sofresse algum acidente de bicicleta no trajeto até o trabalho a empresa teria que arcar com as responsabilidades hospitalares.

      Assim, disse o gerente-gospel, me fariam assinar um termo pelo qual eu me responsabilizasse por qualquer incidente que pudesse me acometer no caminho ao trabalho – ao que não me mostrei entusiasmado em fazer, e nem ele acabou trazendo-me termo algum para assinar. Pois o gerente ainda disse-me que, mesmo indo de bicicleta sem receber vale-transporte, o empregado poderia processar a empresa, “mas você não fará isso aqui, Eduzinho, pois é crente”, pregou-me o gerente-pastor.

      – Viva a Saúde Econômica da Empresa! – E Eu com Isso!?

      Comecei a entender o que havia insinuado o pastor anteriormente. Conforme o tempo foi passando no trabalho, foi tudo ficando bastante claro… Ele previa um processo na justiça, referia-se a minha, famosa na casa, luta por direitos e irredutibilidade com injustiças, sugerindo que eu fosse como o crente que eles gostavam: submisso que entrega todas as explorações nas mãos de Deus, e que só espera em Deus (coisa que eles mesmos não fazem, é claro; e tipo de cristão que nã sou, nem nunca fui).

      Eu havia chegado ao trabalho fortemente rotulado, algo tão nocivo: rotulado com base em um ano de aconselhamento íntimo, individual dentro de quatro paredes onde abri totalmente minha vida, minha história e de toda a minha família; rotulado por pessoas que odiavam minha ideologia socialista (além da situação econômica mundial, exclusivamente capitalista, casos como esse na Rede Oba que retratam a realidade generalizada do trabalhador e da ditadura inevitável do dinheiro, apenas evidenciam que tal sistema é falido, assim como foi o capitalismo de Estado soviético e chinês), e sempre haviam deixado tal histeria e repúdio bem claro à qual trataram, claro, de substituir o nome da ideologia socialista e defesa de direitos, pelo de rebeldia além de muitas questões pessoais que, como observei mais acima, seriam injusta, exagerada e impiedosamente usadas contra mim.

      A Política do Grande Porrete: Fantoche em Troca de Migalhas… – Eu!?

      Quando afirmo que o sr. João “enfeitou”, usou muita coisa e exagerou, tenho o exemplo de que, no que deveria ser conversa sobre valor do transporte, veja: entre outros absurdos, como o de proibir-me falar em questões sociais brasileiras no trabalho com meus colegas, o que eu esporadicamente fazia, geralmente observando com críticas a situação do país assim como conversávamos sobre muitos outros assuntos, e proibiu-me também de chegar até o trabalho com a camisa de futebol da Argentina (!), a não ser por baixo de outra dissimulando, ao que dei um sorriso meio incoformado, ele perguntou se eu cumpriria tal ordem, respondi decididamente que não e o gerente-pastor afirmou que eu era rebelde, o sr. João pediu-me que apontasse três virtudes em mim. Recusei-me a fazer isso, mas ele insistiu e uma das qualidades que observei em mim foi a de ser uma pessoa solidária ao que, de imediato, o gerente gospel, aquele mesmo que tomava constantemente suas “bençãos” (nas suas próprias palavras) de melhores lanches orgânicos (sem nunca colocar nem um pãozinho) interrompeu-me dizendo categorica e irritadamente que isso não era verdade (!). Detalhe: não apontou nada dizendo o contrário… Nem poderia.

      Contra Fatos, Não Há Argumentos

      O pior era que nunca nenhum colega, nem ele mesmo (claro, deliciava-se com meus lanches) havia reclamado disso em mim, pelo contrário: quando não havia muitos clientes para traduzir, ao invés de ficar parado eu me prontificava, voluntariamente, a ajudar colegas em outros postos que nada tinham a ver com os meus, mesmo aqueles mais humildes lá no fundo, ajudando a cortar repolho – e o patrão-crente sabia disso tudo (mas, claro, quando o que está em jogo é o lucro, a competitividade e a saúde da empresa, não existe ser humano, nem palavra de Deus, nem gratidão, nem justiça pessoal, nem solidariedade. O que vale é a lei da selva do mais forte e sugar tudo o que puder, nem que, para isso, tenha que se valer de sua posição para humilhar o próximo. Gente que não vale as fezes que faz).

      Os próprios clientes muito me elogiavam, alguns tinham a mim como referência na loja e havia outros que íam ao estabelecimento apenas para conversar comigo – um deles, senhor italiano dono de rede de hoteis que, procurando por mim, referia-se perante meus colegas como “quello simpatico” a minha pessoa, e por vezes me pagava um café.

      E, nessa conversa com o sr. João trancado em sua sala, quando eu apontei fatores positivos de meu trabalho que não havia como negar, o patrão-pastor argumentava: “Isso é obrigação fazer”. Mas, claro, estávamos falando de trabalho, não em obras de caridade – aliás, obrigações muitas que o cara-de-pau do gerente gospel não cumpriu durante todo o tempo que lá estive, e mais: se sairmos das obrigações às obras de caridade, ele, em seu trono, aliemntou-se após o trabalho do melhor alimento que saio do meu salário, sem que o ético profissional e profundo conhecedor da palavra nunca colocasse nem uma folha de alface “uma bênção!”, em suas próprias palavras.

      Quando inaugurou-se a unidade Morumbi da Rede Oba, o Jornal Planeta Morumbi na Internet fez essa observação, entre outras: (…) Atendimento de primeiro mundo”. E ninguém no estabelecimento estava mais próximo do cliente que eu, pois, como observei, minha função era exatamente recepcioná-lo, estar sempre próximo dele, ficar seu “amigo” especialmente dos muitos estrangeiros que lá faziam suas compras – e para tal cargo, só havia eu.

      Havia um senhor ali, gente boníssima, da igreja também (como o sr. João é da igreja, e “adora” trabalhar com crentes como ele mesmo diz), quem havia muitos e muitos anos trabalhava várias horas extras gratuitamente, e absolutamente calado talvez entregando tudo nas mãos do Senhor, como a gerência mais gosta. Essa é a realidade do trabalhador brasileiro.

      Essa é a realidade da maioria das empresas e da maioria das igrejas, onde pessoas servem-se do poder e da religião, são servidas pelas pessoas mas, desavergonhadamente, exigem dessas mesmas pessoas esforço sobrehumano e resultados de primeiro mundo, preparam o cenário para receber tratamento e privilégios que os apóstolos de Jesus e os profetas do Antigo Testamento recebiam, os quais viviam para servir, investiam todo seu salário, toda sua família e toda sua vida na fé, muito diferente desses privilegiados igrejeros de hoje. Igrejas, em sua maioria, que servem para dominar, defender interesses pessoais e acumular riquezas.

      A Bomba Sempre Explode no Colo do Mais Frágil

      Quando eu trabalhava na unidade do bairro de Moema da Rede Oba, até que a do Morumbi fosse inaugurada, onde ficava o sr. João acompanhando os preparativos (inauguração que atrasou em mais de quatro meses em relação à data inicial), tal gerente, quando eu ainda achava que este fosse o dono da rede, fez-me algumas recomendações sem conhecimento prévio do gerente de Moema, o que eu não sabia. Apenas cumpri suas determinações.

      A “bomba acabou estourando”, e aquilo que, claro, acabei segurando sozinho sem que ninguém desse as caras nem repondesse pelo feito (leia-se, sem que o sr. João dessa as caras e respondesse pelo feito, nem nunca apareceu para comentar o fato comigo), ainda acabei, naquela conversa na sala do gerente, sendo dura e desavergonhadamente reprimido pelo “erro cometido” em Moema (!).

      Descarregando Caminhão com Camisa Branca, Limpinha…

      Por cerca de duas semanas, todos havíamos deixado nossos postos nas unidades provisórias da Rede Oba, e dedicamo-nos coletivamente, com exceção da gerência, a descarregar caminhões que traziam mercadorias àquela que seria a nova unidade no bairro do Morumbi, e as colocávamos em seu devido lugar na nova loja. Fazíamos isso com muita pressa, sob rigoroso controle dos gerentes, afinal, eles estavam, por culpa deles mesmos, atrasados em mais de quatro meses em relação à data inicial de inauguração, de maneira que havia pressa, muita pressa.

      Eu já estava descontente com toda a situação a essa altura. Levar uma vida de escravo nos porões da empresa e ter de apresentar-me como lord inglês ao mesmo tempo, já estava se tornando insuportável, e estavam percebendo isso. Bem, meus colegas todos usavam, diferentemente dos dias em que exerciam atividades normais, camisetas verdes; apenas eu, curiosamente, fiquei com a branca que sempre usávamos, apenas a mim não foi dada a camisa verde na fase de descarregar caminhão. Mas para mim, estava tudo bem.

      Apenas chegava de bicicleta, me arrumava, vestia a camisa branca do trabalho e ía correndo descarregar os caminhões com colegas e ordenar mercadorias, nas prateleiras e nos depósitos. Horas extras, mais que nunca, foram inevitáveis – e como sempre, irremuneráveis. Meu trabalho nunca recebeu pagamento por isso. Após mais de 30 km de pedaladas mais 9 horas decarregando e ordenando mercadorias, o suor e a camisa branca com marcas, claro, eram inevitáveis.

      Ainda com respeito a roupas, roubaram minha calça de trabalho nos armários da loja, fato que me deixou com uma só, o que comuniquei à gerência. Esta prometeu-me, conforme sua obrigação, dar-me outra, o que nunca foi feito e fiquei com apenas um uniforme e meio disponível ao trabalho (uma calça e duas camisas brancas).

      Em outra ocasião, uma de minhas camisas brancas foi depositada na lavanderia da empresa, e voltou borrada de preto. Igualmente, comuniquei tal fato à lavadeira e à gerência, esta absolutamente indiferente ao ocorrido mas, enfim, estava comunicado, de minha parte, o porquê do borrão em minha camisa branca para o trabalho.

      Na unidade de Moema mesmo, havia o sr. Pedro de Oliveira, gerente também membro de igreja evangélica, quem, embora sempre tenha me tratado da melhor maneira, era conhecido por seu baixo nível intelectual além de estilo triculento e explorador (praticamente todos os gerentes eram assim, o que acontecia era que o sr. Pedro disfarçava menos – todos com exceção do sr. Nilton Valério do Morumbi, este boníssima gente, profissional reconhecidamente qualificado, e exceto gerentes da unidade do Butantã, embora nesta os empregados sofram com a mesma situação extremamente precária de toda a empresa).

      Pois o sr. Pedro fez, certa vez, uma infeliz observação, mais uma dentre tantas no festival de barbárie da empresa, quando um empregado reclamou das condições de trabalho ali (observação esta do gerente que ficou famosa, passeou bastante livremente pela unidade dentre funcionários): “Muita coisa melhorou muito no mundo sim, veja que hoje não há escravidão, todos ganham um salário…”. Em outras palavras: “Deem-se por satisfeitos por não viverem acorrentados”. A macabra moral da história é, claramente, nivelar tudo por baixo.

      … Terminando o Dia Sujo, sem Dinheiro e Humilhado

      Pois em tal conversa derradeira na sala do gerente-pastor, outra grande surpresa: nosso patrão pregador da Palavra não deixaria passar mais essa, disse que eu era um profissional que estava “sempre sujo”. Ponto final. De minha parte nada a dizer, ponto final, aqui e lá.

      Saí de sua sala sob humilhações e sem acordo para o valor do transporte – assunto que acabou quase não sendo tocado. Dois dias depois, pediria demissão, ao que a secretária do gerente insistiu para que não fosse feito, sugeriu que eu pensasse, afirmou que as coisas melhorariam na empresa. Mas eu estava irredutível, principalmente depois daquilo a que fui sujeitado na sala do gerente, respondi a sua secretária que há muito estava ouvindo que as coisas melhorariam, mas só pioravam em um lugar totalmente desorganizado e explorador, onde usa-se até a baixa tática de fragmentar as pessoas, jogar umas contra outras, a fim de explorar mais e manter o silêncio delas. E deixei claro que a gota d’água para minha demissão havia sido a baixeza do sr. João em sua sala, dois dias antes.

      A partir do momento que deixei sua sala, a relação dele para comigo passou a ser de inimigo – a qual já estava abalada depois que passei a manifestar descontentamentos, principalmente depois que me neguei a morar nos alojamentos da empresa onde fiquei por alguns dias, com banheiros sem condição, quase não havia comida, e onde me haviam roubado dinheiro além de alguns pertences no quarto. Saí da sala em silêncio. A partir de então, apenas se afloraram mágoas e muito descontentamento, de ambos os lados. Dois dias depois, como observei, eu pediria demissão.

      Saindo pela Porta da Frente e Olhando nos Olhos:
      Na Hora de Encarar, de Frente e de Pé, a História Muda

      Após pedir demissão e assinar os termos da rescisão com a secretária Kelly, logo que cheguei na empresa (o trabalho iniciava-se às 7h), passei todo aquele mesmo dia trabalhando por minha voluntária decisão a fim de não deixá-los subitamente, já que havia muito trabalho. Kelly imaginou que eu não trabalharia, mas respondi que sim, cumpriria aquele dia pois sabia que havia muito por fazer. Na hora da saída, despedi-me de todos os colegas, que não sabiam de minha demissão e se surpreenderam muito, manifestando muita tristeza também.

      Quando me deparei com o sr. João, próximo à porta de saída (durante todo o dia, não se manifestou), aproximei-me dele, dei-lhe um abraço e agradeci por “tudo”, olhando bem em seus olhos enfim, deixando os assuntos de trabalho de lado a fim de tentar salvar o lado pessoal – igualzinho, inclusive, eles pedem que façam demonstrando ética e perdão (mas eu mesmo faço o que manda minha consciência, e tento obedecer a Bíblia, não seguir os totalmente falsos e oportunistas auspícios dessa gente). Pois sua atitude foi de absoluto menosprezo, desconsiderou-me totalmente e, detalhe importante: em nunhum momento, nem por um segundo olhou-me nos olhos, apenas desviava o olhar de mim, muito próximo a ele.

      Quando os negros se tornaram “livres” após a Lei Áurea de 1888, acabaram custando menos a um patrão que antes dessa data, na condição de escravos – e houve todo um preparo das elites para que assim fosse, como, por exemplo, tornar legítimos os latifúndios impedindo que ex-escravos tivessem acesso a terras. Pois tenho a mais absoluta certeza de que, em valores proporcionais aos daquela época, eu custei menos à Rede Oba que um escravo a seu senhor, antes de 1888.

      Tal “pastor” foi procurado por mim, nunca me respondeu, nem seus superiores na mencionada igreja – um deles sua própria mãe, a sra. Fawcett. Quando estes passaram a enviar pessoas do meio deles com recados de que gostariam de dialogar, já era muito tarde: além de tudo o que havia passado no trabalho e na própria igreja (para isso houve minha tentativa de reaproximação), vim a saber (através de amigos meus da referida igreja) que as versões que estavam passando adiante disso tudo, eram bastante distorcidas (como é costume deles).

      Isso para mim tornou impossível qualquer diálogo, somada a duas mensagens virtuais cheias de ironia de Susie Pek, líder de solteiros da mencionada igreja, a qual também deixou no ar problemas de ordem pessoal nunca levados a ela, a não ser ao pastor Fawcett e a sua mãe. As únicas respostas que recebi disso tudo, por parte de um membro deles e de um líder do BSF (estudos bíblicos semanais na tal igreja), foi a justificativa: “Salvação não vem de obras”, e ideias que giravam em torno desse argumento. Depois disso, não há nada mais que um indivíduo minimamente sensato queira fazer no meio deles.

      Enfim, anos atrás busquei a igreja, uma igreja que eu já conhecia atrás de soluções, a fim de receber ajuda em momento crítico da minha vida após sofrer ameaça de morte e muita retaliação, e acabei encontrando um problema ainda maior tendo minha vida exposta e humilhada em nome de interesses pessoais, do lucro máximo e da exploração alheia. O que é muito comum, aliás, o que é o mais comum, eu passei por terrorismo no trabalho – em nome de Jesus.

      A Sua Justiça Brilhará como o Sol do Meio-Dia (Salmo, 37: 6)

      Como minha fé em Deus sempre foi sólida, mesmo nas dificuldades, os deixei e hoje minha vida só melhorou, e resolvi todos os problemas levados à mencionada “igreja” – sempre tendo Jesus como centro da minha vida. Por situações desse tipo e até por muito menos, muita gente já caiu na vida. Pois é por essas e outras que, enquanto bastante gente (inclusive de igrejas cristãs) diz que “é muito difícil viver com Jesus”, eu afirmo: difícil, é viver sem Ele.

      Não roube, não minta e não faça tratos desonestos.
      Não roube e não explore os outros. Pague pontualmente
      o salário do trabalhador que você contratou.
      Não passe a noite com o dinheiro devido ao trabalhador pago por dia de trabalho.
      (Levítico, 19)

  6. Marcus Vinícius Costa

    Enquanto os diplomatas brasileiros necessitam ter fluência em vários idiomas, ter conhecimentos vários de história e geopolítica e estudar a vida inteira (alguns o fazem desde a adolescência), além de prestar um concurso dificílimo no Instituo Rio Branco, os americanos precisam apenas de uma indicação…

    De todas as reportagens aqui postadas, considero que essa seja a melhor.
    Aproveito para dizer que aprecio o blog pela qualidade jornalística da Natalia Vianna. Reportagens muito bem escritas, com conteúdo interessantíssimo e ainda por cima, acessível (de graça), o que prova que as “gratuidades” que a Internet oferece não precisam ser de qualidade duvidosa.

    • Lucas Rezende

      Caro Marcus,

      Até mesmo no Brasil o cargo de embaixador é político, e pode ser tanto de profissionais de carreira quanto por indicação, como é o caso retratado.

      No mais, a reportagem faz um bom retrato das relações bilaterais nos últimos anos, mas sem de fato entrar na análise do fenônemo Wikileaks. Esperava algo mais sólido nesse sentido.

      • Marcus Vinícius Costa

        Lucas,

        Acho que você tem razão. Talvez eu tenha sido induzido a achar que os cargos de embaixadores brasileiros são ocupados apenas por critérios estritamente técnicos. Para um cargo tão importante, há que se considerar sim o fator político.

        Quais teriam sido os últimos embaixadores “políticos” do Brasil? Se alguém (ou você mesmo) souber a resposta, comente aqui.

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